IDOSOS: TRABALHO, FAMÍLIA E SOCIEDADE

05 dezembro 2016
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Author :   Maria da Conceição Couvaneiro
Citar ARTIGO: Couvaneiro, M.C. 2014. Idosos: Trabalho, Família e Sociedade Brincar. Revista Segurança Comportamental, 8, 4-5 Maria da Conceição Couvaneiro | PhD Psicologia | Instituto Piaget

Perante o envelhecimento da população é necessário criar condições para que os idosos permaneçam participantes ativos, durante a sua vida, tanto no ponto de vista social, laboral como económico. Tudo isto exige um verdadeiro diálogo que tenda a minimizar os efeitos da competitividade e aprofunde os laços entre gerações.

Viver mais pode considerar-se um estimável progresso civilizacional. Anseia-se, contudo, não apenas por viver mais, mas por viver melhor. Para tal é necessário atender ao impacto decorrente deste facto, na estrutura social existente. Proceder aos ajustamentos e atender às novas configurações da estrutura demográfica. Em períodos conturbados, como os que se vivem, as questões que se agudizam, de forma estrutural, no mundo do trabalho afetam, principalmente, as populações mais vulneráveis nas quais se incluem os idosos e também os jovens. Na família as questões colocam-se com muita relevância não só porque esta sofreu profundas alterações, enquanto modelo organizativo, sendo hoje de menor durabilidade as relações, como também, devido à maior longevidade dos seus membros. A desestruturação/reestruturação das famílias agrega, no mesmo núcleo, diferentes progenitores: pais, filhos avós, bisavós, havendo razões para, como no caso dos filhos serem referidos, “os meus os teus e os nossos” já que estes podem provir das diferentes ligações. No que se refere ao trabalho fala-se de envelhecimento ativo, como forma de combater as dificuldades económicas e de manter os idosos úteis e saudáveis e, ao mesmo tempo, de melhorar a economia, diminuir a pressão sobre os sistemas de saúde e da segurança social, nomeadamente nas reformas. Os estudiosos do envelhecimento (psicólogos, sociólogos gerontólogos, economistas, entre outros) referem-no e os políticos anunciam-no e proclamam-no, com preocupação, nos seus programas eleitorais. Os governos, conscientes do impacto do envelhecimento demográfico que decorrentes outros, das melhores condições de saúde e de higiene, proclamam medidas, fazem declarações, estabelecem acordos, com vista a minimizar os impactos decorrentes desta situação. Após 2012 ter sido consagrado como “No Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade Entre Gerações” (AEEASEGs, 2012) muitas medidas foram sendo anunciadas para implementar o paradigma do envelhecimento ativo. Tal ocorreu no prosseguimento da Convenção celebrada entre os Países Europeus em 2011. Pretendeu, esta Convenção, estabelecer um plano estratégico e operacional com vista a permitir a criação de políticas para um envelhecimento ativo, otimizando os cuidados de saúde, limitando os cuidados a dispensar e as pressões económicas e sociais deste tipo de cuidados. Proporcionar, enfim, maior qualidade ao envelhecimento. Nos dias 13 e 14 de junho de 2013, foi assinada a Declaração de Dublin em King’s Inns (European Commission, 2013). Esta pretende dar expressão à vida ativa e com saúde e o compromisso de criar uma Europa amiga dos idosos. Tendo presente o fenómeno generalizado do envelhecimento da população é necessário criar condições para que os idosos permaneçam participantes ativos, durante a sua vida, tanto no ponto de vista social, laboral como económico. Tal prevê, entre outros: as acessibilidades, o bem-estar, a inclusão e a capacidade de decidir e de desenvolver projetos. De estar “incluído” de pleno direito. Outras medidas locais são avançadas a fim de superar as dificuldades dos sistemas de apoio social. O tempo de cessação da atividade prolonga-se agora mais. Mas... paradoxo. As dificuldades agudizam-se neste período de transição. Com o crescente desemprego, procurar trabalho, com mais 40 é ficar sujeito a ouvir: “Hum... Já é velho demais para trabalhar”. E, não raro, acrescentam: “tem um grande currículo... irá, pois, ter dificuldade em ser aceite”. Que se dirá então dos de 65 ou mais anos? As exigências no trabalho também mudaram. Dados os grandes avanços tecnológicos que ocorrem, surgem desajustamentos, a que as empresas de recrutamento não ficam alheias. As tecnologias estão em constante rotação e, os idosos não estão, na generalidade, aptos a tal. No que concerne a professores ou literatos a continuação na cátedra para as carreiras de continuidade proporciona menos vagas. Constitui obstáculo para os mais novos singrarem na carreira académica. São mais lugares ocupados em tempo de desemprego e de crise. Os trabalhos braçais que incluam força física, destreza, minucia, estão também já fora do acesso dos mais velhos. Tudo isto exige, pois, um verdadeiro diálogo que tenda a minimizar os efeitos da competitividade e aprofunde os laços entre gerações. Que se disponibilize o acesso ao conhecimento e a aprendizagem ao longo da vida e que se evidenciem os valores decorrentes da troca de experiencias e de saberes.
A questão relativa às prestações sociais, nomeadamente às reformas é que o impacto também se faz sentir na sustentabilidade do regime em vigor. Como refere Peixoto (2007) a representação social na velhice está bastante marcada, pela revolução industrial e à inserção do idoso “no processo de produção”. A sua saída ou menor operacionalidade confere-lhe o estatuto de inutilidade. Sustentar os mais velhos no mercado de trabalho não compensa o salário pago. Restava, então, passá-los à aposentadoria. Diminuiriam os custos e proceder-se-ia, deste modo, à renovação ou refrescamento dos quadros, pela entrada de mais novos. Mais que assistencial a perspectiva foi economicista. Hoje, a população ativa enfrenta o problema do desemprego. Os reformados, detentores de algum superavit, são em muitos casos, o suporte económico familiar. Assiste-se a uma mudança de ciclo. Surge uma nova conjuntura civilizacional que urge equacionar. Este período de transição implica mudanças estruturais no trabalho. A afirmação dos valores da família. A educação deve contribuir para promover um diálogo intergeracional, para bem de todos. Para uma sociedade inclusiva, mais justa e em que todos participem.

Referências Bibliográficas
Comissão Europeia (2012). Programa - No Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade Entre Gerações – Portugal.
European Commission (2013). Employment, social affaires, & inclusion. Declaração de Dublin sobre Cidades Age-friendly e comunidades na Europa 2013.
Peixoto, C.(2007). Entre o estigma e a compaixão e os termos classificatórios:velho, velhote, idoso, terceira idade. In M. M. L. Barros (Org.),Velhice ou Terceira Idade? Estudos antropológicos sobre identidade, memória e política (pp.69-84). Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas Editora

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