COMPORTAMENTOS SEGUROS NUMA EMPRESA DO SECTOR DA INDÚSTRIA AUTOMÓVEL

06 dezembro 2016
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Author :   Maria Manuel Crispim & Anabela Correia
Indexação LATINDEX | Citar ARTIGO: Crispim, M., Correia, A. 2016. Comportamentos Seguros numa Empresa do Sector da Indústria Automóvel. Revista Segurança Comportamental, 10, 26-28. Maria Manuel Crispim & Anabela Correia | Técnica Superior de Segurança e Higiene do Trabalho na Webasto Portugal & Professora no Instituto Politécnico de Setúbal e Investigadora no GOVCOOP-Universidade de Aveiro | maria.crispim@webasto.com & anabela.corre

Para incentivar comportamentos seguros numa empresa do setor automóvel foram identificados fatores que favorecem e dificultam estes atos. As estratégias identificadas para eliminar ou minimizar os fatores de obstáculos são: área autónoma, superiores hierárquicos “darem exemplos”, definir processos, haver penalizações, cultura, evitar a benevolência e formação.

OJECTIVOS
O objetivo principal deste estudo foi analisar formas de incentivar os colaboradores a assumirem comportamentos seguros numa empresa do sector automóvel. Nesse sentido, procurámos identificar quais os fatores que contribuem e que influenciam a adoção de comportamentos seguros; conhecer quais os fatores que dificultam a adoção destes comportamentos; e encontrar estratégias para eliminar ou minimizar os fatores que dificultam os trabalhadores a terem comportamentos seguros. A pertinência deste estudo centra-se em desenvolver propostas de melhoria para evitar eventuais incidentes ou acidentes de trabalho.

METODOLOGIA
A empresa onde se realizou o estudo é uma empresa com larga experiência na produção de componentes para o sector automóvel. Está sediada na Alemanha e representada em mais de 20 países. Atualmente, em Portugal, tem cerca de 107 trabalhadores.
Através da realização de um focus group, composto por cinco chefias da empresa de diferentes áreas, pretendeu-se conhecer a perceção dos participantes sobre como incentivar os trabalhadores a assumirem comportamentos seguros. Do total dos participantes, 4 são do sexo masculino. Quanto à faixa etária esta situa-se numa média de idades de 42 anos. No que concerne às habilitações literárias, à exceção de um participante, todos possuem o ensino superior.

PRINCIPAIS RESULTADOS
A sessão do focus group foi gravada, com autorização, procedendo-se depois à análise de conteúdo. Apresentam-se em seguida, nos quadros 1, 2 e 3, os resultados obtidos no focus group.

Quadro 1 - Fatores que contribuem ou influenciam a adoção de comportamentos seguros   

Categorias e subcategorias resultantes do focus group          Participantes   
      P1     P2 

P3   

P4    P5
Exemplos de “cima”  x  x  
Cultura organizacional    x    
Avaliação do risco    x    
Formação e informação  x    x
Abertura/pertença    x  
Medidas de força/autoridade/sistemas de penalização  x  

Quadro 2 - Fatores que dificultam (obstáculos) a adoção de comportamentos seguros

Categorias e subcategorias resultantes do focus group                          Participantes   
      P1     P2 

P3   

P4    P5
Cultura       x  
Não haver exemplos de “cima”   x      
Falta de formação e de informação   x      
Benevolência/facilitismo   x x x  
Vícios/níveis de confiança   x x    
Produção     x    
Área dependente     x x  
Não haver problemas com custos/sem restrições   x x x  
Incumprimento de processos   x x    

Quadro 3 - Eliminação ou minimização dos fatores que dificultam comportamentos seguros

Categorias e subcategorias resultantes do focus group          Participantes   
      P1     P2 

P3   

P4    P5
 Área autónoma      x   x  
 Superiores hierárquicos “darem exemplos”    x   x  x  
 Definir processos e haver penalizações  x  x  x  x
 Cultura      x    
 Evitar a benevolência      x    
 Formação    x      

A maioria dos participantes considerou que um dos fatores mais importantes eram os exemplos de “cima”. De acordo com Schein (1989) as respostas à mudança terão mais peso se vierem dos superiores hierárquicos.
A cultura organizacional também tem uma influência considerável, uma vez que pode contribuir de forma positiva ou negativa para a adoção de comportamentos seguros e foi mencionada como uma forma de intervenção para a eliminação ou minimização dos obstáculos. Trabalhar com segurança deve ser um valor fundamental conhecido e partilhado por todos os colaboradores (Crutchfield & Roughton, 2013; Florczak, 2009).
Dois dos participantes referiram como fator a ter em conta na adoção de comportamentos seguros a avaliação do risco. De acordo com Fung et al. (2010) a análise de risco de segurança é uma base necessária sobre a qual a gestão da segurança pode ser construída e a avaliação de risco torna-se uma atividade crítica, constituindo uma parte integrante dos sistemas de gestão da segurança.
Na opinião dos participantes, a formação e a informação pode atuar de forma positiva na adoção de comportamentos seguros, todavia, a falta da mesma pode ser um obstáculo, sendo apresentada como uma das medidas para a sua eliminação ou minimização. De acordo com Cooper (2001) tentar mudar o comportamento e as atitudes das pessoas através da formação é um dos métodos mais utilizados para melhorar a segurança no local de trabalho.
Para três dos participantes a abertura/pertença podem contribuir para a adoção de comportamentos seguros. Segundo Bley (2006), o desenvolvimento de uma cultura mais preventiva nos ambientes de trabalho passa, necessariamente, pela participação e pela concessão de poder aos trabalhadores envolvidos.
Quatro dos participantes admitem que os sistemas de penalização apresentam-se como fatores que contribuem ou influenciam a adoção de comportamentos seguros. No mesmo sentido alguns participantes referem o incumprimento de processos como fator que dificulta, e outros participantes realçam que as medidas de eliminação dos obstáculos passam pela junção da definição de processos com as penalizações. Algumas abordagens para a gestão da segurança são fortemente dependentes do uso da punição, no entanto, muitas vezes resulta no oposto ao pretendido (Kaila, 2008). O reforço através do castigo tem como objetivo diminuir a probabilidade do comportamento se repetir (Channing, 2013), mas segundo Bley (2006) a diminuição da frequência do comportamento pode não ser permanente.
A benevolência/facilitismo apresenta-se como um dos fatores que dificultam a adoção de comportamentos seguros. Evitar a benevolência é uma das medidas para a sua eliminação ou minimização. Estas opiniões estão de acordo com Parboteeah e Kapp (2007) que referem que a benevolência não está relacionada com o reforço dos comportamentos de segurança.
Os vícios e os níveis de confiança foram identificados como fatores que também se apresentam como obstáculos. Um estudo apresentado por Cooper (2001) revela que a capacidade de uma pessoa determinar os riscos da perceção dos perigos, é influenciada, entre outros motivos, pelo nível de confiança que têm em relação ao desempenho das suas próprias tarefas e pelo nível de controlo que sentem sobre quaisquer perigos. A produção foi apontada por um dos participantes como um fator que dificulta a adoção de comportamentos seguros. Segundo Geller (2000) os supervisores, por vezes, ativam e recompensam comportamentos de risco, sem querer, é claro, para conseguir produzir mais. Cinco unidades de registo defendem que a área de segurança e saúde no trabalho sendo uma área dependente apresenta-se como um obstáculo. De igual forma, é identificada como uma medida de eliminação ou minimização a criação de uma
área autónoma.

Sugere-se:
- Mais ações de sensibilização para os comportamentos seguros;
- Envolvência de todos na determinação de procedimentos;
- Participação de todos em relação à determinação das consequências;
- Maior responsabilização pelos seus comportamentos.

CONCLUSÕES
Dos dados obtidos, sugere-se que haja mais ações de sensibilização para os comportamentos seguros, que haja uma envolvência de todos na determinação de procedimentos bem como das consequências e que haja, igualmente, uma maior responsabilização pelos seus comportamentos. Importa referir a existência de algumas limitações na elaboração deste estudo. Em primeiro lugar, no decorrer desta pesquisa, a empresa onde realizou-se o estudo de caso iniciou um processo de despedimento coletivo, o que desencadeou algumas limitações, nomeadamente, quanto ao número de trabalhadores que puderam participar neste estudo. Todavia, é importante salientar, que a informação não é representativa de todos os colaboradores, representa a visão de um determinado grupo de pessoas sobre um determinado tema. A realização de um único estudo de caso pode constituir uma limitação. Será pertinente conduzir este estudo noutras empresas do sector automóvel para poder comparar os resultados.

Referências bibliográficas
Bley, J. Z. (2006). Comportamento seguro: A psicologia da segurança no trabalho e a educação para a prevenção de doenças e acidentes de trabalho, Curitiba, Editora Sol.
Channing, J. (2013). Safety at Work (8 th ed.), London, Routledge.
Cooper, M.D. (2001). Improving safety culture: A practical guide, New Jersey, John Wiley and Sons.
Crutchfield, N. & Roughton, J. (2013). Safety Culture. An Innovative Leadership Approach. Oxford: Butterworth-Heinemann. Available: http://bookzz.org/book/2204840/60642b. [Accessed 24 may 2015].
Florczak, C. (2009). Maximizing Profitability with Safety Culture Development, Oxford, Butterworth-Heinemann.
Fung, I., Tam, V., Lo, T. & Lu, L. (2010). Developing a risk assessment model for construction safety. International Journal of Project Management, 38 (6), pp. 593–600.
Geller, E.S. (2000). The Psychology of Safety Handbook, Florida, CRC Press.
Kaila, H.L. (2008). Behaviour Based Safety In Organizations: A Practical Guide, New Delhi, IK International Publishing House.
Parboteeah, K. & Kapp, E. (2007). Ethical climates and workplace safety behaviors: An empirical investigation. Journal of Business Ethics, 80, pp. 515–529.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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