METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO PSICOSSOCIAL EM SAÚDE E SEGURANÇA NO TRABALHO

27 março 2017
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Author :   Graziela Alberici
Indexação LATINDEX | Citar ARTIGO: Alberici, G. 2016. Metodologia de avaliação psicossocial em saúde e segurança no trabalho. Revista Segurança Comportamental, 10, 46-48. Graziela Alberici | Psicóloga – Analista Técnica da Área de Segurança e Saúde | graziela.alberici@sesirs.org.br

A metodologia utilizada para a realização das avaliações psicossociais tem caráter interdisciplinar. É uma tentativa de identificar sintomas presentes ou latentes de transtornos mentais e comportamentais com base no referencial teórico-científico do psicólogo, em âmbito de contexto de vida do trabalhador, fora e dentro da empresa. É aplicada a trabalhadores que atuam em espaços confinados e trabalhos em altura.

RESUMO
O presente artigo tem por objetivo abordar a metodologia das avaliações psicossociais de trabalhadores que atuam em espaços confinados e altura, na prevenção de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho. De acordo com estudo realizado por Mendes (2011), com base nos dados do Ministério da Previdência Social do Brasil a saúde mental já é o terceiro motivo de afastamento do trabalho. Em face desse cenário, o Serviço Social da Indústria do Rio Grande do Sul desenvolveu uma metodologia para avaliação de riscos psicossociais no trabalho com o objetivo de possibilitar às indústrias a adoção de medidas preventivas, auxiliar na redução de acidentes, e impactar na melhoria da qualidade de vida do trabalhador e na promoção de um ambiente de trabalho saudável.

INTRODUÇÃO
O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil normatiza por meio de Normas Regulamentadoras (NRs), as regulamentações que fornecem parâmetros e instruções sobre Saúde e Segurança no Trabalho. As NRs são elaboradas por uma comissão composta por representantes do governo, empregadores e empregados. A NR33 (Portaria MTE nº 202/2006) refere-se a Segurança e Saúde nos Trabalhos em Espaços Confinados e a NR35 (Portaria SIT nº 313/2012) refere-se a Segurança e Saúde no Trabalho em Altura.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) desde 1984 refere-se aos fatores psicossociais no trabalho como a interação entre o trabalho (ambiente, satisfação e condições de sua organização) e as capacidades do trabalhador (necessidades, cultura e situação externa ao trabalho), trata-se, portanto, da relação subjetiva que o trabalhador estabelece com seu trabalho.

1. Aspectos Legais
O Brasil, por ser signatário da OIT, acompanha suas atualizações e dispõe de legislação própria e específica para a área de Segurança e Saúde no Trabalho. Conforme o disposto na e NR-35 todo trabalhador designado para atuar em espaços confinados e trabalho em altura deve ser submetido a exames médicos específicos para a função que irá desempenhar, incluindo os fatores de riscos psicossociais, de acordo com o que estabelece a NR 07 referente a Programas de Controle Médicos de Saúde Ocupacional (PCMSO).
Espaço confinado é qualquer área ou ambiente não projetado para ocupação humana contínua, que possua meios limitados de entrada e saída, cuja ventilação é insuficiente para remover contaminantes ou onde possa existir a deficiência ou o enriquecimento de oxigênio. São inúmeros os ramos da indústria onde são encontrados, tais como: construção civil, siderúrgicas, metalúrgicas, indústrias químicas e petroquímicas, indústria naval e de operações marítimas, serviços de gás, águas e esgoto. Os riscos mais comuns são incêndio e explosão, intoxicações por gases e substâncias químicas, infecções por agentes biológicos, afogamentos, quedas e soterramentos.
Em relação ao trabalho em altura, considera-se para tais fins toda atividade executada acima de 2,00 metros do nível inferior, onde haja risco de queda. São encontrados com maior frequência em obras da construção civil e reformas, pontes rolantes, montagem de estruturas, depósitos, serviços em linhas de transmissão e postes elétricos, montagem de estruturas, telecomunicações, construção e reparação naval, entre outros.

“(…) todo trabalhador designado para atuar em espaços confinados e trabalho em altura deve ser submetido a exames médicos específicos para a função que irá desempenhar, incluindo os fatores de riscos psicossociais, (…)”

2. Fatores psicossociais
As mudanças significativas que ocorreram no mundo do trabalho nas últimas décadas, resultaram no surgimento de riscos ocupacionais no campo da segurança e saúde (risco físicos, químicos e biológicos), bem como em riscos psicossociais.
A primeira referência para estruturação das ações do processo de atenção psicossocial foi o relatório da Organização Internacional de Trabalho (OIT) e Organização Mundial de Saúde (OMS), de Genebra em 1984.
Os fatores psicossociais referem-se às interações entre meio ambiente, condições de trabalho e organizacionais e as características individuais e familiares dos trabalhadores. Ou seja, a natureza desses fatores é complexa e multicausal, pois abrange uma série de questões associadas às próprias características dos indivíduos (Stravoula, L. & Aditya, J., 2012).
Atualmente, no Brasil, os transtornos mentais e comportamentais ocupam o terceiro lugar entre os adoecimentos que mais afastam:

PRINCIPAIS CAUSAS DE AFASTAMENTO ACIMA DE 15 DIAS NO BRASIL
Lesões e traumatismos   62,33%
Doenças osteomusculares   26,34%
Transtornos mentais e comportamentais   3,88%

Fonte: MPS/INSS (Mendes, 2011).

Dentre os afastamentos motivados por transtornos mentais e comportamentais as principais causas encontradas são: (1º) Episódios depressivos, (2º) Outros Transtornos Ansiosos e (3º) Transtorno Depressivo Recorrente (Mendes, 2011).
Frente a esse panorama, é fundamental que uma avaliação de riscos psicossociais possa abranger uma avaliação geral da condição de saúde mental do trabalhador, com vistas a detectar transtornos mentais e do comportamento em curso ou iminentes, bem como, observar a existência de perfil de comportamento seguro e saudável relacionando-o com a tarefa e às condições do ambiente de trabalho, no que tange à organização do trabalho.

3. Metodologia de avaliação psicossocial
A avaliação é realizada por psicólogo, por meio da análise da história clínica pessoal e ocupacional, com a aplicação de testes psicológicos e inventários específicos.
São investigados fatores da vida familiar, social e laboral do trabalhador, sua trajetória profissional, histórico de acidentes e afastamentos, histórico e condição atual de exposição a riscos, desempenho de tarefas, recursos de coping, estilo de vida, tratamentos, transtornos mentais e comportamentais, uso de álcool e drogas.
 É realizada nos exames admissionais, periódicos e de mudança de função.

São investigados fatores da vida familiar, social e laboral do trabalhador, sua trajetória profissional, histórico de acidentes e afastamentos, histórico e condição atual de exposição a riscos, desempenho de tarefas, recursos de coping, estilo de vida, tratamentos, transtornos mentais e comportamentais, uso de álcool e drogas.

4. Anamnese
A anamnese é constituída por uma ficha de identificação do trabalhador na qual é investigada a vida familiar, social e laboral do trabalhador.

5. Testes Psicológicos
Os instrumentos de avaliação psicológica são utilizados para a detecção de fatores da personalidade, da atenção e da presença de sintomas de transtornos mentais como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, transtorno de humor, uso de álcool e drogas, entre outros.
De acordo com Baumgartl e Primi (2006) “indivíduos que se envolvem em acidentes no trabalho são considerados pessoas que subestimam os riscos, superestimam seu controle pessoal nas situações e possuem falta de entendimento de como o dano é causado”.
Para a avaliação psicossocial optou-se por utilizar uma bateria composta por três testes:
 Avaliação de Depressão e Ansiedade: Escalas Beck - Inventário de Depressão (BDI) e Inventário de Ansiedade (BAI);
 Avaliação de Personalidade: Teste Palográfico;
 Avaliação de Atenção Difusa: TEDIF1 e TEDIF2.
Depois de realizada a avaliação é emitido um relatório psicológico para que o médico possa julgar a aptidão do trabalhador. Um dos principais eixos do trabalho interdisciplinar está no acolhimento do saber do outro profissional com vistas a ampliar o próprio saber de quem está avaliando, por isso é fundamental a interação com o médico do trabalho.

"(...) instrumentos de avaliação psicológica são utilizados para a detecção de fatores da personalidade, da atenção e da presença de sintomas de transtornos mentais como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, transtorno de humor, uso de álcool e drogas, entre outros."

CONCLUSÕES
A metodologia utilizada para a realização das avaliações psicossociais tem caráter interdisciplinar, uma vez que é auxiliar ao trabalho do médico. É uma tentativa de identificar sintomas presentes ou latentes de transtornos mentais com base no referencial teórico-científico do psicólogo. Porém, ela não se dá de maneira isolada, ela está circunscrita no contexto de vida do trabalhador e da empresa em que ele trabalha.
A metodologia leva em conta a psicodinâmica do trabalhador e seu caráter biopsicossocial, inserido no contexto do mundo do trabalho.

Referencias bibliografias 
Baumgartl, V. O. & Primi, R. (2005). Contribuições da avaliação psicológica no contexto organizacional. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Organização Mundial da Saúde (1993). CID-10 – Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Porto Alegre: Artes Médicas.
European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions (1996). Stress prevention in the workplace: assessing the costs and the benefits to organisations. Dublin, Ireland.
Mendes, A. M. et al. (2011). Transtornos Psicossociais no Trabalho: a situação das indústrias brasileiras. Brasília: SESI.
Stravoula, L. & Aditya, J. (2012). PRIMA-EF – Modelo Europeu para Gestão de Riscos Psicossociais no Local de Trabalho: Adaptando o Sistema de Excelência em Gestão dos Riscos Psicossociais no Brasil. Institute of Work Health and Organizations, University of Nottingham. Nottingham University Business School. Institute of Work Health and Organizations, University of Nottingham. Nottingham University Business School.

 

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    (1) Artigo redigido em português do Brasil

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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