GESTÃO CRUZADA DOS INDICADORES EM SEGURANÇA DO TRABALHO APLICADO AO DESENVOLVIMENTO DE UMA CULTURA DE PRODUÇÃO SEGURA

27 março 2017
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Author :   Maria Quaresma de Araújo
Indexação LATINDEX | Citar ARTIGO: Quaresma de Araújo, M. 2016. Gestão cruzada dos indicadores em segurança do trabalho aplicado ao desenvolvimento de uma cultura de produção segura. Revista Segurança Comportamental, 10, 33-35. Maria Quaresma de Araújo | Coordenadora de Segurança do Trabalho na organização Klabin S.A. | mcaraujo@klabin.com.br

A metodologia apresentada é aplicada à gestão dos indicadores de Segurança do Trabalho, como objetivo difundir a cultura de produção segura, onde segurança e produtividade caminham juntas. A ferramenta descrita trata-se de um projeto piloto, numa Indústria de Papel e Celulose. Ocorre o aumento da participação de pessoas dos níveis hierárquicos inferiores, devido à aproximação com os processos e atividades.

RESUMO:
Este artigo se propõe a apresentar uma metodologia aplicada a gestão dos indicadores de Segurança do Trabalho e suas implicações no desenvolvimento de uma Cultura Sustentável em Segurança. Como ponto de partida, o artigo relata desde o princípio da adaptação do método de controle orçamentário denominado Gerenciamento Matricial de Despesas (GMD), à aplicação prática na realidade do negócio Florestal de uma empresa de Papel e Celulose.
Discute-se também, como a inovação pode ajudar no controle dos acidentes e na preservação da vida, disseminando uma preocupação genuína de gestores e operação com relação ao seguimento de procedimentos em busca da excelência operacional. O controle cruzado de ocorrências trata-se de uma metodologia adaptada do controle de despesas para a Segurança do Trabalho, e têm como objetivo difundir a cultura de produção segura, onde segurança e produtividade caminham juntas. O controle orçamentário tem papel importante na coordenação das atividades e no estabelecimento de incentivos apropriados nas organizações (Silva & Gonçalves, 2008). Sua relevância pode ser maximizada na medida em que ocorre o aumento da participação de pessoas dos níveis hierárquicos inferiores, devido à aproximação com os processos e atividades, que realmente determinam o resultado final. Foi considerando o mesmo conceito que a metodologia do Gerenciamento Matricial de Despesas a qual foi adaptada e aplicada na realidade da Segurança do Trabalho.

CULTURA DE SEGURANÇA
Pode-se afirmar que aprender a comportar-se de forma preventiva (segura) pode ser um dos meios possíveis e eficazes de capacitar o trabalhador para prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho, para si e para os colegas. Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho, é necessário, antes compreender o que efetivamente precisa ser ensinado e aprendido, bem como de que forma isso pode ocorrer (Bley, 2006, p.23). Prevenir um acidente é muito mais do que simplesmente não causar danos a um colaborador, passa por uma mensagem do verdadeiro significado do ser humano para a sociedade na qual ele está inserido. Para Weick e Sutcliffe (2007), a cultura de segurança ajuda a criar uma cultura sempre atenta ao inesperado, que é uma característica das organizações de alta confiabilidade, como aviação e indústria nuclear, nas quais o sucesso na área de segurança é estar sempre atento ao imprevisto e acreditar que os acidentes sempre estão para acontecer (Cardella, 1999), ao articular a segurança do trabalho que ele chama de uma visão holística (outra expressão utilizada para uma visão sistêmica dos fenômenos), define o acidente como um fenômeno multifacetado, resultante de interações complexas entre fatores físicos, biológicos, psicológicos, sociais, culturais (Dela Coleta, 1991), reitera a importância do contexto para os padrões comportamentais obtidos no que diz respeito à prevenção de acidentes de trabalho. O presente trabalho visa contribuir para o debate sobre a necessidade de transformar os conceitos e as práticas de segurança em elementos norteadores do processo de transformação uma cultura de produção segura.
A abordagem integrada das questões de segurança do trabalho, ambiente e cultura representa na atualidade um grande desafio para melhorar os ambientes de trabalho e reduzir acidentes. Por outro lado, um sistema de produção, qualquer que seja ele, não é sustentável quando o ambiente em que os colaboradores exercem suas atividades não é seguro e saudável, cause mortes, mutilações e doenças da força de trabalho (Gonçalves Filho et al. apud Oliveira, 2011).

"Para que seja possível promover o ensino de comportamentos preventivos em segurança do trabalho, é necessário, antes compreender o que efetivamente precisa ser ensinado e aprendido (...)"

GERENCIAMENTO MATRICIAL DE DESPESAS
O método por sua vez, fundamenta-se em três princípios, os quais são (INDG, 2010):
Controle cruzado: as principais despesas são orçadas e controladas por duas pessoas, o gestor do centro de custos ou entidade e o gestor do pacote de gastos ou conta;
Desdobramento das despesas: decomposição de todas as despesas ao longo da matriz orçamentária até os centros de custos e processos, onde ocorrem as atividades;
Acompanhamento sistemático: acompanhamento da evolução das despesas no tempo, comparando-as com metas pré-estabelecidas por tipo ou grupo de contas e subcontas a fim de que cada desvio observado seja objeto de uma ação corretiva por parte dos gestores envolvidos.
Outra contribuição oriunda da adoção do GMD, é que o planejamento orçamentário é tratado como a atividade que objetiva a elaboração de um plano que contemple todas as despesas previstas para uma determinada área ou entidade dentro da organização. É resultado do estudo das despesas uma a uma e sua distribuição no tempo. (INDG, 2010).
No modelo aplicado aos indicadores de Segurança do Trabalho, os planos de ação são realizados e cobrados de forma que, de fato, reduzam recorrências. A metodologia do GMD já havia sido aplicada na empresa objeto de estudo, e, como produto, obteve-se a percepção compartilhada de que os colaboradores estavam mais conscientes a respeito dos custos. Com o sucesso da metodologia aplicada ao desenvolvimento da “cultura de custos”, e alinhado ao desafio de criar uma cultura de Segurança, optou-se pela adaptação da metodologia à Segurança do Trabalho.

GERENCIAMENTO MATRICIAL DE SEGURANÇA
O Gerenciamento Matricial de Segurança consiste da adaptação da estrutura de planejamento e controle de despesas, chamado de Gerenciamento Matricial de Despesas. Esta metodologia se aplica ao desenvolvimento de controle de custos através do desdobramento de contas e sub-contas contábeis para apuração e acompanhamento.
Em pesquisas acadêmicas são poucos os trabalhos que tratam especificamente do Gerenciamento Matricial de Despesas. Na busca literária para confecção desta proposta a ser aplicada na empresa e elaboração deste trabalho, foram encontrados alguns artigos e manuais que descrevem a sistemática do GMD (Alexandra, 2008), havendo uma predominância de trabalhos aplicados em instituições governamentais.

Esta abordagem leva em consideração que o acidente não é elemento fortuito e neutro de transmissão desinteressada do contexto social, tendo, portanto, história e envolvimento com o contexto cultural ao qual está inserido e devendo ser observado de maneira ampla na organização (Geller, 2005).

METODOLOGIA APLICADA A SEGURANÇA DO TRABALHO
O modelo adaptado à Segurança do Trabalho, assim como é utilizado no Gerenciamento Matricial de Despesas (GMD) utilizou-se em dois pacotes, denominados Pacotes de ocorrências e, Pacote de relatos de segurança.
No pacote de ocorrências foram “orçadas” reduções de metas com as entidades, de acordo com o referencial histórico de ocorrências no período de 24 meses em cada uma das áreas. Já o pacote de relatos de segurança, com o intuito de reforçar o “pensar em Segurança do Trabalho”, e consequentemente o aumento da consciência dos colaboradores referentes às tomadas de decisões que envolvem segurança.
Esta abordagem leva em consideração que o acidente não é elemento fortuito e neutro de transmissão desinteressada do contexto social, tendo, portanto, história e envolvimento com o contexto cultural ao qual está inserido e devendo ser observado de maneira ampla na organização (Geller, 2005).
O artigo em questão pretende demonstrar de maneira prática, o desenvolvimento e sustentabilidade de gestão de indicadores que visem o aumento da segurança nas operações e não a simplicidade de reparação de erros.  A ferramenta descrita trata-se de um projeto piloto, no negócio Florestal de uma Indústria de Papel e Celulose localizada no interior do Paraná, no Brasil e têm como abrangência outras duas unidades florestais, sendo uma no estado de Santa Catarina e outra no interior do estado de São Paulo.
A metodologia aplicada foi adaptada à realidade da Segurança do Trabalho, porém já era utilizada para desenvolvimento de cultura de controle orçamentário na Companhia. Para Araújo (2013), a teoria permite identificar um vasto campo para explorar os estágios de maturidade na cultura de segurança. Para Dupont apud Bradley (2013), existem quatro níveis de maturidade em segurança, são eles: Passividade, Dependência, Independência e Interdependência.
Uma cultura madura é aquela onde a segurança torna-se sustentável, onde as taxas de lesões são praticamente zero, os trabalhadores compreendem que podem agir conforme necessário para trabalhar com segurança. Neste contexto, ocorre o apoio mutuo entre os trabalhadores mesmo em situações onde haja competição, as decisões são tomadas e procedimentos criados pela empresa e as pessoas passam a viver de acordo com as mesmas. Com a cultura no estado maduro a organização beneficia-se significativamente em termos de qualidade, produtividade e lucros elevados (Dupont, 2013).   
O método descrito neste estudo prevê que exista acompanhamento sistemático de resultados mensais, controle cruzado de informações e desdobramento das ocorrências a fim de desenvolver e deixar em voga o tema Segurança do Trabalho.
No modelo aplicado, os indicadores são geridos por colaboradores que não pertencem à área de segurança do trabalho de maneira estratégica, a fim de que outros colaboradores estejam envolvidos com o tema em questão, possibilitando gerar maior comprometimento nas tomadas de decisão que envolve o tema na operação.
O presente trabalho visa contribuir para o debate sobre a necessidade de transformar os conceitos e as práticas de segurança em elementos norteadores do processo de transformação de uma cultura sustentável para a produção segura. 

"No modelo aplicado, os indicadores são geridos por colaboradores que não pertencem à área de segurança do trabalho (...) possibilitando gerar maior comprometimento nas tomadas de decisão."

Referências Bibliográficas
Alexandre Sá, C. O Gerenciamento Matricial de Despesas. Available: http://carlosalexandresa.com.br/artigos/O-Gerenciamento-Matricial-de-Despesas.pdf [Accessed July 2016).
Araújo, M. Um análisys critico del Caso Chernobyl y sus enseñanzas para la minería:  La naturaleza y las variables del error humano: Sections 1 2. Seguridad Minera nº 108. Diciembre 2013 3 Índice 4 5 8 Publicación del Instituto de Seguridad Minera. ISEM Av. Javier Prado Este 5908 Of, p. 64 Available: http://pt.calameo.com/read/00262580561b4773119ce [Accessed July 2016).
Bley, J. (2003). Acidente de trabalho: o que o psicólogo tem a ver com isso?. Revista Psicologia Argumento Curitiba, Volume 21, p. 65-68.
Cardella, B. (1999). Segurança no Trabalho e Prevenção de Acidentes, uma abordagem holística: segurança integrada à missão organizacional com produtividade, qualidade, preservação ambiental e desenvolvimento de pessoas. São Paulo: Editora Atlas.
Dela Coleta, J. (1991). Acidentes de trabalho: fator humano, contribuições da psicologia do trabalho, atividades de prevenção. 2.ed. São Paulo: Atlas.
Bradley. Curva de Maturidade da Cultura de Segurança. Available:  http://www.dupont.com.br/produtos-e-servicos/consulting-services-process-echnologies/segurancadotrabalho/usos-e-aplicacoes/bradley-curva.html. [Accessed July 2016).
Geller, S. (2005). Behavior-based safety and occupational risk management. Virginia, Virginia Polytechnic Institute and State University.
Gonçalves et al. (2011). Cultura e gestão da segurança no trabalho: uma proposta de modelo. Gestão & Produção, 18(1), 205-220. Available:  https://dx.doi.org/10.1590/S0104-530X2011000100015 [Accessed July 2016).
Silva & Gonçalves. Aplicação da abordagem contingencial na caracterização no uso do sistema de controle orçamentário: um estudo multicaso. Revista de Gestão da Tecnologia e Sistemas de Informação, v.5, n.1, p.163-184, 2008. Available:   http://dialnet.unirioja.es/servlet/fichero_articulo?codigo=2734318&orden=0[Accessed July 2016).
Weick K, Sutcliffe K.(2007). Managing the unexpected: Resilient performance in an age of uncertainty. San Francisco, CA: Jossey Bass. Available: http://www.abepro.org.br/biblioteca/enegep2010_tn_sto_113_739_15235.pdf [Accessed July 2016).

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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