PERCEPÇÃO HUMANA E PREVENÇÃO DE ACIDENTES DE TRABALHO: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA

29 março 2017
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Author :   Débora Brandalise Bueno
Citar ARTIGO: Brandalise Bueno, D. (2014. Percepção humana e prevenção de acidentes de trabalho: contribuições da psicologia. Revista Segurança Comportamental, 9, 38-39. Débora Brandalise Bueno | Psicóloga. Técnica de Segurança do Trabalho. SESI – Serviço Social da Indústria - Brasil

A percepção humana influencia a prevenção de acidentes de trabalho e ocorrência de comportamentos seguros, já que é este fator que faz a diferença entre o risco percebido e o risco real. Também os resultados das observações comportamentais poderão ser influenciados pelas diferentes percepções dos observadores, uma vez que os mesmos são indivíduos sociais. Para reduzir esta influência sugere-se o aumento da frequência e a inclusão da visão de outros observadores.

Este trabalho objetivou identificar contribuições da psicologia no que se refere à percepção humana e sua influência na prevenção de acidentes de trabalho e ocorrência de comportamentos seguros. Através de estudos do processo perceptivo e tomadas de decisão, baseados no modelo de Wagner e Hollenbeck (2009), evidenciou-se a contribuição da psicologia como auxiliar nos processos de ampliação da percepção de riscos no trabalho. Outros autores como Dela Coleta (1991) e Bley (2006), foram fundamentais. O modelo de intervenção nas organizações foi criado considerando-se os diferentes produtos que o SESI – Serviço Social da Indústria, do Rio Grande do Sul, Brasil. Este estudo demonstrou novas e ampliadas formas de atuação dentro das organizações para que uma melhor percepção de riscos possa contribuir com a melhoria da segurança e da qualidade de vida dos trabalhadores.
A industrialização trouxe novas formas de organização do trabalho e o aumento da possibilidade de ocorrência de acidentes (Bley, 2006; Gonçalves & Dias, 2011). As causas de acidentes de trabalho são muitas e alguns autores (Dela Coleta, 1991; Gonçalves & Dias, 2011) consideram que há uma multiplicidade de fatores influenciadores. São questões psicossociais e ambientais agindo de forma sistêmica que geram tais situações.
Os riscos são diversos, mas a psicologia do trabalho relata os fatores humanos como os principais causadores de acidentes (Dela Coleta, 1991).
Salvar vidas, prevenindo acidentes de trabalho, é potencialmente saudável a qualquer organização e a todos aqueles envolvidos com ela. E para que a psicologia possa trazer contribuições na prevenção de acidentes é preciso saber quais os fatores individuais presentes nestas ocorrências para que, na prática, haja incentivo à prevenção dos acidentes de trabalho. 

Estudos
De acordo com diferentes autores, Dela Coleta (1991), Bley e Kubo (2003), Zócchio (2002), Correa e Cardoso (2007) e Almeida e Filho (2007), a causa de maior relevância na ocorrência dos acidentes de trabalho, refere-se ao comportamento humano. Sob esta perspectiva e de acordo com estudos realizados, a influência da percepção nos acidentes é amplamente citada: Bounassar, Salavessa e Uva (2007), Correa e Cardoso Júnior (2007), Peres et. al (2004), Roberto et. al (2003), Bley (2006), Motta (2002) e  Dela Coleta, (1991), entre outros.
Davidoff (2001) descreve a percepção como processo cognitivo elementar, pois é nela que cognição e realidade entram em contato. A partir daí o nosso mundo toma forma, pois é possível interpretar os estímulos recebidos pelos órgãos dos sentidos e responder às situações cotidianas.
Segundo Bley (2006), a percepção de riscos refere-se à capacidade individual de dar significado aos riscos e perigos do ambiente de trabalho. Considerando que cada pessoa possui um modo particular de percepção, presume-se que o risco percebido seja diferente do risco real. Essa diferença na área da segurança do trabalho, pode culminar no aumento ou redução de acidentes. São as influências das distorções perceptivas.
Para reduzir a possibilidade das distorções perceptivas, entende-se que um dos caminhos esteja na ampliação do campo perceptivo. Como referem Wagner e Hollenbeck (2009) “existem muitas maneiras pelas quais um observador [comportamental] pode deixar de retratar com precisão o ambiente. Felizmente, também existem muitas medidas bem conhecidas que podem ser tomadas para evitar esses problemas.” (p. 65) Estes autores descrevem maneiras de minimizar as possibilidades de distorções perceptivas, ampliando o campo perceptivo. Destacam-se:
- Aumentar a frequência de observações e a exposição do indivíduo àquilo que é necessário perceber.
- Considerar observações de diferentes pessoas e perspectiva.

Baseado nisso, surge o modelo abaixo:
O modelo de intervenção baseia-se no pressuposto de que, para reduzir a ocorrência de comportamentos inseguros, propõem-se ações que levem os indivíduos a reconhecerem o funcionamento do seu processo perceptivo, evidenciando possíveis distorções.
O SESI, que trabalha com questões prevencionistas relacionadas à segurança e saúde no trabalho, possui produtos que auxiliam na ampliação da percepção de riscos.
Serviços de atendimento básico às indústrias e de solicitação legal como o PPRA – Programa de Prevenção aos Riscos Ambientais, PCMSO – Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional, Curso de CIPA – Comissão Interna de Prevenção de Acidentes, Análise Ergonômica, campanhas de segurança focadas na área da construção civil e palestras de temáticas variadas em SIPAT – Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho, são exemplos da atuação do SESI. A forma de elaboração participativa com empresa e funcionários, tem feito destes produtos uma oportunidade para, inclusive, ampliar a percepção de riscos facilitando sua disseminação e discussão. Entende-se que trabalhadores que reconhecem os riscos no ambiente laboral tenham maior possibilidade de comportar-se de forma segura pois, ampliar o número de informações é garantir a veracidade destas, influencia para posteriores decisões que venham prevenir os acidentes de trabalho.
Além das atividades que são realizadas pelo SESI, há outras possibilidades de atuação, de acordo com cada empresa, já que este é um modelo passível de customização.

Conclusões
O modelo de intervenção instiga diferentes formas de atuação para a prevenção de acidentes de trabalho, atingindo as hierarquias da empresa e com intenção de desenvolver uma cultura organizacional baseada na prevenção contínua de acidentes, com a consequente promoção da saúde e bem-estar do trabalhador. É uma proposta que considera o trabalhador como ser humano, que tem seu funcionamento individual, mas também depende da rede de relacionamentos e ambientes. É um modelo que pode descobrir e desenvolver potencialidades, melhorar o ambiente de trabalho e que pode salvar vidas. Não apenas pelo fato de prevenir acidentes de trabalho, mas por proporcionar às pessoas o conhecimento e desenvolver nelas, a busca contínua por comportamentos seguros. 

Referências Bibliográficas:
Almeida, I. M. & Filho, J. M. J. (2007). Acidentes e sua prevenção [Versão Eletrônica] Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 32(115). 7-18.
Bley, J. Z. & Kubo, O. M. (2003, jul./set.) Acidente de trabalho: o que o psicólogo tem a ver com isso? [Versão Eletrônica] Revista Psicologia Argumento Curso de Psicologia PUCPR, 34, 65-66. Disponível em www.sesi.org.br/pro-sst
Bley, J. Z. (2006). Comportamento seguro: a psicologia da segurança do trabalho e a educação para prevenção de doenças e acidentes. Curitiba: Sol.
Correa, C. R. P., & Cardoso Junior, M. M.. (2007). Análise e classificação dos fatores humanos nos acidentes industriais. Produção, 17(1), 186-198. Acesso em 14 de março, 2012, de http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65132007000100013
Davidoff, L. L. (2001). Introdução à psicologia. (L. Perez, Trads.). (3ª ed.).  São Paulo. Pearson Prentice Hall.
Dela Coleta, J. A. (1991). Acidentes de trabalho: fator humano, contribuições da Psicologia do trabalho, atividades de prevenção. São Paulo: Atlas.
Dejours, C. (2002). O fator humano. ( M. I. S. Betiol e M. J. Tonelli Trads.). (3ª ed.) Rio de Janeiro: FGV.
Gonçalves, C. G. O. & Dias, A. (2011). Três anos de acidentes de trabalho em uma metalúrgica: caminhos para seu entendimento [Versão Eletrônica]. Ciência Saúde Coletiva    16(2), 635-646.
Ministério da Previdência Social (2010). Anuário Estatístico da Previdência Social:  AEPS  [Versão Eletrônica]. Brasília.
Motta, P. R. M. (2002). Ansiedade e medo no trabalho: a percepção do risco nas decisões administrativas. [Versão Eletrônica] artigo apresentado no VII Congreso Internacional  del CLAD sobre la reforma del Estado Y de la administración pública. Lisboa. Portugal.
Peres, F., Lucca, S. R., Ponte, L. M. D., Rodrigues, K. M. & Rozemberg, B. (2004). Percepção das condições de trabalho em uma tradicional comunidade agrícola em Boa Esperança, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, Brasil. [Versão Eletrônica] Caderno Saúde Pública. Rio de Janeiro. 20(4): 1059-1068.
Roberto, F. D., Bley, J. Z., Turbay, J. C. F. & Cunha Júnior, O. (2003, 29 de agosto).  Psicologia do Trabalho: pesquisa e intervenção sobre os aspectos comportamentais na   prevenção dos acidentes. Trabalho apresentado no XII CONASEMT – Congresso Nacional de Segurança e Medicina do Trabalho, São Paulo. 
Salavessa, M. & Uva, A. S. (2007). Saúde e Segurança do Trabalho: da percepção do risco ao uso de EPI’s. [Versão Eletrônica] Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho Saúde & Trabalho : Órgão Oficial da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho. – 6, 69-93. Disponível em www.sesi.org.br/pro-sst
Serviço Social da Indústria. (2000). Tendências em saúde do trabalhador: estudos de tendências sociais. Brasília: Departamento Nacional SESI.
Wagner, J. A. III e Hollenbeck, J. R. (2009). Comportamento Organizacional: criando vantagem competitiva. (C. K. Moreira, Trads.). (2ª ed.). São Paulo: Saraiva.
Zócchio, A. (2002). Prática da prevenção de acidentes: abc da segurança do trabalho. (7ª ed.) São Paulo: Atlas.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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