EMPREGOS VERDES E A SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO - SETOR EÓLICO

31 março 2017
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Author :   Inês Carromeu & José Gavancha
Citar ARTIGO: Carromeu, I., Gavancha, J. 2014. Empregos verdes e a segurança e saúde no trabalho - Setor eólico. Revista Segurança Comportamental, 8, 12-14 Inês Carromeu, Engenheira Química. Técnica Superior de Higiene e Segurança no Trabalho. | José Gavancha, Pós-graduado em Psicologia Social e em Segurança Higiene e Saúde no Trabalho. EDP Produção.

Os “novos riscos” provenientes dos empregos verdes são essencialmente uma mistura de riscos já conhecidos. Nas energias renováveis, os riscos são múltiplos e alguns considerados de risco elevado. Torna-se obrigatório a existência de incorporação de novos conhecimentos por parte dos trabalhadores expostos, mas o problema é a velocidade prevista para a evolução da economia verde que pode originar falhas nessas competências.Os “novos riscos” provenientes dos empregos verdes são essencialmente uma mistura de riscos já conhecidos. Nas energias renováveis, os riscos são múltiplos e alguns considerados de risco elevado. Torna-se obrigatório a existência de incorporação de novos conhecimentos por parte dos trabalhadores expostos, mas o problema é a velocidade prevista para a evolução da economia verde que pode originar falhas nessas competências. 

Introdução
A economia verde tem sido símbolo de uma economia mais sustentável e de uma sociedade que preserva o ambiente para as gerações futuras, que permita criar “empregos verdes” e que “torne mais verdes” as atuais unidades industriais, os processos industriais e os empregos sendo que, a proteção do ambiente e a proteção da saúde e segurança no trabalho devem estar intrinsecamente ligadas, de forma a assegurar uma abordagem integrada ao desenvolvimento sustentável.
O termo “empregos verdes ou ecológicos” abrange uma vasta gama de empregos diferentes em vários sectores, envolvendo uma mão-de-obra muito diversificada. Existem várias definições (Programa das Nações Unidas para o Ambiente, Comissão Europeia, Eurostat), no entanto, pode entender-se por emprego verde, qualquer emprego que contribua, de alguma forma, para a preservação ou recuperação do ambiente. Podem ser empregos que contribuam para a:
- Proteção dos ecossistemas e da biodiversidade;
- Redução do consumo de energia e de matérias-primas;
- Redução de resíduos ou poluição.
Isto é, são aqueles que reduzem o impacte ambiental de empresas e de sectores económicos para níveis que, em última análise sejam sustentáveis. Ajudam a reduzir o consumo de energia, de matérias-primas e água, por meio de estratégias altamente eficazes que descarbonizam a economia e reduzem as emissões de gases com efeito de estufa, minimizando ou evitando completamente todas as formas de resíduos e poluição, protegendo e restaurando os ecossistemas e a biodiversidade. Trabalhadores que fabricam carros híbridos ou mais eficientes no consumo de combustível, por exemplo, contribuem menos para a redução de emissões geradas por meios de transporte do que aqueles que trabalham em sistemas públicos de transportes.
Mais do que “novos riscos” estamos a falar de novas misturas de riscos já conhecidos.
Algumas atividades são susceptíveis de atingir elevados níveis de risco tendo em atenção principalmente a envolvente e o contexto em que decorrem.
A segurança e saúde numa “economia verde” acaba por dar origem à discussão sobre os “riscos verdes”, ou seja, mesmo que certos empregos sejam considerados “verdes”, as tecnologias utilizadas poderão não ser “verdes”. Em alguns casos, já vimos legislação e tecnologias novas, concebidas para proteger o ambiente, darem origem a um risco agravado para os trabalhadores. A procura de uma nova postura politicamente correta no trabalho, acaba por combinar os velhos e os novos riscos (por exemplo, no caso dos painéis solares onde os riscos elétricos se combinam com o risco de trabalho em altura.)
De seguida, falaremos numa das principais áreas económicas com maior capacidade para gerar novos empregos verdes, estando esta integrada nas energias renováveis, designadamente a energia eólica.
2 - Energia eólica
A produção de energia eólica tem registado um crescimento significativo ao longo da última década. Os tipos de empregos nesta área incluem o desenvolvimento de projetos, o fabrico de componentes para as turbinas, a construção, a instalação, operação e manutenção de turbinas eólicas.
Os perigos e os riscos na fabricação de geradores movidos pelos ventos são semelhantes aos da indústria automóvel e das instalações aerospaciais, ao passo que os perigos e riscos relacionados com a sua instalação e manutenção são semelhantes aos que se verificam na construção civil. Os trabalhadores poderão estar expostos a riscos químicos devido à exposição de resinas de epóxi, estireno e solventes, gases, vapores e poeiras perigosas e ainda, riscos físicos provenientes de peças em movimento, bem como os que resultam da movimentação de lâminas durante o seu fabrico e manutenção. Existe ainda o risco de exposição a poeiras e gases resultantes de fibras de vidro, endurecedores, aerossóis e fibras de carbono. Entre os problemas de saúde mais comuns, temos as dermatites, as tonturas, sonolência, lesões no fígado e rins, queimaduras provocadas por produtos químicos e efeitos no sistema reprodutivo. Os riscos físicos associados aos trabalhos de manutenção são: quedas em altura, lesões músculo-esqueléticas resultantes da movimentação manual de cargas e de posturas incorretas devido ao trabalho em espaços confinados, esforços físicos na subida às torres, electrocução (risco eléctrico em BT, MT e AT), operações com gruas de grande porte e ferimentos provocados pela utilização de maquinaria de rotação, aplicação de consumíveis (lubrificantes ferrosos e outros similares) e a queda de objetos. Além da aptidão técnica, o trabalhador que labora nesta área, deve ter: elevada aptidão para executar o trabalho com recurso a técnicas de alpinismo, grande capacidade para tomar decisões corretas de forma autónoma.
2.1. - Condições meteorológicas
Os parques eólicos estão, obviamente localizados em locais onde existe muito vento.
Este facto condiciona por exemplo, a forma como se estacionam os carros das equipas de manutenção. Para evitar que ao abrir as portas das viaturas, o vento arranque as portas, há que posicioná-los de forma a que a probabilidade de tal acontecer, seja baixa. Até a simples operação de abrir as portas de acesso às torres eólicas é igualmente um momento crítico, pois sendo estas normalmente bastante pesadas, com condições de vento facilmente escapam ao controlo e podem provocar o entalamento e ou esmagamento de dedos ou mãos.
2.2. - Riscos intrínsecos aos equipamentos
Existem diversos tipos de aerogeradores. A generalidade tem na sua base os quadros eléctricos de potência de automação e de controlo. Alguns têm igualmente o transformador principal de potência. A torre em si, é uma chaminé perfeita, tendo na base o potencial de risco de incêndio que se menciona. Podemos imaginar uma situação de incêndio e o impacto negativo e até fatal em que uma equipa de trabalhadores se encontraria, se estivesse nesse momento no topo da torre.
Há relatos de situações como a descrita, tendo num caso ocorrido em Espanha: resultado, um trabalhador morreu carbonizado no alto da torre e outro preferiu morrer da queda, tendo-se lançado para o solo.
O resgate de trabalhadores que fiquem encurralados nas “nacelles” (termo usado para designar o contentor que no alto da torre encerra o gerador e outros equipamentos), é uma situação critica. De modo a evitar tal situação, o trabalhador aquando da subida, deve estar equipado de um “kit” de “auto resgate”, para numa situação de emergência, poder abandonar em “rappel” a torre.
Embora esta solução seja mais teórica do que prática, porque basta que o vento esteja um pouco mais forte, do que é normal, para a pessoa enquanto vai descendo, indo balançando e ser atirada contra a torre, com elevada probabilidade de ficar ferida durante o processo, pois a descida é de cerca de 40 a 60 metros de altura.
O que acaba de ser escrito, fornece pistas sobre a obrigatoriedade do elevado nível de competências que estes trabalhadores devem possuir. Por exemplo, o conhecimento de técnicas de alpinismo, não é só no resgate que é necessário, mas também em muitas operações de manutenção que são executadas no exterior da “nacelle” e inclusive em suspensão.
Este género de trabalho levanta uma outra questão muito sensível: trabalhos deste género, não podem ser iniciados sem estarem assegurados os mecanismos de recuperação de trabalhadores que fiquem incapacitados, quando executam algumas destas tarefas.

“(…) pode entender-se por emprego verde, qualquer emprego que contribua, de alguma forma, para a preservação ou recuperação do ambiente.”

“Há relatos de situações (…) um trabalhador morreu carbonizado no alto da torre e outro preferiu morrer da queda, tendo-se lançado para o solo”.

Sabe-se que uma pessoa que fique suspensa num arnês, ao fim de algumas dezenas de minutos, começa a ter problemas com a sua circulação sanguínea, podendo inclusive vir a morrer por trombose. Claro que o já referido “kit” de resgate, dá meios ao outro membro da equipa para que atue. Estamos a falar de apenas dois membros na equipa de trabalho, que em situação de acidente poderão não ser suficientes.
Assim, é necessário operacionalizar o recurso a ajuda externa. Para ser solicitada terá que haver meios de comunicação fiáveis. Mas quanto tempo demorará a chegar a ajuda externa? E a ajuda externa é qualificada para o regaste em condições de trabalho altamente especializadas? Estamos a falar de zonas muitas vezes remotas e com necessidade de recorrer a pessoal altamente especializado no denominado resgate em grande ângulo.
3 – Conclusão
As novas tecnologias ou processos de trabalho associados aos empregos verdes, podem gerar novos perigos, os quais exigem novas combinações de competências para lidar com eles: as “antigas” formas de SST não podem ser simplesmente transferidas para eles.
A velocidade prevista para a evolução da economia verde pode conduzir a falhas de competências, com trabalhadores inexperientes envolvidos em processos para os quais não tiveram formação, colocando assim em risco a sua segurança e saúde.
Pode ocorrer também uma maior polarização da mão-de-obra em função das competências, sendo os trabalhadores menos qualificados pressionados a aceitar piores condições de trabalho. Por último, mas não menos importante, a pressão económica e política pode levar a que as preocupações com a SST sejam negligenciadas.
Para que os empregos verdes sejam verdadeiramente sustentáveis, é necessário garantir que sejam benéficos para a saúde e segurança dos trabalhadores, tanto quanto para o ambiente. Na economia verde, como nas outras, uma boa SST desempenha um papel vital no aumento da competitividade e da produtividade. Neste domínio em rápido desenvolvimento, precisamos garantir que o que é bom para o ambiente também o é para os trabalhadores.

Referências Bibliográficas
European Agency for Safety and Health at Work (2013). Green jobs and occupational safety and health: Foresight on new and emerging risks associated with new technologies by 2020 (Report), Luxembourg: Publications Office of the European Union.
Organização Internacional do trabalho (2012). Promover a segurança e saúde numa economia verde. Disponível em http://www.dnpst.eu/relatorio.php, acedido em setembro, 2013.
Organização Internacional do trabalho (2013). Conferência Internacional do Trabalho. Desenvolvimento sustentável, trabalho digno e empregos verdes. Relatório V. Quinto ponto da ordem de trabalhos, Genebra: Bureau Internacional do Trabalho.
Programa das Nações Unidas para o Ambiente (2013). Disponível em http://www.unep.org/PDF/UNEPGreenjobs_report08.pdf, acedido em setembro, 2013.
Saúde e Segurança no Trabalho em Empregos verdes (2013). Disponível em https://osha.europa.eu/pt/topics/green-jobs/index_html, acedido em setembro, 2013.

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