ATITUDES E COMPORTAMENTOS DE SEGURANÇA EM LABORATÓRIOS ESCOLARES – TEORIA VERSUS REALIDADE

04 abril 2017
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Author :   Patrícia Fradinho
Citar ARTIGO: Fradinho, P. 2014. Atitudes e comportamentos de segurança em laboratórios escolares – teoria versus realidade. Revista Segurança Comportamental, 8, 16-18 Patrícia Fradinho, Mestre em Engenharia Alimentar e Nutrição. Responsável pelos laboratórios do Instituto Piaget – Campus Universitário de Almada

Qualquer atividade humana está sujeita a perigos e riscos e o trabalho laboratorial não é exceção. Uma das medidas de prevenção é sensibilizar, formar e motivar.Qualquer atividade humana está sujeita a perigos e riscos e o trabalho laboratorial não é exceção. Uma das medidas de prevenção é sensibilizar, formar e motivar.

Introdução
Os laboratórios são ambientes seguros desde que a organização estimule a responsabilidade e o compromisso nos seus utilizadores de forma a elevar a consciência de segurança, facilitando o processo da identificação de perigos do contexto de trabalho e sua envolvência. Parte integrante dos estabelecimentos de ensino, institutos de investigação e indústrias, neles convivem equipamentos, reagentes, microrganismos, amostras biológicas, pessoas e livros. Por isso, é essencial que se cumpram as boas práticas de laboratório para minimizar a probabilidade da ocorrência de acidentes, nomeadamente intoxicações, envenenamentos e queimaduras. A experiência de trabalho em laboratório indica-nos que a maioria dos acidentes ocorre devido a erro humano, quer por negligência, ignorância e/ou imprudência por parte dos técnicos. É preciso ter noção que o risco de acidente é maior quando nos acostumamos a conviver com o perigo e o passamos a ignorar.

Regras gerais de conduta e boas práticas de laboratório
São inúmeros os manuais de segurança elaborados por escolas, universidades, empresas e até pelo Ministério da Educação, que compilam normas e procedimentos de segurança com vista a minimizar a ocorrência de acidentes em laboratórios (ME, 2003). As medidas de segurança, bem como equipamentos de proteção individual e coletiva (quadro n.º 1) devem ser conhecidas por professores, investigadores e alunos, e aplicadas sempre que necessário, com a finalidade de proteger todos os utilizadores de possíveis riscos biológicos, químicos e físicos (Miguel, 2010).
É indispensável a adoção de medidas de prevenção integradas, desde a conceção das instalações laboratoriais, à informação e formação de todos os utilizadores, quer sejam responsáveis administrativos ou científicos, alunos e restante pessoal (Picot, 1992). O primeiro passo para evitar um acidente é saber reconhecer as situações que possam desencadeá-lo. Os reagentes constituem um dos principais riscos de acidente em laboratório, pelo que, antes de iniciar o trabalho laboratorial é obrigatório a leitura das fichas de dados de segurança (FDS) de todos os produtos químicos afetos ao trabalho. Apresenta-se na figura n.º 1 os símbolos e indicações de perigo das substâncias e misturas perigosas de acordo com o Decreto-Lei n.º 98/2010: classificação, embalagem e rotulagem de substâncias perigosas. Além da obrigatoriedade de informação aquando da utilização dos reagentes, o seu armazenamento e a eliminação de resíduos laboratoriais devem ser geridos rigorosamente no sentido de aumentar o rigor e a disciplina, evitando acidentes. Os resíduos laboratoriais devem ser armazenados em recipientes separados e devidamente rotulados segundo as categorias: solventes halogenados, solventes não halogenados, metais pesados, soluções ácidas, soluções básicas, soluções com mercúrio.Depois de contabilizados, os resíduos são recolhidos, transportados, tratados e eliminados por uma empresa certificada.

Quadro n.º 1 - Medidas de segurança, equipamentos de proteção individual e coletiva.
Obs: As medidas e equipamentos listados são exemplos, devendo ser consultada literatura especializada para informação mais detalhada.

Figura n.º 1 - Símbolos e indicações de perigo das substâncias e misturas perigosas. a)Explosivo; b) Comburente; c) Inflamável; d) Tóxico; e) Corrosivo; f) Nocivo; g) Perigoso para o ambiente

A realidade escolar
Em geral, os profissionais de qualquer área não recebem formação sobre regras e normas de segurança no trabalho. A somar está a insegurança no contexto de trabalho associada a deficiências estruturais dos laboratórios escolares, uma vez que estes não são construídos de raiz, mas montados em locais já existentes e posteriormente adaptados consoante as necessidades e área científica que se destinam (Pombeiro, 1983). Um estudo realizado em 2010 pelo Sindicato de Professores da Região Centro (SPRC) em escolas da região centro afirmava que a diminuição das verbas previstas no orçamento de estado para a educação era responsável pelos problemas e deficiências nos equipamentos de segurança das escolas, e que em muitos casos estas não estão preparadas para atividades no laboratório, uma vez que as regras elementares de segurança não são garantidas (SPRC, 2010). De facto, se analisarmos as despesas do estado com a educação, verifica-se um decréscimo 14,7% de 2009 para 2010, o que sustenta as preocupações do SPRC. Desde então o cenário não se alterou positivamente, uma vez que em 2012 se estimou um decréscimo da despesa com a educação de 15,9% (Pordata, 2013). Para corrigir a situação, o SPRC defende, entre outras medidas, a atualização de manuais de instruções e das regras indispensáveis de segurança; a entrega a cada escola de um kit de aviso e segurança como previsto nos programas dos ensinos básico e secundário, o reequipamento adequado dos espaços laboratoriais com a integração do equipamento de segurança reivindicado. As medidas propostas referem-se a alterações nas instalações laboratoriais e aquisição de materiais, estando dependentes de verbas estatais canalizadas para o investimento em equipamentos de segurança. Mas como já vimos, o investimento na educação não parece ser uma prioridade, no contexto atual. O que fazer?

“(...) deverá ser realizado um reforço de sensibilização da aplicação das regras de segurança na utilização do laboratório e respetivo uso de equipamento, pois esta medida comportamental para além de assumir um custo menor tem maior impacto na prevenção de acidentes de trabalho em contexto escolar."

Onde se pode atuar?
As regras de segurança laboratorial são familiares a todos os utilizadores de laboratórios, que as conhecem e aplicam, mas têm consciência que nem sempre é possível cumpri-las, dado o layout e antiguidade dos laboratórios das nossas escolas e falta de verbas para, em tempo útil, adequá-los às necessidades. A prática e a experiência diária com estudantes indicam que muito pode ainda ser feito em termos de comportamentos de segurança nos laboratórios, enquanto não são viáveis as medidas que implicam investimentos por parte das escolas. O que fazer então para evitar acidentes? Geralmente, na primeira aula no laboratório é transmitido aos estudantes conhecimento e documentação sobre regras de segurança no laboratório. Além de maçudos, os procedimentos nem sempre são lecionados de forma adequada, incentivando a participação dos estudantes e estimulando a sua criatividade. A segurança laboratorial em ambiente escolar não deve passar apenas por uma sensibilização às regras de segurança ou uma identificação de possíveis perigos e riscos. Passa muito pela forma como o docente consegue estimular os alunos para a importância de seguir as medidas de segurança e utilizar os equipamentos de proteção. Torna-se imperativo avaliar até que ponto os alunos percebem o que pode ocorrer em caso de negligência das regras, essenciais de funcionamento do laboratório.
Resumindo, a prevenção de acidentes em laboratório passa pela adoção de medidas, como a promoção do conhecimento sobre o laboratório, sobre as normas e regulamentos vigentes, a execução correta dos procedimentos, formações e reciclagens, e, implementação de medidas preventivas e de melhoria contínua. Acredito que em vez da implementação de grandes medidas com grandes custos, deverá ser realizado um reforço de sensibilização da aplicação das regras de segurança na utilização do laboratório e respetivo uso de equipamento, pois esta medida comportamental para além de assumir um custo menor tem maior impacto na prevenção de acidentes de trabalho em contexto escolar. Para eliminar e reduzir acidentes é preciso conhecer quais as causas, imediatas, intermédias e de profundidade, que lhe antecedem e acionar as medidas preventivas ajustadas a essas causas, evitando a recorrência dos mesmos. Afinal, o laboratório é um espaço repleto de perigos e riscos, propício a situações imprevistas. Formar, sensibilizar e motivar em segurança é essencial!

Referências Bibliográficas
Decreto-Lei n.º 98/2010 de 11 de agosto: Classificação, embalagem e rotulagem de substâncias perigosas. Disponível em: http://dre.pt/pdf1sdip/2010/08/15500/0335303398.pdf, acedido em dezembro 2013
Miguel, A.S. (2010). Manual de Higiene e Segurança do Trabalho (11ª ed.), Porto: Porto Editora.
Ministério da Educação. Secretaria-Geral do Ministério da Educação (2003). Manual de Utilização, Manutenção e Segurança nas Escolas, 2ª ed., Lisboa.
Picot, A., Grenouillet, P. (1992). La Securitéen Laboratoire de Chimieet de Biochimie (2ème ed.), Paris, Tec&Doc.
Pombeiro, A. (1983). Técnicas e Operações Unitárias em Química Laboratorial, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
PORDATA – Base de Dados Portugal Contemporâneo (2013). Relatório/publicação “Conta Geral do Estado. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Disponível em: http://www.pordata.pt/Portugal/Ambiente+de+Consulta/Tabela, acedido em dezembro 2013
SPRC-Sindicato dos Professores da Região Centro (2010). Condições de funcionamento e Qualidade do Investimento do governo em Laboratórios Escolares. Disponível em: http://www.sprc.pt/index.php/propostas/sprc-fenprof/252-laboratorios-escolares, acedido em dezembro 2013

 

 

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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