PROCESSO DE GESTÃO DE SEGURANÇA E SAÚDE BASEADO EM COMPORTAMENTOS – O PAPEL DOS OBSERVADORES PREVENTIVOS DE SEGURANÇA

04 abril 2017
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Author :   Natividade Gomes Augusto
Citar ARTIGO: Gomes Augusto, N. 2014. Processo de gestão de segurança e saúde baseado em comportamentos – O papel dos observadores preventivos de segurança. Revista Segurança Comportamental, 8, 26-27 Natividade Gomes Augusto. Socióloga. Pós-graduada em gestão de segurança e saúde no trabalho. Técnica Superior de Higiene e Segurança.

O tipo de relações de confiança e o compromisso visível da organização vai determinar a nomeação e seleção dos observadores comportamentais ou preventivos. Estes observadores assumem várias funções, que seguem o PDCA de Deming. É obrigatório os observadores comportamentais preventivos de segurança terem formação educativa. O procedimento das suas observações deve incluir um ponto sobre motivação aos próprios observadores.

Os processos de gestão de segurança e saúde no trabalho baseados em comportamentos continuam a fazer parte, cada vez mais, dos sistemas de gestão de segurança e saúde no trabalho, sendo implementados através de determinados programas que integram este processo com os restantes processos da organização. Desde que bem estruturado, a implementação deste processo poderá reduzir os acidentes de trabalho em 26% no primeiro ano e 69% até ao quinto ano (Krause et al., 1999). Atingir os 100% de redução dos acidentes de trabalho é bastante difícil, embora isso possa ser atingido por um período de tempo, desde que as condições de segurança sejam mantidas e a mudança comportamental seja ao nível de valores e cultura. Quero com isto dizer, que para manter a longevidade neste período é necessário considerar a segurança baseada em comportamentos como sendo um organismo vivo, que necessita de ser alimentado diariamente.
No programa PRE (Papel, Razão e Emoção) (Augusto, 2013) existem vários atores que fazem parte de um processo de gestão da segurança e saúde baseado em comportamentos (PGSSC), sendo estes: gestores, supervisores, trabalhadores em geral, sindicatos, técnicos de segurança e saúde, observadores e dialogantes. Importa referir que o observador está para a segurança e combate aos acidentes de trabalho, enquanto o dialogante está para a saúde no trabalho e combate às doenças profissionais.
Este artigo pretende apresentar somente o observador, considerado uma das figuras mais importantes neste PGSSC.

Papel dos observadores
Um observador é uma pessoa que vê e observa os comportamentos dos outros, julgando se esses mesmos comportamentos são ou não-aceitáveis para a segurança e saúde naquele determinado contexto, comparando-os com os comportamentos que foram previamente estabelecidos para esse mesmo contexto. O papel dos observadores é imprescindível porque é uma fonte de obtenção de informação, que alimenta o PGSSC. Depois de definirmos os comportamentos críticos, é criado uma lista/cartão de observação que verifica o nível de cumprimento de comportamentos seguros, saudáveis ou aceitáveis. Como já referenciado o desempenho de papel de observador é de extrema importância para o PGSSC, sendo que as funções assumidas podem ser de vários tipos:
- Executar as observações estabelecidas, seguindo o procedimento;
- Analisar as causas dos comportamentos observados não aceitáveis do trabalhador individualmente ou do grupo;
- Auxiliar o trabalhador e o grupo no desenho de ações que possam remover as causas identificadas;
- Dar feedback compensatório e corretivo, seguindo as regras do diálogo comportamental;
- Estabelecer um compromisso de melhoria, com o trabalhador ou o grupo;
- Registar as observações preventivas comportamentais no modelo que foi desenhado no sistema de segurança e saúde no trabalho;
- Transmitir as medidas do plano de ações aos coordenadores do processo;
- Servir de dinamizadores nos procedimentos de segurança;
- Identificar oportunidades de melhoria para o procedimento de observação.
O programa PRE - Papel, Razão e Emoção (Augusto, 2013) estabelece o processo baseado em comportamentos em sintonia com o estado evolutivo de cultura de segurança e cultura organizacional.

Nomeação e seleção dos observadores
Como já referido a cultura de segurança e a cultura organizacional são os determinantes de como recrutar e de como selecionar os observadores. Conhecer o tipo de relações estabelecidas na organização, torna-se necessário, principalmente no que diz respeito à confiança. Os observadores podem estar situados em várias posições na linha organizacional. Podem ser trabalhadores de linha, especialistas, supervisões, gestores, etc. O seu trabalho geralmente é voluntariado. O âmbito das funções dos observadores pode abarcar toda a força de trabalho ou uma única fração. As suas características mais desejáveis são: credibilidade, conhecimento, facilidade de comunicação, capacidade de fixar detalhes e um compromisso demonstrado ou mesmo declarado com a segurança e saúde no trabalho. Normalmente, os observadores são nomeados pelo comité de gestão do processo, que também os seleciona. Os observadores devem receber formação prévia que garanta a realização com qualidade das suas funções.

Formação educativa dos observadores
O processo de observar comportamentos relacionados com a segurança requer conhecimentos e habilidades, que deverão ser adquiridas nas primeiras etapas da implementação do PGSSC. Estas ações de formações educativas deverão ter os seguintes conteúdos:
- Fundamentos da ciência do comportamento;
- Desenvolvimento de habilidades na realização de análises de antecedentes - comportamento - consequência, aplicados à segurança, com vista à sua aplicação posterior e a uma análise de causas de atos não-aceitáveis ou inseguros;
- Compreensão dos componentes do processo especifico da sua organização, incluindo as responsabilidades, indicadores e procedimento geral;
- Comportamentos críticos: o que são, como se definem e como se atualizam;
- Desenvolvimento de habilidades para complementar o procedimento específico de realizar observações;
- O feedback de reforço, assim como, outras técnicas de comunicação;
- Formação específica para a educação de adultos.
A formação dos observadores deve incluir um procedimento para avaliação dos mesmos (Komaky, 1986). O procedimento deve incluir essencialmente a observação conjunta de dois observadores aos mesmos comportamentos críticos previamente definidos. Deve calcular-se a quantidade de vezes onde o julgamento subjetivo é coincidente e a quantidade de vezes onde esse julgamento não é coincidente. Uma percentagem satisfatória deve estar entre 85% a 90% (Montero, 2008) de coincidência de julgamento subjetivo. O resultado de 100% deve servir para melhorar as habilidades de observação, o procedimento e a definição dos comportamentos críticos. No procedimento de observações, deve ser dado mais importância à qualidade das observações do que à quantidade (Mathis, 2005). A qualidade das observações é o melhor indicador de sustentabilidade do processo. Para que as observações sejam eficazes e eficientes, a organização deverá dar atenção ao possível “esgotamento do observador”, já que se torna uma ameaça para o PGSSC.

“(…) implementação deste processo poderá reduzir os acidentes de trabalho em 26% no primeiro ano e 69% até ao quinto ano (Krause et al., 1999).”

Condução de observações preventivas (OP)
Vários são as informações que se devem ter em consideração para a condução mais certeira de uma observação preventiva de segurança e saúde (OPss). Apenas vou referenciar o momento que deve ser considerado. Se tiver optado por não recorrer ao aviso prévio, é importante variar a hora do dia e os dias da semana. Deve também ter em consideração as informações passadas sobre o dia da semana e hora do dia de ocorrência de acidentes e incidentes. Os observadores devem realizar OPss quando existe uma elevada probabilidade de acontecer um incidente real ou potencial. Poder-se-á também observar segundo eventos especiais, como momento de manutenção periódica, tarefas específicas e momentos de mudança.

Conclusões
Os observadores são atores fundamentais do processo de gestão da segurança baseada em comportamentos. O tipo de relações de confiança e o compromisso visível da organização vai determinar a nomeação e seleção dos observadores comportamentais preventivos. Estes observadores assumem várias funções, que seguem o PDCA de Deming. Na etapa do “Do”, ou seja, da realização, a atuação em termos de julgamento subjetivo deve ser o mais aproximadamente do nível padrão de julgamento subjetivo do grupo de observadores de uma dada organização. É obrigatório os observadores comportamentais preventivos terem formação educativa. O programa PRE atribuiu um cartão de nível de proficiência, que serve de passaporte para a execução das OPss. O procedimento das suas observações deve incluir um ponto sobre motivação aos próprios observadores, uma vez que o controlo do esgotamento deste ator é fundamental para que a segurança baseada em comportamento se mantenha como um organismo vivo.

Referências Bibliográficas
Alvero, A.M. y Austin, J. (2004). The effects of conducting behavioral observations on the behavior of the observer. Journal of Applied Behavior Analysis, 37(4), 457-468
Augusto, N. (2013). Programa de Segurança e Saúde Comportamental PRE (Papel, Razão e Emoção). Seminário em Saúde Ocupacional na Administração Pública – Estratégias e Práticas. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Departamento de saúde, higiene e segurança.
Komaky, J.L. (1986). Promoting Job Safety and Accident Prevention. Cataldo, M. y Coates, T.J. (Eds): Health and Industry, A Behavioral Medicine Perspective. New York, John Wiley & Son, 301-320.
Krause, T.R., Seymour, K., Y Sloat, K.C.M. (1999). Logter evaluation of a behavior-based method for improving safety performance: A meta-analysis of 73 interrupted time series replications. Safety Science, 32, 1-18
Mathis, T.L. (2000). How To Deal With Observer Burnout. ISHN, Available http://www.ishn.com/articles/how-to-deal-with-observer-burnout [Accessed 8 December 2013].
Montero, R. (2008). El observador como factor clave en los Procesos de Gestión de la Seguridad Basados en los Comportamientos. Revista Protección & Seguridad, Janeiro-Fevereiro, 35-39.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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