IWAN BRUNNER: O ponto forte da segurança é a evolução da segurança comportamental

10 abril 2017
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Author :   Iwan Brunner (Director-Geral da Schindler Portugal)
Citar ENTREVISTA: Gomes Augusto, N. (2011). O ponto forte da segurança é a evolução da segurança comportamental - Entrevista com Iwan Brunner. Revista Segurança Comportamental, 4, 22-25. Entrevista: Natividade Gomes Augusto | Jornalista: Sandra Sousa | Fotógrafo: António Martins

«Futuramente as empresas portuguesas vão deixar de ter a oportunidade de serem mais competitivas, através da segurança, da redução de acidentes e da boa imagem. Actualmente é a altura para investir na segurança e conseguir essa vantagem! O ponto forte da segurança é a evolução da segurança comportamental.»

Iwan Brunner, mestre em economia pela Universidade de St. Gallen (Suíça), é desde abril, 2011 o Director-Geral da Schindler Portugal. Líder no mercado de soluções de mobilidade, o Grupo Schindler é o maior fornecedor de escadas rolantes e o segundo maior fabricante de elevadores em todo o mundo. Com sede na Suíça, esta empresa com mais de 130 anos de história, está presente nos cinco continentes e tem mais de 40.000 colaboradores. Iwan Brunner, em entrevista à Revista Segurança Comportamental, referiu que a segurança é o primeiro dos valores adoptados pelo Grupo e que não existe qualquer circunstância que possa alterar essa prioridade. Defende também que, em Portugal, todos devem contribuir para uma maior valorização da segurança para que o país “possa chegar mais cedo a um destino que será obrigatório em todas as sociedades”.

Revista Segurança Comportamental]
Qual é a sua opinião sobre a segurança a nível mundial no presente momento?
[Iwan Brunner]
O mundo encontra-se em evolução permanente e verificamos que existem países que ao nível da segurança estão mais avançados que outros. Esta evolução, na minha perspectiva, posso dizer que se encontra relacionada com a pirâmide de necessidades de Maslow. Alguns países do mundo, como por exemplo os que se localizam na Europa e Estados Unidos já se encontram com as necessidades primárias satisfeitas e por isso estão voltados agora para as necessidades secundárias, preocupados já com a influência do factor humano na segurança em empresas. Existem outros países, nomeadamente na América Latina, na Ásia e em África, que ainda estão ao nível das necessidades primárias, e que a segurança nas empresas ainda é muito deficitária.
Considero que o processo de globalização irá ajudar a nivelar a segurança em todo o mundo, através das empresas multinacionais, como por exemplo a Schindler. A Schindler tem uma exigência a nível de segurança igual em todo o mundo, seja na Suíça onde temos a sede, ou em qualquer país africano. Apesar de tudo, ainda temos que evoluir, para conseguirmos eliminar todos os acidentes. Cada acidente tem consequências muito elevadas e graves, por isso, mesmo que exista um número muito reduzido de acidentes, não podemos estar satisfeitos. Ainda há muito para melhorar…

[RSC]
E especificamente em relação ao comportamento, como acha que a segurança comportamental é vista a nível mundial?
[IB]
Considero que a evolução é semelhante à segurança em geral. Ao nível da segurança há fases que têm de ser sucessivamente ultrapassadas: primeiro é necessário que exista um ambiente seguro, logo a seguir vêm os processos, depois as ferramentas, e a última etapa é a melhoria das atitudes e dos comportamentos. Para que se possa atingir tudo isto, diversas coisas são necessárias: disciplina, educação, formação, feedback e fiscalização. Penso que são necessárias várias gerações para que se verifique uma verdadeira mudança. Por exemplo, se numa empresa verificarmos que o nível da segurança em geral ainda não está num nível satisfatório, o comportamento seguro está numa fase ainda mais incipiente. Existem diferenças de evolução de países para países, uns já estão a tratar o comportamento, outros ainda não chegaram lá, mas considero que existe muita coisa para fazer a nível mundial no que respeita a segurança em geral e muito mais a nível de segurança comportamental.

[RSC]
Como considera a cultura de segurança na sociedade portuguesa?
[IB]
A minha percepção é que Portugal deu um passo gigantesco nos últimos anos e isso demonstra que a sociedade portuguesa está a trabalhar na direcção correcta. No entanto, acho que o país deve dar um salto qualitativo nesta matéria. Se olharmos para o trânsito em Portugal, percebemos que é muito diferente quando nos comparamos com Espanha ou França, por exemplo. Portugal tem um ambiente seguro, tem estradas sem buracos, tem processos certos, toda a gente sabe que tem de conduzir à direita e que não deve ultrapassar os 120 km/hora. As ferramentas são perfeitas, o parque automóvel é moderníssimo. E o comportamento na estrada? Há pessoas que dirigem a grande velocidade e adoptam comportamentos de risco. Penso que isto é um pouco o espelho do comportamento da sociedade portuguesa noutros aspectos, e também no trabalho, é claro!

[RSC]
Como pensa que pode ser alterada essa realidade?
[IB]
Eu penso que para existir mudança comportamental é preciso muito tempo e essa mudança tem que atingir toda a população, caso contrário, a mudança não será efectiva. Penso que em primeiro lugar o Estado tem que educar as pessoas. Não podemos esperar que os pais eduquem os filhos para terem comportamentos seguros, se isso não está no “DNA”, eles sozinhos não vão conseguir. Assim, alguém do exterior tem que começar por promover essa mudança, e é aqui que entra o papel do Estado. No caso das crianças, a escola é o lugar certo, e isto deve ser feito desde a escola primária ate à universidade. Os jovens iriam receber hoje essa educação e no futuro, quando forem pais, vão transmitir essas ideias aos filhos. Outro aspecto que pode melhorar ao nível do trabalho no Estado é o feedback. Para mudar um comportamento precisamos observar o que está mal e fazer com que essa informação chegue às pessoas. O Estado pode fazer isso através da fiscalização. Os resultados deste processo fiscal deveriam ser divulgados por todas as empresas e sociedade, só assim saberemos onde estamos e o que nos falta para atingir os nossos objectivos. E isto tem efeitos rápidos, primeiro pelo impacto económico, depois as pessoas iam criando e estimulando determinados comportamentos, habituando-se a eles de tal maneira que passam a ser naturais.
Considero que o ideal é a combinação entre educação e o feedback originário dos resultados da fiscalização. Esta última tem uma conotação um pouco negativa, mas não tem que ser negativa, porque os resultados até podem ser bem positivos. O importante é mesmo informar as pessoas sobre quais foram esses resultados, sejam negativos, sejam positivos. Depois de controladas as diferentes situações podem apresentar-se as estatísticas nos meios de comunicação social. Por exemplo, se verificarmos determinado número de automóveis e constatarmos que nenhum ultrapassou a velocidade permitida e divulgarmos essa informação, estamos a fazer fiscalização. Se os resultados forem negativos, as pessoas têm que ver essa análise como uma oportunidade de melhorar e não com uma crítica.

[RSC]
Como desafio, gostaríamos que fizesse uma análise SWOT para as empresas portuguesas. Do seu ponto de vista, quais são as forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, que o tecido empresarial português enfrenta ao nível da segurança e saúde no trabalho e também ao nível da segurança comportamental.
[IB]
Começando pelas ameaças, considero que a situação económica de hoje, a crise que estamos a viver, é claramente uma ameaça. Neste momento muitas empresas debatem-se com enormes dificuldades para conseguirem sobreviver, é possível que os gestores comecem a tomar decisões desfavoráveis à segurança, deixando este tema para trás.

[RSC]
Mas, como sabe, a promoção da área comportamental na segurança passa muito pela atitude da gestão, e para isso não é necessário despender grandes encargos económicos...
[IB]
Da mesma forma que nem todos os países estão no mesmo estado de evolução, nem todas as empresas de um determinado país estão ao mesmo nível de desenvolvimento. Para uma empresa, como a Schindler, que entendia a segurança como prioridade antes da crise, as dificuldades económicas vindas da crise não irão ser uma ameaça. A ameaça está nas empresas que tinham começado a despertar a importância da segurança. Essas com toda a certeza irão retrair-se, porque ainda não experimentaram a potencialidade para o negócio da prioridade da segurança. Uma vez que não conhecem, não sabem desenvolver esta área. Vêem a segurança como um custo e a partir daí eliminam-na.

[RSC]
E oportunidades? Existem oportunidades para a segurança ao nível das empresas em tempos de crise?
[IB]
Sim, em Portugal uma aposta na segurança pode traduzir-se numa vantagem competitiva no mercado. Uma empresa com uma percentagem mínima de acidentes é seguramente uma empresa com boa imagem. O facto de se ter boa imagem, é um factor de diferenciação perante os clientes ou futuros clientes. É claro que esta oportunidade irá deixar de existir a médio/longo prazo no mercado português, como já não existe noutros mercados mundiais, porque a aposta na segurança vai evoluir em Portugal e irá tornar-se como um requisito natural e obrigatório para o negócio.

[RSC]
E quais são os pontos fortes e fracos das empresas portuguesas em matéria de segurança?
[IB]
O ponto forte é a evolução da segurança comportamental. Tenho a percepção que existe uma desigualdade geracional importante nesta área. Penso que para os jovens a adopção de comportamentos seguros está mais interiorizada e estão mais conscientes dos comportamentos de risco. Se esta percepção estiver correcta, isto é, uma mais valia porque mostra que está a caminhar-se na direcção certa. Na Schindler vamos empenharmo-nos para manter os actuais resultados e fazer um esforço enorme para melhorar, essencialmente na integração do factor humano na segurança.

«(...) em Portugal uma aposta na segurança pode traduzir-se numa vantagem competitiva no mercado (...). É claro que esta oportunidade irá deixar de existir a médio/longo prazo no mercado português (...). O ponto forte da segurança é a evolução da segurança comportamental (...).»

[RSC]
Acha que existem diferenças entre os sectores empresariais relativamente à segurança?
[IB]
Sim, penso que existem diferenças. Em Portugal, como noutros países, há sectores que por definição apresentam mais risco. O sector da construção, por exemplo, está a viver um momento difícil devido à crise e é um sector naturalmente mais exposto ao risco. Considero que as empresas mais afectadas pela crise têm que perceber que estão na fase mais difícil, também do ponto de vista da segurança, e devem, por isso, fazer um esforço redobrado nesse domínio, apostando também nas áreas da segurança que não precisam tanto de investimento financeiro, como os comportamentos.

[RSC]
Como é que a Schindler se posiciona em relação ao sector?
[IB]
A Schindler tem essencialmente dois negócios. Um deles é a instalação de novos elevadores e está muito relacionado com o sector da construção civil. Este sector conheceu uma melhoria muito significativa ao nível dos procedimentos e também da fiscalização. O outro sector em que a Schindler está é o da manutenção dos elevadores. Nesta área a situação é um pouco diferente porque existe legislação que é válida para os elevadores novos mas não para os antigos. Neste aspecto, gostaria que fossem feitas melhorias, quer ao nível da legislação, quer da fiscalização. De qualquer modo, em matéria de segurança o nosso objectivo é atingir 100% de sucesso, não fazemos comparação com concorrentes. Fazemos o máximo e melhor possível nesta área.

[RSC]
Como avalia o desempenho do Estado ao nível da segurança e saúde no trabalho?
[IB]
Está implementada muita legislação e, neste aspecto, julgo que está feito um bom trabalho embora exista espaço para alguma melhoria. No entanto, no que se refere à aplicação dessa legislação há muito para melhorar. O que é feito em teoria acaba por não se concretizar na prática. O Estado pode fazer um esforço maior com a fiscalização para acelerar a mudança, dando sempre o feedback. Deve despertar nas pessoas essa necessidade de mudar.

Sugestões apontadas ao papel do Estado:
- Os resultados do processo fiscal deveriam ser divulgados por todas as empresas e sociedade, só assim saberemos onde estamos e o que nos falta para atingir os nossos objectivos. Para a melhoria tem que haver feedback.
- Educar as pessoas, a escola é o lugar certo, e isto deve ser feito desde a escola primária ate à universidade.

[RSC]
Para terminar, gostaríamos que deixasse uma mensagem aos empresários, aos trabalhadores e aos leitores da revista.
[IB]
A mensagem é a mesma para todos. Todos temos um papel fundamental na promoção da segurança. Cada um de nós deve esforçar-se o mais possível para eliminar situações de risco. Na Schindler, por exemplo, a segurança é o primeiro dos cinco valores pelos quais nos pautamos. Para nós a segurança está em primeiro lugar sempre e não há nenhuma circunstância que possa alterar essa prioridade. Convido todos a adoptar a mesma atitude que a Schindler, para que Portugal possa chegar mais cedo a um destino que será obrigatório em todas as sociedades.

  • SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S  ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    A metodologia 6S é uma abordagem sistemática de organização do trabalho e de goodhousekeeping é aplicada à produção de produtos e serviços de qualidade, sempre de forma segura. Para potencializar os resultados da metodologia 6S é obrigatório que haja a integração dos conceitos, princípios e ferramentas BBS. Foca primeiramente as condições e organização de trabalho e numa etapa seguinte o fator humano. Para cada regra deve haver pelos menos um comportamento alvo definido, no entanto, a quantidade de comportamentos alvo a monitorizar deve ser bem menor do que a quantidade de regras a implementar. O sistema de informação, comunicação, instrução e coaching deve acompanhar a implementação destas metodologias.

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  • A SEGURANÇA NA METODOLOGIA 6S

    A SEGURANÇA NA METODOLOGIA 6S

    O método “6S” deriva de um conjunto de etapas que são sequenciais e, de alguma forma cíclicas, iniciadas pela letra “S”, sendo o 6.º S transversal a todas as outras etapas, designado por Segurança. Com este adicional sexto S, o método garante também o foco na redução de acidentes de trabalho ao longo da cadeia produtiva.

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  • VAMOS CONVERSAR: INFLUÊNCIA NA MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

    VAMOS CONVERSAR: INFLUÊNCIA NA MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

    Impulsionar a mudança comportamental, é um processo contínuo e lento, tendo por base o conhecimento, reconhecimento e respeito da parte fundamental do sistema de segurança: as pessoas!

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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