FERNANDA CORREIA: Utilização de feedback como ferramenta de melhoria em segurança e saúde

11 abril 2017
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Author :   Fernanda Correia (Diretora de recursos humanos da Norauto Portugal)
Citar ENTREVISTA: Gomes Augusto, N. (2012). Utilização de feedback como ferramenta de melhoria em segurança e saúde - Entrevista com Fernanda Correia. Revista Segurança Comportamental, 5, 24-28. Entrevista: Natividade Gomes Augusto | Jornalista: Sandra Sousa | Fotógrafo: Daniel Viana Martins

Aconselha a utilização de feedback como ferramenta de melhoria em segurança e saúde, tanto da gestão para com os trabalhadores, como do Estado para com as empresas e a sociedade.

Licenciada e com MBA executivo em gestão de recursos humanos, é desde 2005, diretora de recursos humanos da Norauto Portugal, direção onde se encontram inseridos os serviços de segurança, higiene e saúde. Esta empresa multinacional francesa, encontra-se presentemente em 9 países. Atualmente a Norauto Portugal, com 15 centros-auto, mantém viva a sua política de expansão, investindo na formação contínua dos seus colaboradores onde a área da segurança e saúde marca a diferença.
Fernanda Correia, em entrevista à Revista Segurança Comportamental, defendeu que em Portugal predomina uma cultura de «forte facilitismo». Os impactos da integração do fator humano na segurança são fortes, tanto para o trabalhador que obtêm mais qualidade de vida, como para as empresas, que aumentam os seus níveis de segurança, de produtividade e imagem perante o mercado.

[Revista Segurança Comportamental]
Qual a sua opinião sobre o estado da saúde e segurança no trabalho a nível mundial?
[Fernanda Correia]
Eu considero que hoje existe uma maior consciencialização para as matérias relacionadas com a segurança no trabalho. Existem, a nível mundial, várias diretivas que obrigam os vários países a atender a esses critérios. Penso que a legislação portuguesa, embora hoje esteja mais exigente, ainda não é tão exigente como a de outros países. Temos países como França e Espanha que têm uma legislação mais exigente que a nossa. Contudo em Portugal, e no caso concreto da Norauto, temos vindo a desenvolver ao longo do tempo, uma maior ação de sensibilização para estas matérias. Damos, hoje, muito mais ênfase nas matérias de segurança e saúde no trabalho, área com uma relevância superior ao passado. Sabemos que existe uma maior consciencialização, mas sentimos que ainda existe um longo caminho a percorrer, sobretudo ao nível da adoção de comportamentos e práticas mais seguras.

[RSC]
E ao nível das ações específicas?
[FC]
Nós temos desenvolvido um especial enfoque ao nível da comunicação interna. Temos realizado ações de sensibilização e de promoção, quer ao nível de utilização dos equipamentos de proteção individual, quer ao nível da promoção de segurança, higiene e saúde. Costumamos, também, assinalar todos os anos o dia da prevenção e saúde no trabalho. Por outro lado, faz parte da integração de novos colaboradores um módulo de formação na área da segurança e saúde no trabalho. Temos também formações sobre métodos de trabalho e condições de segurança, nomeadamente ao nível das oficinas, tendo em conta que nestas áreas de negócio os riscos profissionais são maiores e mais graves. Através desta dinâmica de formação e consciencialização, temos tido resultados positivos. A nossa formação e-learning na área de higiene e segurança foi reconhecida pelas entidades oficiais como um método atual e dinâmico.

«(...) Entendo que se não houver um comprometimento, desde logo, da gestão de topo, podemos correr o risco de ter uma estratégia sem sucesso.  As chefias têm de interiorizar que o fator humano é preponderante para a promoção da saúde e segurança no trabalho, de forma que possam viver estes valores no dia-a-dia e transmiti-los às suas equipas.»

[RSC]
E concretamente sobre a segurança comportamental, qual a sua opinião sobre o fator humano na segurança e saúde no trabalho também a nível global?
[FC]
Considero que estamos a caminhar para que haja uma integração do fator humano na segurança e saúde porque já se viu que é preponderante para a prevenção e para a promoção da segurança e saúde no trabalho. Ao nível da cultura portuguesa, penso que ainda não existe uma total abertura nesse sentido, mas estamos a caminhar para lá. Temos de desenvolver um trabalho muito pedagógico, com muita abertura de espírito e com muita resiliência na ação. É um trabalho que deverá envolver toda a organização incluindo a gestão de topo. Há que definir bem os objetivos e as estratégias face aos resultados que pretendemos alcançar. Posteriormente há que as implementar, monitorizar, controlar e dar feedback.

[RSC]
Como considera a influência da gestão de topo, isto é, o compromisso da gestão nestas matérias?
[FC]
Entendo que se não houver um comprometimento e envolvimento desde logo da gestão de topo, podemos correr o risco de ter uma estratégia sem sucesso. Deverá existir um envolvimento da gestão intermédia. As chefias têm de interiorizar que o fator humano é preponderante para a promoção da saúde e segurança no trabalho, de forma que possam viver estes valores no dia-a-dia e transmiti-los às suas equipas. A Norauto trabalha com pessoas bastante jovens ao nível dos centros e se, por um lado esta juventude pode favorecer a mudança, por outro lado nem sempre são sensíveis a estas matérias. Acho que existe um fator sociocultural subjacente, ou seja, existe uma cultura organizacional que não favorece o seu envolvimento em áreas que consideram que não lhes dizem diretamente respeito. Na minha opinião estas problemáticas dizem respeito a todos, não só às empresas, mas a toda a sociedade em geral. O grande desafio é conseguir explicar e sensibilizar que daqui pode advir uma vantagem relevante para a empresa, mas também para o colaborador porque obtém uma melhoria de condições de trabalho e logo de qualidade de vida. O espírito de grupo pode sair também reforçado, o que se materializa numa diminuição de custos e melhoria da rentabilidade da empresa. E claro, não esquecendo como já referi o impacto positivo na imagem, quer seja ela interna, quer seja externa.

Problemas identificados:
- Cultura de «forte facilitismo»,
- Existência de uma justificação permanente para a «desculpa»,
- Legislação dispersa,
- Elevada percentagem de pequenas e médias empresas,
- Crise económica.

[RSC]
Como é que o compromisso da gestão de topo é executado na Norauto?
[FC]
O nosso diretor-geral está bastante implicado em todas estas matérias. Todas as ações que promovemos ao nível da direção de recursos humanos, na qual se integra a área de segurança e saúde, beneficiam do seu dinamismo e apoio, reforçando a importância desta estratégia e a relevância do seu cumprimento. Nós temos vários centros auto, distribuídos ao longo do país e uma das nossas formas de comunicação são as reuniões que fazemos com os diretores de centro onde passamos a primeira mensagem sobre as questões de segurança. Depois, são os diretores de centro que vão difundir todas as estratégias que são aqui definidas, junto de cada colaborador nos seus centros.

[RSC]
Parece-nos que estão bastante atentos à questão da segurança rodoviária. Tem alguma opinião sobre a forma como o automobilista vê a segurança na estrada?
[FC]
O que me parece é que existem, na cultura portuguesa, alguns hábitos muito enraizados que não são facilitadores da promoção de uma segurança rodoviária. Nós temos uma cultura de «forte facilitismo», que dificulta essa promoção. Ao nível das máquinas e das infraestruturas caminhámos muito nos últimos anos: temos ótimas infraestruturas, temos estradas com boas condições, temos uma sinalização adequada, possuímos uma legislação clara, temos um parque automóvel de elevada qualidade, temos excelentes sistemas de navegação que nos apoiam na nossa condução, coisa que há uns anos atrás não existia. E, porque é que temos uma tão elevada taxa de sinistralidade, apesar da diminuição ocorrida nos últimos anos?! Isto acontece porque temos uma cultura de facilitismo. Pensamos que temos sempre um bom domínio da nossa condução mesmo em excesso de velocidade. Outro exemplo caricato é o facto de continuarmos a fazer sinais de luzes, por exemplo, a quem passa, para avisar que está uma brigada próxima. Isto é impensável! E é esta mudança de hábitos que tem de ser trabalhada, mas isto não se consegue de um dia para o outro. Nem se consegue, na minha opinião, de uma forma apenas punitiva. Acho, que o investimento devia começar por ser feito ao nível do ensino básico, à semelhança do trabalho desenvolvido na sensibilização ambiental.

[RSC]
Como considera que as empresas conseguirão promover a cultura de segurança?
[FC]
Eu considero que nas empresas também existe o tal «facilitismo». Muitas vezes chamamos à atenção dos nossos colaboradores para a utilização dos equipamentos de proteção individual, e eles respondem “não me dá jeito utilizar as luvas”. Neste caso deveríamos insistir, ir pela perspetiva pedagógica, explicar o que é que vai acontecer ao longo do tempo se não utilizarem as luvas. Outra questão que considero muito prejudicial é que temos sempre uma justificação para a desculpa. A nossa chefia quando nos vê a fazer um ato menos correto fecha os olhos, porque afinal até somos bons trabalhadores e isto vai-nos melindrar. Eu acho que isto é cultural e precisa ser melhorado.

[RSC]
Considera que nas empresas a cultura de segurança é reativa?
[FC]
Considero que é reativa, mas que não deverá ser. Acho que deve ser mais proactiva.

[RSC]
E o papel do Estado, como o considera nesta matéria?
[FC]
Eu penso que o estado tem vindo a sensibilizar as empresas. Parece-me que a legislação hoje é bastante mais complexa do que há uns tempos atrás. Temos uma legislação muito solta, são várias leis, é um sistema retalhado. Isso faz com que muitas vezes não seja fácil cumprir todos os requisitos legais, sobretudo se pensarmos que o tecido empresarial português é composto por pequenas e médias empresas, onde não existem nem recursos físicos, nem económicos, nem sensibilidade para este tipo de matérias. Por outro lado, se pensarmos que estamos a viver um contexto de crise, que as empresas estão em contração, parece-me que quando se reduzem custos, esta área será uma das mais afetadas. Entendo que devia haver uma maior aproximação entre os organismos oficiais e as empresas, criando uma “quase-parceria”, no sentido de se realizar um trabalho mais pedagógico, numa perspetiva informativa e formativa. Penso que o controlo também é bastante importante. Por outro lado, neste momento, o Estado possui uma ferramenta relevante que é o relatório único, possibilitador da construção de indicadores quer individualizados quer agregados ao nível do setor de atividade, constituindo-se como um exercício de benchmarking importante e que facilitaria a adoção de planos mais realistas e com horizontes mais claros e ambiciosos. Acho que o feedback do Estado seria muito importante para a evolução da segurança em Portugal.

Algumas sugestões:
- Investimento ao nível do ensino básico,
- “Quase-parceria” entre o Estado e as empresas,
- Feedback do Estado às empresas e sociedade, por exemplo, os resultados do relatório único.

[RSC]
Como acha que o Estado vê o fator humano na segurança?
[FC]
Tenho algumas dúvidas. Acho que há muita legislação e não se consegue ver o que está para além da legislação. Eu acho que muitas vezes, seria necessário descer ao terreno e perceber o que é necessário para darmos cumprimento à legislação, o que implica na prática. Acho que está tudo muito no papel. Para se entender e integrar bem o fator humano, temos que ir para o terreno.

[RSC]
Ao nível da investigação, sente a necessidade de ser realizada investigação em algum tema específico?
[FC]
Eu sou sempre da opinião que uma maior interação entre aquilo que é o ambiente académico e aquilo que é a realidade das empresas, se traduzia numa enorme vantagem. Ao nível da Norauto, há duas áreas que gostava de ver em estudo: a relação entre uma cultura de segurança e os níveis de produtividade e satisfação dos nossos clientes; e, como poderíamos reforçar a mensagem a passar aos nossos vendedores para a promoção de uma cultura de segurança rodoviária nos nossos clientes através dos processos de venda. Nós pretendemos ter soluções de mobilidade que vão ao encontro das necessidades do cliente, mas se pudermos, ao vender o produto, reforçar também essa cultura de segurança rodoviária, seria excelente.

[RSC]
Gostaria de deixar uma mensagem a empresários, gestores, trabalhadores e também aos leitores da revista SC?
[FC]
Considero que por mais ações que o Estado desenvolva, por mais actividades que as empresas promovam relativamente a matérias de segurança, a grande questão está na pessoa.
Temos que nos concentrar na mudança de hábitos. Se as pessoas não forem capazes de refletir sobre as suas práticas e atitudes e se não tiverem vontade de mudar, por muita legislação e procedimentos que existam, não iremos conseguir melhorar.
Todos têm capacidade de mudar, por isso, só falta a vontade.
Devemos ter uma atitude proactiva para essa mudança, em prol de mais e melhor segurança e saúde. Fazer todos os dias mais e melhor!

  • SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S  ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    A metodologia 6S é uma abordagem sistemática de organização do trabalho e de goodhousekeeping é aplicada à produção de produtos e serviços de qualidade, sempre de forma segura. Para potencializar os resultados da metodologia 6S é obrigatório que haja a integração dos conceitos, princípios e ferramentas BBS. Foca primeiramente as condições e organização de trabalho e numa etapa seguinte o fator humano. Para cada regra deve haver pelos menos um comportamento alvo definido, no entanto, a quantidade de comportamentos alvo a monitorizar deve ser bem menor do que a quantidade de regras a implementar. O sistema de informação, comunicação, instrução e coaching deve acompanhar a implementação destas metodologias.

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  • Pela 1.ª vez Portugal & Brasil juntos na prevenção de acidentes de trabalho, através de safety-coaching!

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    Realiza-se pela 1ª vez em Portugal um evento sobre Safety-Coaching, tendo como população alvo o público em geral. Portugal & Brasil juntos! Inscreva-se e receba uma entrada gratuita para o 7º Workshop sobre Segurança e Saúde Comportamental.

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    CONFIABILIDADE HUMANA NA SEGURANÇA. HÁ COMO PREVENIR AS VIOLAÇÕES?

    É complicado compreender as recompensas de se trabalhar com segurança e com confiabilidade (Behavior-Based Reliability), já que estamos a trabalhar para não ocorrer nada, não ocorrer lesões, não ocorrer acidentes. Qualquer organização que pretenda evoluir no seu desempenho e construir a sua sustentabilidade, deve esforçar-se para reduzir os acidentes, especialmente através do potencial da falha humana. Deve ser desenvolvido um programa específico para tratar as violações, associado ao organismo vivo cognitivo, emotivo e relacional, característico daquele contexto. Há várias soluções aplicadas aos vários tipos de violações: rotineiras, optimizadoras, situacionais e excepcionais.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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