MANUEL CARVALHO DA SILVA: Segurança é «estratégica para o desenvolvimento da sociedade»

11 abril 2017
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Author :   Manuel Carvalho da Silva (Secretário-geral da CGTP-IN)
Citar ENTREVISTA: Gomes Augusto, N. (2010). Segurança é «estratégica para o desenvolvimento da sociedade» - Entrevista a Manuel Carvalho da Silva. Revista Segurança Comportamental, 1, 4-6. Entrevista: Natividade Gomes Augusto | Jornalista: Sandra Isabel Martins | Fotógrafo: Vitor Alfaia

Segurança é «estratégica para o desenvolvimento da sociedade»

Secretário-geral da CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional) é doutorado em Sociologia pelo ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), Manuel Carvalho da Silva é também autor de múltiplos artigos sobre sindicalismo, trabalho, economia e desenvolvimento. Na primeira grande entrevista da revista Segurança Comportamental ninguém melhor do que ele para analisar as questões da segurança comportamental na sociedade actual. De acordo com Carvalho da Silva «há cada vez mais factores de insegurança e de instabilidade» e o papel do Estado é «importantíssimo». O secretário-geral da CGTP-IN considera que a segurança é um «campo estratégico mas se verificarmos as prioridades dos orçamentos de Estado, isso não acontece, o que é “amputador” do desenvolvimento»

[Revista Segurança Comportamental]
Qual é a sua opinião sobre a segurança a nível mundial e em Portugal no presente momento?
[Manuel Carvalho da Silva]
Vivemos uma realidade em que o mundo do trabalho tem cada vez mais factores de insegurança e de instabilidade. As precariedades que marcam a relação de trabalho rapidamente “evoluíram” de uma dimensão que era muito situada em aspectos que resultavam de inovações organizacionais, novos métodos e técnicas de trabalho, alterações tecnológicas e evolução científica, para a insegurança e instabilidade como factores estratégicos de gestão, o que influenciou por exemplo a alteração do conceito de emprego.
Do ponto de vista geral, temos umas décadas no percurso fortemente influenciadas pelo que comummente se chama neoliberalismo. Criou-se a ideia de que o indivíduo isolado consegue gerir melhor a sua vida, o que levou a um desequilíbrio entre o individual e o colectivo.
Hoje diz-se que o financeirismo das sociedades foi muito vantajoso para impulsionar o desenvolvimento e o crescimento económico das sociedades. É verdade, só que a gestão das expectativas foi levada ao extremo e isso gera inseguranças. Estamos a vender um estilo de vida que não pode ter aplicação universal porque não há recursos naturais que o sustentem. Eu penso que é daqui que decorre o cenário base que nos permite analisar o comportamento das pessoas. Uma das questões centrais a recolocar, olhando o mundo do trabalho e também a sociedade, é de certeza um reequilíbrio entre o individual e o colectivo. Claro que estamos num mundo que por avanços em diversas áreas coloca em emergência o individual, e se em última instância o colectivo não se sobrepuser ao individual não há a humanização da sociedade.

“As questões da segurança e da saúde são o primeiro factor de motivação das pessoas, o segundo tem a ver com o desejo dos trabalhadores em ser respeitados e só em terceiro surgem as questões materiais.”

[RSC]
Considera que a sociedade portuguesa está sensível ao poder do comportamento na segurança?
[MCS]
O que observo a partir do trabalho, mas também a partir da sociedade é uma sensibilidade que às vezes me surpreende, da parte dos trabalhadores e das pessoas em geral.
Assiste-se em muitas empresas, a uma preocupação enorme por parte dos trabalhadores em relação à criação de condições de segurança no espaço do trabalho, e se existe preocupação então irão estar atentos aos seus comportamentos. Em muitos casos, as questões da segurança e da saúde são o primeiro factor de motivação das pessoas, o segundo tem a ver com o desejo dos trabalhadores em ser respeitados e só em terceiro surgem as questões materiais.
No entanto, os trabalhadores também são muitas vezes desmotivados pelo imediatismo. No período de actividade mais intensa das obras públicas, ocorreram muitas mortes por acidentes de trabalho. Recordo-me de dois trabalhadores que morreram numa vala no Porto, um dos quais tinha acabado de iniciar funções na empresa e estava a trabalhar num espaço de alto risco. A necessidade leva muitas vezes as pessoas a aceitar o improviso.
Nas várias visitas que realizei a empresas enquanto sindicalista, verifiquei que se as condições de saúde e higiene e segurança no trabalho forem boas e se o desenvolvimento da empresa tiver em conta o contexto, do ponto de vista de estruturas do poder e de estruturas sociais, em regra, a empresa tem futuro. A atitude das empresas tem aqui um papel importante. Um dos casos mais significativos que vivi na minha vida de sindicalista foi há uns 20 anos, quando num plenário era discutido um ponto que se arrastava há já algum tempo sobre o problema da falta de espaço e da criação de condições de segurança dentro desse espaço. O espaço era muito pequeno, e discutia-se os comportamentos adequados a adoptar pelos trabalhadores para que tudo funcionasse em segurança. 

 “Se as condições de saúde e higiene e segurança no trabalho forem boas, em regra, a empresa tem futuro.”

[RSC]
Ainda falando de sociedade, mas desta vez no agente socializador a escola. Como vê a violência nas escolas? Considera que deveriam incorporar nos seus programas disciplinas vocacionadas para a segurança?
[MCS]
Penso ser indispensável levar para o interior da escola a reflexão sobre as questões da segurança/insegurança e da estabilidade/instabilidade. Mas não podem ser abordadas de forma isolada, é necessário ter em conta a observação da sociedade nas suas diversas componentes. Não é possível tratar de segurança no ambiente social sem referenciar o contexto.

“A escola é a instituição de reprodução social mais importante e ao falar-se de segurança teria também de se falar das causas das inseguranças e das instabilidades.”

[RSC]
Porque razões, a segurança, não está nos programas escolares?
[MCS]
Um grande sociólogo dinamarquês, Hans Andersen, diz que a aposta mais decisiva nos seres humanos é nos primeiros anos da sua vida. Durante muito tempo falou-se da escola e agora diz-se que os anos mais influentes são os quatro anos de vida, isto poderá revolucionar tudo.
Mas voltando propriamente à sua questão, a sociedade está a caminhar muito sobre condições que estão carregadas de inseguranças como factores estratégicos de desenvolvimento e é difícil introduzir o tema nas escolas. A escola é a instituição de reprodução social mais importante e ao falar-se de segurança teria também de se falar profundamente das causas das inseguranças e das instabilidades.
No entanto, embora difícil, é necessário que se insista na divulgação deste tema.

[RSC]
Na sua opinião há diferenças geracionais sobre a percepção da segurança?
[MCS]
Esta questão remete-nos para o problema das solidariedades geracionais. Veja-se o que se passa no trabalho: os mais antigos têm direito a determinadas regalias enquanto os mais novos não. Isto provoca choques geracionais. Por outro lado, os trabalhadores mais velhos estão a ser empurrados para fora do mercado de trabalho, muitas vezes a partir dos 40 anos, às vezes até antes e isto não é sustentável numa sociedade que vai continuar a viver do trabalho.

“Para haver uma evolução qualitativa na segurança comportamental é preciso deixarmos o imediato e passarmos para uma visão estratégica.”

[RSC]
Na sua opinião, qual das gerações dá mais importância à segurança?
[MCS]
Os jovens dão importância às questões da segurança, mas estão imbuídos de um pressuposto de que estão distantes do tempo e das condições para obterem a segurança. Enquanto nas gerações anteriores, no período em que se induziu no trabalho e fora do trabalho o valor da segurança e da estabilidade no emprego, as pessoas iniciavam o trabalho e a partir dali começavam a formar perspectivas e a construir um projecto de vida, agora as novas gerações continuam a fazer afirmações importantes de valorização da segurança mas colocadas perante as más condições de trabalho, inculcam na sua mente uma ideia de que tudo o que têm é provisório e reagem em função disso.
Contudo, têm uma visão mais ampla dos elementos que estruturam a segurança e a insegurança. São mais sensíveis às questões ambientais, às questões energéticas e são também mais sensíveis às novas exigências de formação e educação sobre os saberes e qualificações que é necessário ter. Sobre isso dizem-se disparates continuamente “agora a sociedade exige aprendizagem ao longo da vida é preciso aprender e transmitir”, mas isso sempre foi a sustentação da sobrevivência da sociedade humana. O que agora existe são novos contextos e novas exigências para essa transmissão de saberes, e, os jovens encontram­‑se mais sensíveis a isso porque estão muito mais próximos das novas aprendizagens. O lastro de percepção é melhor daí a possibilidade de se tornarem mais sensíveis, nomeadamente sobre as questões da segurança.

“Máxima rentabilidade possível no mais curto espaço de tempo, sacrificando tudo a favor dos accionistas. Isto levou à secundarização de valores importantes como a segurança comportamental nas organizações.”

[RSC]
Considera que as empresas portuguesas têm a noção da importância da segurança comportamental nas condições de trabalho?
[MCS]
O que tem prevalecido é uma lógica de máxima rentabilidade possível no mais curto espaço de tempo, sacrificando tudo a favor dos accionistas. Isto levou à secundarização de valores importantes como a segurança comportamental nas organizações.
Há mudanças positivas, mas esta pressão dos lucros a todo o custo destruiu possibilidades de avanço. Muitas das medidas e projectos anunciados como exemplares em relação à responsabilidade social das empresas não passam de operações de marketing e não cumprem os direitos fundamentais.
Além disso, o disfuncionamento das instituições do poder no plano mundial ou no plano de um país é um factor destabilizador, que desarma a importância da segurança no comportamento dos indivíduos, no comportamento dos colectivos e no comportamento das organizações.
Em Portugal, um dos problemas graves para resolver é a mudança de uma nova atitude perante as leis, uma efectivação dos compromissos. Não é possível segurança nos comportamentos se não houver um valor inculcado de valorização do compromisso individual e colectivo.

“As empresas deverão criar e desenvolver culturas que incorporem valores que lhes permitam desenvolver políticas de segurança.”

[RSC]
Na sua opinião, as empresas ainda estão na fase básica de desenvolvimento do cumprimento da lei? E por isso não conseguiram chegaram à fase da segurança comportamental?
[MCS]
Em primeiro lugar estão ainda subjugadas ao determinismo do lucro a todo o custo.
Em segundo lugar não existe um clima de compromisso e uma moralização da governação entendida no plano geral que seja vantajosa e que se associe a uma perspectiva estratégica da sociedade. Para haver uma evolução qualitativa na segurança comportamental e em diversos campos da segurança é preciso deixarmos o imediato e passarmos para uma visão estratégica.
Em terceiro lugar, as dificuldades económicas das empresas e dos organismos. A limitação financeira muitas vezes aparece associada a um desconhecimento dos empresários das vantagens em investir na segurança.
Poderá pensar-se que as multinacionais investem mais na segurança, no entanto algumas cometem os maiores crimes do mundo quer no plano ambiental, quer no plano da segurança e saúde no trabalho. Há muitas pequenas empresas onde se desenvolvem culturas de valorização das relações de trabalho e em que naturalmente emergem aspectos muito sólidos de segurança.

[RSC]
Qual o sector de actividade que, na sua opinião, merece maior atenção no que concerne à segurança comportamental?
[MCS]
Julgo que é um problema geral, que se coloca tanto no espaço privado como no espaço público. Muitas vezes, o exemplo dos organismos públicos é muito mau. As limitações financeiras dos orçamentos de Estado são tão ou mais demolidoras do que as atitudes mais egoístas do capital privado.
Se considerarmos os sectores, depende das pressões existentes em cada um. Se o sector da construção e obras públicas estiver sob grande pressão e com dinâmicas muito imediatas em que se recruta de qualquer forma, criam-se hábitos de improviso. Os portugueses têm essa característica de improvisar, penso que entre outros factores a sociedade portuguesa tem o efeito de séculos, de vivência de uma espécie de intermediários no processo das descobertas e da colonização e isso marcou-nos e estamos com esse provisório excessivamente afirmado. Isso não é bom para a segurança comportamental.

“Um dos desafios que se coloca ao Estado é o de demonstrar às empresas as vantagens, até do ponto de vista económico, de se dar atenção à segurança.”

[RSC]
Considera que a falta de qualificações dos empresários influencia a percepção sobre a segurança comportamental?
[MCS]
Influencia tudo o que é imediato, mas muito mais o que é estratégico.

[RSC]
Na sua opinião quais são os desafios que actualmente se colocam às empresas portuguesas relativamente à temática da segurança comportamental?
[MCS]
O problema fundamental coloca-se no campo da inovação social. Quando falamos de inovação somos sempre atraídos para ligar este conceito à tecnologia. Mas a inovação social, é dos comportamentos humanos. Os grandes problemas a resolver são os inerentes à construção das condições estruturais, ou seja, as empresas deverão criar e desenvolver culturas que incorporem valores que lhes permitam desenvolver políticas de segurança.
Os direitos e a segurança no trabalho vão estar profundamente ligados à evolução do comportamento da sociedade em relação aos direitos das pessoas. Não há possibilidade de evolução de segurança no trabalho se as políticas de saúde tiverem retrocesso ou se a segurança social enfraquecer.
A abordagem do sistema de justiça é também uma questão estratégica. O bom funcionamento da justiça pressupõe que se analisem os comportamentos exigíveis na sociedade para que se possa identificar os desvios e delinear a respectiva punição. Não é possível fazer um desenho dos grandes desafios que se colocam às empresas se não fizermos ao mesmo tempo uma observação sobre o que será a evolução dos outros factores da sociedade.

“Nós estamos a falar de um campo que é estratégico mas se formos às prioridades dos orçamentos de Estado ele não surge como estratégico e isto é amputador do desenvolvimento.”

[RSC]
Como considera o desempenho do Estado em matéria de segurança e que medidas gostaria de ver desenvolvidas e aplicadas?
[MCS]
O papel do Estado é importantíssimo na implementação da segurança comportamental. Contudo, neste momento, estamos muito mal a nível de segurança no trabalho porque, embora haja algumas situações positivas, não temos serviços de preparação e de disponibilização de condições de segurança. Um dos desafios que se coloca ao Estado é o de demonstrar às empresas as vantagens, até do ponto de vista económico, de se dar atenção à segurança. Nós precisamos de vencer esse desafio e o Estado tem aí um papel importante. Não é com anúncios programáticos, mas com uma acção constante, pelo tal caminho da inovação social, de mudança comportamental.
Ao mesmo tempo que o Estado presta informação às empresas sobre segurança, deverão também existir serviços que façam a promoção, o acompanhamento e a fiscalização nesta área. Contudo, não temos especialistas em saúde e segurança no trabalho em número suficiente para as necessidades actuais. E faltarão cada vez mais, porque em nome da necessidade dos cortes orçamentais não há entradas, apesar de muitos destes técnicos se encontrarem no desemprego.
Nós estamos a falar de um campo que é estratégico, mas se formos às prioridades dos orçamentos de Estado ele não surge como estratégico e isto é amputador do desenvolvimento.

[RSC]
A culpa é da crise?
[MCS]
A crise em Portugal tornou-se uma instituição há muito tempo. E isso é um drama!

[RSC]
Na sua opinião, as universidades deverão investir mais na investigação científica na área da segurança, nomeadamente comportamental?
[MCS]
As universidades deverão ser muito mais ofensivas, não numa perspectiva de servir aquilo que as empresas ou o Estado lhes encomendam mas tendo opinião própria e uma intervenção dinâmica com uma certa dimensão crítica ao realizarem determinada investigação. Contudo, as universidades estão muitas vezes limitadas por falta de meios económicos, pelas dependências que os investigadores e os especialistas ficam dos financiamentos dos projectos. O Estado tem por isso que ter nesta como noutras áreas importantes, uma intervenção maior do ponto de vista directo mas também das políticas que desenvolve. Não se pense que é possível avançar muito na segurança no plano do mundo do trabalho se, no plano do comportamento quanto aos acidentes de trabalho, o Estado não tiver um papel muito mais rigoroso e activo.
Um sociólogo português, António Casimiro Ferreira, chama a atenção num dos seus trabalhos, para o facto de morrerem mais do dobro de pessoas por causa de acidentes de trabalho do que devido à guerra. Além disso, há três vezes mais seres humanos limitados nas suas capacidades devido a acidentes de trabalho, do que por causa da guerra.

“Devemos encarar a área da segurança como estratégica para o desenvolvimento da sociedade.”

[RSC]
Que tema gostaria de ver investigado pelas universidades?
[MCS]
Um bom ponto de partida seria o estudo dos acidentes de trabalho, em dois campos. O primeiro diz respeito à análise das causas, tendo em conta a observação dos diversos factores, para assim compreender quais as áreas mais sensíveis, do desenvolvimento e da estruturação da economia.
No segundo campo, compreender o que acontece aos trabalhadores depois de sofrerem um acidente de trabalho. A partir daí será possível averiguar as exigências para os organismos públicos e definir espaços e conteúdos do que deve ser a informação, a motivação e as contrapartidas.

[RSC]
Qual a mensagem que gostaria de deixar aos nossos leitores?
[MCS]
É fundamental encarar o tema com uma dimensão de futuro. Devemos encarar a área da segurança como estratégica para o desenvolvimento da sociedade. A partir daí, procurar concretizar, através de conteúdos muito objectivos, a motivação e a mobilização, o que implica a participação de todos.

 

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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