DISCIPLINA OPERACIONAL COMO BARREIRA AO ACIDENTE, NO SETOR ELÉTRICO

28 abril 2017
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Author :   Natividade Augusto & José Luiz Alves
Citar ARTIGO: Gomes Augusto, N. & Alves, J. 2013. Disciplina operacional como barreira ao acidente, no setor elétrico. Revista Segurança Comportamental, 7, 10-11 Natividade Gomes Augusto | Socióloga. Técnica superior de segurança. Especialista em segurança comportamental. ProAtivo, Instituto Português (Portugal); José L. Lopes Alves | Doutorado em Engenharia. Especialista em segurança comportamental. Interface Con

Num dos setores mais perigosos, como é o setor elétrico, é obrigatório existir disciplina operacional. As condições seguras são a base, mas não chegam para criarem barreiras à ocorrência de acidentes de trabalho e no limite à morte destes trabalhadores.

Introdução
Entre as várias atividades profissionais, aquela que lida com os sistemas elétricos de potência – geração, transmissão e distribuição de energia – é uma das mais perigosas e produz, infelizmente, registos de acidentes graves, incluindo fatalidades. Ocorrem acidentes muito graves nos profissionais que trabalham nas organizações, tanto de colaboradores internos como colaboradores contratados. Os acidentes oriundos de riscos elétricos também ocorrem a nível social, com pessoas da comunidade. O senso comum, diz que o acidente nesta atividade – choque elétrico, principalmente – não oferece uma segunda oportunidade. A pessoa que toca numa superfície energizada sofre danos severos e em muitos casos morre. Os perigos são bem claros, os riscos também, mas a mitigação não é fácil. O motivo é simples: a proteção do trabalhador depende muito do comportamento humano. Este artigo tem a finalidade de trazer para reflexão este tema, sob a ótica da disciplina operacional.

Acidentes eléctricos – prevenção e proteção
Podemos afirmar que as atividades desenvolvidas no setor elétrico expõem os profissionais a perigos expressivos. Podemos destacar alguns deles:
 Quedas dos eletricistas, em função de redes aéreas de transmissão e distribuição;
 Choques elétricos;
 Queimaduras e outras lesões provenientes de arco elétrico (curto-circuito acidental);
 Acidentes de trânsito devido à possibilidade de grande número de veículos utilizados nas instalações e trajectos;
 Riscos associados a espaços confinados devido às redes subterrâneas.
Várias medidas têm sido implementadas para eliminar, reduzir e controlar os riscos decorrentes dos perigos acima descritos. A tecnologia tem avançado muito. Subestações transformadoras, por exemplo, são construídas de forma robusta, com muitos dispositivos de segurança intrínseca. Acidentes envolvendo transformadores, chaves, disjuntores, etc., têm frequência cada vez mais reduzida, quando comparado com o passado. Os equipamentos de proteção individuais dos eletricistas também evoluíram. Muitas atividades são realizadas com as linhas vivas, ou seja, energizadas, com veículos sofisticados e ferramentas de trabalho especiais.
Para evitar que os perigos se transformem em acidentes, várias ações têm vindo a ser implantadas pelas empresas do setor:
 Promoção do conhecimento do trabalhador em relação a esses perigos e riscos associados;
 Formações específicas para que as pessoas possam desempenhar as atividades no sistema elétrico de potência, com o mínimo risco possível;
 Utilização de equipamentos de proteção individual devidamente conservados e verificados periodicamente, sendo adequados às atividades e contemplando a condutibilidade, inflamabilidade e influências eletromagnéticas;
 Uso de ferramentas e instrumentos especialmente desenvolvidos para as atividades;
 Outras técnicas e dispositivos que têm o objetivo de evitar que o acidente ocorra ou, na hipótese de sua ocorrência, de minimizar as lesões decorrentes.

Cultura e comportamento
Apesar de todos os esforços tecnológicos, muitos acidentes elétricos, provavelmente a maioria, ocorrem por questões ligadas às atitudes e comportamentos, manifestados num ambiente cultural muito específico. As pessoas que trabalham no setor elétrico atuam muitas vezes sob pressão, para restabelecer a energia após um “apagão” (blackout). Muitas vezes trabalham no meio das cidades, em condições precárias, no meio da população. Outras vezes trabalham no meio rural, totalmente afastadas. Na maioria das vezes estes profissionais trabalham em pequenos grupos de dois, onde um eletricista é muito experiente e o outro, às vezes, nem tanto. A atividade depende muito da comunicação e orientação do centro de comando da empresa, onde o sistema é ligado ou desligado à distância.
O acidente passa a depender muito do comportamento da pessoa. E por mais incrível que pareça, não é nos momentos de emergência que a maioria dos acidentes ocorre no setor elétrico. Nestes momentos as pessoas estão mais alertadas, são mais prudentes e protegem-se adequadamente. Todos os procedimentos e instruções são seguidos, passo a passo. A maioria dos acidentes ocorre nos momentos de baixo stresse, quando não há pressão excessiva. Nestes casos, frequentemente, os profissionais cometem falhas importantes, não seguindo os procedimentos básicos, como medir a tensão existente, bloquear e sinalizar corretamente, usar as luvas corretas, etc. Os erros incluem deslizes, lapsos de memória, enganos e violações. A disciplina deixa de ser seguida, por variados motivos, incluindo gatilhos e ativadores do comportamento de forma variada. Problemas em casa, instruções não compreendidas, falhas de comunicação, prioridades mal estabelecidas, falta de ferramentas, pressão dos clientes, redução dos custos, etc. são os antecedentes mais comuns do ato não seguro (Alves et al., 2011).

Disciplina Operacional
Disciplina Operacional! Mas, então, o que é disciplina operacional (DO)? Walter (2002) diz que a DO é um padrão consistente de escolhas de atos desejáveis que dão suporte ao sucesso das tarefas e atividades do ser humano. DO é, pois, o compromisso aprofundado (Klein, 2005) de cada membro das organizações enquanto empresas com o objetivo de executar cada uma das tarefas sempre da melhor e mais correta forma. Nós dizemos que a “disciplina de operação ou operacional” são os princípios, valores, atitudes e comportamentos dos indivíduos em relação aos procedimentos operacionais, e que influenciam diretamente os níveis de segurança, a eficácia e eficiência das operações. Dizemos que a disciplina operacional é alta quando não existe flexibilidade, ou seja, o individuo segue os procedimentos em qualquer situação, sendo ou não observado, com ou sem pressão para terminar o serviço, de dia ou de noite, dias normais ou feriados. No setor elétrico existem instruções de trabalho para quase todo o tipo de tarefas. Existem por exemplo os códigos de manobras que estabelecem de forma inequívoca as sequências de operações necessárias para cada manobra. Desde como montar uma escada até como fazer manutenção com a rede ligada.
A disciplina operacional pode ser desenvolvida por meio de um programa de segurança comportamental, usando a metodologia conhecida como BBS – Behavior Based Safety. No Brasil temos como exemplo a designação de “Mudança Cultural Orientada por Comportamento”, em Portugal temos o programa “Papel, Razão e Emoção - PRE”. Hansen (1993) considera que os programas tradicionais de segurança não evitam acidentes e incidentes. Esta afirmação é baseada em pesquisas feitas pela National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH) com empresas que possuem estes programas e empresas que não possuíam nenhum tipo de programa, não mostravam diferenças significativas. Portanto, segundo este autor, existe um forte indicador que o programa de segurança tradicional não reduz acidentes. O programa PRE, baseado na metodologia BBS, contempla 13 características essenciais dos indivíduos para as empresas atingirem a excelência nos seus processos de gestão através da DO:
1. Ser responsável pelas suas ações;
2. Honrar os seus compromissos;
3. Procurar os resultados através de ações verdadeiras;
4. Respeitar e procurar entender as ideias dos outros;
5. Procurar a justiça nas ocorrências;
6. Partilhar reconhecimento com os outros;
7. Valorizar o seu bem-estar em segurança e saúde, dos seus colegas e comunidade;
8. Garantir uma boa comunicação, para que as informações sejam entendidas por todos;
9. Realizar as suas tarefas requeridas para o seu posto de trabalho, seguindo o procedimento e as instruções prescritas;
10. Usar todos os recursos (sistema, ferramentas, material, tempo,…) de forma adequada e eficiente;
11. Assumir o papel de líder quando necessário e seguir o líder quando apropriado;
12. Ser pro-ativo e participar na melhoria contínua;
13. Confiar nos outros, pensando que estes têm alto grau de DO e tratá-los dessa forma;
Os comportamentos podem ser observados, medidos e portanto, podem ser melhorados. A disciplina operacional é um dos alvos principais nos diálogos comportamentais de segurança entre a supervisão e o trabalhador. O termo disciplina operacional é muito amplo e não é restrito ao comportamento das pessoas na “linha de frente” (front) do eletricista. É necessário, do ponto de vista de segurança e confiabilidade global, perceber que deve existir disciplina operacional:
 No seguimento das normas técnicas durante os projetos dos sistemas elétricos;
 Na análise dos riscos em mudanças, incluindo mudanças de pessoas;
 Na realização das formações e reciclagens, conforme planeadas;
 Nas compras de equipamentos e ferramentas de trabalho conforme especificadas;
 Na definição das competências mínimas para realização das tarefas críticas;
 Na realização das inspeções planeadas;
 No respeito aos limites de segurança;
 Nos simulacros das emergências.
Por isto, devemos entender a expressão DO compreendendo todos os níveis de hierarquia das organizações, inclusive a alta administração da empresa. As atitudes e comportamentos de disciplina imposta nas operações, protagonizado pelos líderes (formais e informais), assumem um elevado nível de força de exemplo incomparável com qualquer outro trabalhador.

Conclusões
Não haverá sucesso se basearmos o nível de segurança somente através dos equipamentos e ferramentas de trabalho, e EPI´s das pessoas. Uma parte relevante da segurança depende da disciplina individual, é uma questão pessoal e intransferível. Talvez o comportamento mais perigoso no setor elétrico seja a falta de bloqueio e sinalização antes de uma tarefa. Como isto é feito várias vezes ao dia, requer enorme disciplina. A disciplina é influenciada pela cultura, que pode vir a ser desenvolvida. Quando a cultura é robusta, a disciplina operacional torna-se um grande obstáculo e enorme barreira ao acidente.

Referências Bibliográficas
Abrantes, J. (2003). Electricidade. Manual de Formação Inicial do Bombeiro. (vol.4). Sintra: G.C. Gráfica de Coimbra, Lda.
Zocchio, Á. (1996). Prática da prevenção de acidentes: ABC da segurança do trabalho. (6.ª ed. rev e ampl.). São Paulo: Atlas.
Assembleia da República Nº 175 -11 de setembro de (2006). Portaria nº 949-A/2006, de 11 de setembro (Regras Técnicas das Instalações Eléctricas de Baixa Tensão), Diário da República I SÉRIE –A.
Klein, J.A. (2005). Operational Discipline in the Workplace. Process Safety Progress, 24 (4), 228-235.
Alves, J.L.; Júnior, L.M. (2011). Mudança cultural baseada no comportamento de segurança: uma experiência no sector eléctrico brasileiro. Revista de Segurança Comportamental, 4, 4-6. GA, Lda. Lisboa
Augusto, N. & Alves, J.L. (2012). Importância do comité operacional e a influência na velocidade do programa comportamental. Revista de Segurança Comportamental, 5, 42-44. GA,Lda. Lisboa
Hansen, L.L. (1993). Safety Management: A Call for ( R )evolution. American Society of Safety Engineers. Disponível em: http://www.l2hsos.com/pdf/Revolution.PDF acedido em 3 de Abril de 2013

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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