CUIDADOS DE SAÚDE A IMIGRANTES: PARA UMA CULTURA DE SEGURANÇA E CONFIABILIDADE

28 abril 2017
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Author :   Alcinda Costa dos Reis & Maria Arminda Costa
Citar ARTIGO: Reis, A. & Costa, A. 2013. Cuidados de saúde a imigrantes: para uma cultura de segurança e confiabilidade. Revista Segurança Comportamental, 7, 18-20 Alcinda Sacramento Costa dos Reis | Enfermeira, Mestre em Ciências de Enfermagem e Doutoranda em Ciências de Enfermagem (ICBAS – UP); Mª Arminda Mendes Costa | Enfermeira, Mestre e Doutorada em Ciências da Educação (FPCE-UL)

As falhas do processo de comunicação entre enfermeiros portugueses e imigrantes, com o entrave da língua, influenciam negativamente as relações de confiança e cuidado mútuo, assim como a cultura de segurança e saúde. A confiabilidade do processo de comunicação, poderá ser solução, passando pela existência de várias ações políticas, organizacionais e individuais, em prol de mais segurança e saúde nos cuidados de saúde.

A segurança nos cuidados de saúde deve ser contextualizada às particularidades do processo de interação e comunicação entre cuidador e cuidado, para além do que está estipulado nos procedimentos desenvolvidos e aplicados. Estes processos são específicos quando as díades de cuidados se particularizam aos enfermeiros com pessoas imigrantes, em organizações prestadoras de cuidados de saúde.
Tal processo de interação e comunicação, entendemo-lo nas situações de cuidados, em linha com Davidhizar & Giger (2001); a comunicação surge para estes autores como uma das seis áreas de variação e diversidade humanas, que deverá necessariamente ser avaliada com vista a um cuidar congruente com a cultura dos imigrantes. Esta perspetiva vem sendo defendida há largos anos por Leininger (1994; 1998), que assume a necessidade de que os enfermeiros desenvolvam as suas competências culturais, assentes no desenvolvimento de uma relação de confiança, coerência e cuidado mútuo entre quem cuida e quem é cuidado.
Em concordância com Purnell (2011), reforçamos as assunções da mesma autora a este propósito, referindo que um imigrante que experiencie cuidados de enfermagem que falhem relativamente à sua coerência com as respetivas crenças, valores e modos de vida pode vivenciar situações de conflito, stresse e insegurança no seu percurso de vida, portanto potencialmente promotores de desequilíbrios nos seus processos de saúde e de doença.
A comunicação no processo de interação entre enfermeiros e imigrantes, é por isso desenvolvida a partir de um conjunto de fatores universais, mas que têm variações de acordo com as especificidades das pessoas e dos grupos, relacionadas com base no modelo de avaliação transcultural de Giger & Davidhizar (2007), com: a linguagem falada, a qualidade da voz e da dicção, o uso de comunicação não-verbal e o uso do próprio silêncio. Purnell (2011), releva a este propósito, a importância de que os técnicos de saúde na equipa multidisciplinar de cuidados a imigrantes tenham os conhecimentos e a capacidade necessários para que este tipo de informação seja mobilizada em ordem a um planeamento congruente com as suas reais necessidades de saúde e ao desenvolvimento de uma relação de confiança.
Para o desenvolvimento da congruência nos cuidados, é necessária uma gestão adequada das diferenças culturais entre técnicos de saúde e imigrantes e a negociação de objetivos comuns e interdependentes na díade de cuidados; esta gestão está intimamente ligada à clarificação do que são cuidados culturalmente seguros na equipa de saúde e à problematização desta necessidade nas unidades de saúde. É hoje mandatório o desenvolvimento de competências culturais nos técnicos de saúde, para que estes se assumam como promotores da segurança nos cuidados que desenvolvem (Purnell, 2011; Campinha-Bacote, 2003).
Este desenvolvimento pressupõe a inexistência de espaço, na equipa multidisciplinar, a falhas humanas. Contudo os cuidados de saúde a pessoas imigrantes, vêm refletindo e sendo ligados a algumas dificuldades nas práticas desenvolvidas em organizações de saúde.
Embora, como refere Machado, 70% de imigrantes no nosso país, seja lusófona (2009: 9), constata-se mesmo assim como aponta Abreu (2008) uma má comunicação entre estes e os técnicos de saúde, resultando para estes autores em atrasos nos diagnósticos, face às reais necessidades das pessoas.
Para colmatar e minimizar o impacto destas constatações, têm surgido algumas ações políticas, tais como a publicação do plano de integração dos imigrantes (2007), assim como, ações mais específicas ligadas ao alto comissariado para a integração e diálogo intercultural (ACIDI), focando-se tangencialmente na melhoria da adequação dos cuidados de saúde a imigrantes. A gestão das diferenças culturais no processo de interação e cuidados entre imigrantes e técnicos de saúde tem vindo a revelar-se como fundamental para o desenvolvimento da segurança neste processo.

“(…) a comunicação surge para estes autores como uma das seis áreas de variação e diversidade humanas, que deverá necessariamente ser avaliada com vista a um cuidar congruente com a cultura dos imigrantes.”

Existe, contudo, ainda um tímido desenvolvimento de ações ligadas a uma intervenção clínica adequada e à consciência de que é urgente o desenvolvimento de uma cultura de segurança na equipa de cuidados de saúde a imigrantes para que o processo atinja confiabilidade, o que vá para além da tradução da mensagem verbal no processo de comunicação (Vega, 2001).
A investigação que desenvolvemos parte de uma orientação etnográfica pretendemos “descobrir os significados das ações observadas” aprendendo com as pessoas (Streubert & Carpenter, 2002), através do instrumento de observação participante como técnica de investigação (Spradley, 1980). Visamos compreender como decorre a interação entre enfermeiros e imigrantes e avaliar a maturidade no desenvolvimento de uma cultura de segurança na comunicação entre partes, triangulando os dados observados com outros decorrentes da análise de entrevistas. Os sujeitos (enfermeiros e imigrantes num total de 52), vêm sendo observados no contexto habitual em que as situações de cuidados ocorrem – unidades de saúde e domicílios dos imigrantes, desenvolvendo-se assim uma análise indutiva, e uma maior proximidade com os sujeitos do estudo.
Pensando nestes técnicos de saúde e nas interações observadas, impõe-se um olhar para os fatores influenciadores do seu desempenho, emergentes neste estudo, no contexto do relacionamento com imigrantes.
De acordo com os dados obtidos, identificamos algumas pré-condições para atos inseguros tais como o deficit na preparação pessoal dos técnicos ao nível de uma consciência de segurança e saúde e erros de perceção do risco daí decorrentes (Shapell & Wiegmann 2001; 2009), dificultando a elevação do nível de segurança e confiabilidade de processo nos contextos multiculturais de cuidados.
Relatamos o caso de uma situação observada numa visita domiciliária que acompanhámos, durante o trabalho de campo do nosso estudo onde este tipo de fatores é visível: trata-se de uma jovem mãe romena, com uma criança prematura, previamente identificada pela enfermeira responsável da unidade de cuidados na comunidade local, como situação de risco, pelas dúvidas colocadas face ao desenvolvimento das competências maternas da jovem:
“Como faz com o leite?” pergunta a enfermeira quando percebe que a mãe não está a amamentar como seria de esperar. A mãe encolhe os ombros e não consegue estabelecer-se comunicação efetiva. Observamos uma lata de leite perto do berço da bebé e a enfermeira tenta que a mãe demonstre como faz a sua preparação, sem sucesso. Passa à observação dos registos no livrinho da bebé e chama a atenção para a data da próxima consulta na unidade de saúde, novamente sem obtenção de feedback no processo de comunicação; a jovem permaneceu imóvel, pouco expressiva e aparentemente desinteressada. Saímos com a sensação da precariedade do processo de comunicação e na incerteza quanto ao “futuro” da saúde da bebé e da mãe.
Validando a sensação da comunicação ineficaz com a enfermeira, confirmámos a insegurança e frustração da técnica face aos resultados obtidos, mas ainda a sua consciência de que surgem dificuldades em “transmitir” confiança nas palavras de maneira a que os outros se sintam seguros, “quando nós mesmos estamos inseguros em relação à interpretação das mensagens que transmitimos; é um turbilhão de emoções às vezes” (enfermeira). Embora reiterando que nestas situações as visitas domiciliárias são feitas mais frequentemente “para irmos registando a evolução” (enfermeira), sem garantia contudo de conseguir estratégias eficazes de comunicação e do estabelecimento de uma relação de confiança.
Dos resultados preliminares desta investigação concluímos: é particularmente relevante a necessidade da promoção de uma cultura de segurança, por forma a que se atinja a confiabilidade e a interdependência nas díades de cuidados. Parece-nos que para iniciarmos a promoção da eliminação de choques culturais, se deva em primeiro lugar investir no processo de comunicação eficaz eliminando a barreira da língua. Assim o uso de crianças/familiares/vizinhos como intérpretes poderá ser primordial, mas deve ser feito em condições previamente avaliadas, assim como deve ser feito investimento no conhecimento de linguagem gestual intercultural, por parte dos técnicos.

Referências Bibliográficas
Davidhizar, R. & Giger, J.N. (2001). Teaching culture within the nursing curriculum using the Giger-Davidhizar model of transcultural nursing assessment. Journal of Nursing Education, 40(6), 282-284
Leininger, M.M. (1994). Nursing and Antropology: two worlds to blend.Ohio: Greyden Press
Leininger, M.M.(1998). Transcultural Nursing: concepts,theories and practices.(2ª ed.). New York: McGraw Hill

 

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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