PREVENÇÃO DE QUEDAS NOS IDOSOS – UM DESAFIO LANÇADO ÀS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

28 abril 2017
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Author :   Joana Diogo
Citar ARTIGO: Diogo, J. 2013. Prevenção de quedas nos idosos – um desafio lançado às sociedades contemporâneas. Revista Segurança Comportamental, 7, 4-5 Joana Diogo | Fisioterapeuta do serviço de apoio domiciliário. Mestranda em Saúde e Envelhecimento pela FCM da UNL.

A implementação de ações de prevenção, relativamente à educação do idoso, eleva a sua consciência de segurança e saúde, o que se repercute numa aceitação, compromisso e mudança de comportamento em prol de mais segurança e saúde, em qualquer contexto que se movimente, nomeadamente na sua própria habitação.

As alterações demográficas do último século, que se traduziram no envelhecimento das populações, vieram colocar aos governos, às famílias e à sociedade em geral, desafios para os quais não estavam preparados (Fernandes, 2008).
De facto, de acordo com o relatório produzido pela Comissão Europeia e Comité de Politica Económica (Ageing Report, 2009), o envelhecimento das populações irá provocar pressões no aumento das despesas públicas, recaindo especialmente sobre as reformas, a saúde e os serviços aos idosos.
Paradoxalmente, apesar de enfrentamos na atualidade uma crise socioeconómica importante, é fundamental numa sociedade como a nossa, regida pelo modelo europeu de solidariedade, garantir o acesso desta população aos serviços de saúde e de prestação de cuidados. Ainda que, durante as próximas décadas, as pessoas idosas sejam mais saudáveis do que as anteriores gerações, as pessoas de idade avançada carecem de serviços de saúde e de prestação de cuidados diversos e em maior número do que os jovens e as pessoas de meia-idade (Comissão das Comunidades Europeias, 1999).
Todavia, a necessidade de amplificar serviços e prestar cuidados pode ser mitigada através da implementação de medidas de promoção da saúde, de estilos de vida saudáveis e de prevenção de acidentes (Comissão das Comunidades Europeias, 1999).
Com base no exposto e tendo em conta que as quedas constituem a causa líder de morbilidade e mortalidade entre esta população (EUNESE, 2003), compreende-se a importância da prevenção das quedas e da promoção da saúde e da autonomia, de que a prática de atividade física moderada e regular, a promoção dos fatores de segurança e a manutenção da participação social desta população são aspetos indissociáveis.

Incidência e consequência das quedas
De acordo com a WHO (World Health Organization, 2007), na Europa, cerca de 30% das pessoas acima dos 65 anos e 50% acima dos 80 caiem todos os anos, sendo que os idosos que sofrem uma queda têm o triplo de probabilidade de cair novamente.
Ainda segundo a WHO, 20 a 30% dos idosos que sofrem lesões resultantes das quedas, vêem a sua mobilidade e autonomia reduzidas, aumentando o risco de morte prematura. Aproximadamente 10% das quedas resultam em lesões graves, 5% das quais são fraturas. As fraturas mais comuns são do punho, coluna, anca, úmero e pélvis, sendo que as fraturas mais frequentes são as da anca, representando 25% do total.
De acordo com a Direção Geral de Saúde, mesmo quando a queda não é muito severa, ocorre, como consequência da própria, o medo de cair e o isolamento social. Em consequência do medo de cair, muitos idosos reduzem, posteriormente, as suas atividades funcionais, o que pode conduzir a estados de ansiedade e à exclusão social, comprometendo a sua qualidade de vida.

Sumário de medidas preventivas para lesões por quedas:
 Realizar atividade física e treino do equilíbrio;
 Rever a medicação;
 Avaliar a visão e corrigi-la se necessário;
 Rever o calçado;
 Realizar pequenos ajustamentos no domicilio, aumentando a segurança do idoso no lar.

Programas de prevenção de quedas – a necessidade inadiável
A prevenção de quedas é um aspeto fulcral, de forma a promover a independência e qualidade de vida entre a população idosa, e minimizar os problemas que lhe estão associados.
As políticas de prevenção até agora implantadas mostram ser custo-efetivas uma vez que muitas das causas de queda são passíveis de ser prevenidas e alguns dos fatores de risco modificáveis (WHO, 2007).
Múltiplos estudos apontam que a frequência das quedas pode ser significativamente reduzida através da educação do idoso, da introdução de medidas de segurança na própria casa do idoso, da intervenção médica, da implementação de programa de exercícios terapêuticos e da prescrição de auxiliares de deambulação (American Geriatrics Society & British Geria-trics Society, 2010).
A Organização Mundial de Saúde refere mesmo para a necessidade de políticas de prevenção e alerta que se não forem tomadas no futuro próximo, o número de disfunções e lesões causadas pelas quedas, aumentará 100% até ao ano 2030.
No meu ponto de vista, enquanto profissional de saúde que intervém com esta população, é fundamental investir, numa primeira fase, na educação dos idosos, uma vez que frequentemente as pessoas idosas não estão conscientes dos fatores de risco, não os identificam, nem referem este problema aos seus médicos de família e profissionais de saúde com quem se relacionam. Desta forma, existem oportunidades que não estão a ser aproveitadas para prevenir este fenómeno. Neste sentido, sugiro como ferramenta de comunicação e fonte de informação para a educação do idoso, a distribuição de folhetos e cartazes nas farmácias locais, centros de saúde, centros de dia e de convívio, lares residenciais e instituições similares do concelho; bem como o planeamento de sessões de esclarecimento nos centros de saúde onde será debatida esta problemática. A implementação destas ações de prevenção eleva a consciência de segurança e saúde dos idosos, o que se repercute numa aceitação, compromisso e mudança de comportamento em prol de mais segurança e saúde.
Procurando dar resposta às necessidades da população idosa, a CERCICA (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados de Cascais) em parceria com a Câmara Municipal de Cascais desenvolveu um projeto “Lar doce Lar” (cuja missão é a prevenção de quedas), onde já é contemplado a educação para a saúde e segurança. Para o efeito, foram elaborados e distribuídos cartazes e folhetos que serão divulgados nas farmácias e centros de saúde locais, relativos a medidas de segurança que devem ser implementadas na casa das pessoas idosas. Adicionalmente, são realizadas visitas domiciliárias com o objetivo de identificar fatores de risco para quedas e fornecer as recomendações necessárias que visam tornar o domicílio num ambiente seguro.
É igualmente importante investir-se em programas que requerem alterações na habitação do idoso. A minimização dos riscos do meio envolvente, como sejam a eliminação de tapetes soltos e fios elétricos em locais de passagem, o uso de calçado adequado, a boa iluminação nos locais mais utilizados são pequenas medidas preventivas úteis na prevenção das consequências desta patologia (Sales & Cordeiro, 2012).
É sobejamente conhecido os efeitos benéficos que advêm da prática de exercício físico na saúde das pessoas mais velhas e, neste contexto, revela-se como um dos principais fatores preventivos das quedas. Exercícios específicos, como marcha rápida, treino muscular excêntrico, tábua de Freeman, fisioterapia e exercícios de baixa intensidade deverão ser implementados com o objetivo de promover a autonomia e a segurança do idoso através do desenvolvimento de estratégias de equilíbrio adequadas e eficazes, diminuindo o medo de cair e incentivando a realização das atividades da vida diária (Santos & Borges, 2010).

Conclusão
O fenómeno do envelhecimento demográfico, pelo seu caráter complexo e multifacetado, interpela governos e sociedade civil a agir coletivamente e de forma qualificada perante os desafios lançados por esta, questão que assume um lugar central como vetor de desenvolvimento.
Pelo que foi referido, as quedas constituem, hoje, um problema sério de saúde pública, cujo peso socioeconómico tem acompanhado o aumento da população idosa, tornando-se, assim, imperioso atuar na prevenção das mesmas, neste grupo populacional.

Referências Bibliográficas
Fernandes, A. A. (2008). Questões Demográficas - Demografia e Sociologia da População. Lisboa: Edições Colibri.
European Commission & Economic Policy Committee (2009). The 2009 Ageing Report: economic and budgetary projections for the EU-27 Member States (2008-2060). European Economy, 2
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EUNESE - Εuropean Network for Safety among Elderly (2003). [Consultado em 17 de Maio de 2012]. Disponível em: http://ec.europa.eu/health/ph_projects/2003/action3/action3_2003_13_en.htm
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Sales, A. L. & Cordeiro, N. (2012). Envelhecer saudável e ativo. Lisboa: Lidel.
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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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