IMPACTO DO ENVOLVIMENTO CÍVICO NO BEM-ESTAR DA SOCIEDADE: O PAPEL DA ESCOLA NA PROMOÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL NOS ADOLESCENTES

28 abril 2017
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Author :   Rita Mota
Citar ARTIGO: Mota, R., 2013. Impacto do envolvimento cívico no bem-estar da sociedade: o papel da escola na promoção da responsabilidade social nos adolescentes. Revista Segurança Comportamental, 6, 4-5 Rita Mota | Psicóloga Clínica, licenciada pela FPCE-UL, especializada em Terapia Familiar, pela APTFC.

A participação cívica tem consequências positivas nos jovens, ao nível da saúde mental, bem-estar, redução da ansiedade e stresse, diminuição de comportamentos antissociais, autoeficácia, esperança, otimismo, autoconfiança, autoestima e satisfação com as atividades diárias.

A adolescência, etapa caracterizada por inúmeras mudanças biológicas, cognitivas, psicológicas e sociais (Sprinthall & Collins, 1988/1994; Coslin, 2002/2009), pode ser encarada, no que diz respeito ao desenvolvimento humano, como o período de maior riqueza e de maior abertura para a aprendizagem, integração e apropriação de conceitos sociais (Flanagan & Bundick, 2011), conduzindo à construção mental do que é ser um cidadão ativo numa comunidade.
O envolvimento cívico, seja ele definido como a participação em ações de voluntariado, serviço comunitário ou ações de cariz político, influi positivamente no bem-estar individual (Frey, 2009; Layard, 2011). São várias as investigações que analisam esta influência, sendo que a maioria incide na idade adulta. Ainda assim, os poucos estudos existentes referem que a participação cívica tem consequências positivas nos jovens (Flanagan & Bundick, 2011), ao nível da saúde mental, bem-estar, redução da ansiedade e stresse, diminuição de comportamentos antissociais, autoeficácia, esperança, otimismo, autoconfiança, autoestima e satisfação com as atividades diárias. Estas consequências positivas incidem no indivíduo, mas também têm repercussões nas relações que o mesmo estabelece com os outros, nomeadamente com os pares e adultos significativos, através de uma maior eficácia coletiva. Quanto à participação política, em particular, esta tem uma relação positiva com sentimentos de controlo pessoal, eficácia e sentimentos de conexão com a comunidade. De referir que, num estudo realizado em Portugal (Marques, Matos & Mota, 2012), verificou-se uma correlação positiva entre o processo eleitoral e a satisfação com o país, o mesmo não acontecendo com a satisfação com a vida. De salientar que este dado pode revelar que os portugueses sentem não possuir controlo quanto à eleição dos futuros governantes, ou seja, exercem o dever cívico, mas não sentem que isso possa ter impacto nas suas vidas pessoais. Outro dado relevante refere-se ao facto de também a cidadania ativa/participação não mostrar, neste estudo, uma relação positiva com a satisfação com a vida. Esta relação surge, primordialmente, quando os cidadãos percecionam o seu estado como democrático.
Estes dados são importantes na medida em que a democracia depende do envolvimento dos cidadãos e o envolvimento, por sua vez, tem de ser sentido como resultado do controlo individual no processo governativo (Holmberg, Rothstein & Nasiritousi, 2009). Na essência, o envolvimento cívico tem na sua base o sentido de ligação aos outros, assim como o sentido de bem comum. Esta ligação e este sentido definem a linha condutora para a responsabilidade social, uma vez que, por um lado, permitem que os jovens adquiram comportamentos seguros e saudáveis e, por outro, obtenham um sentido de preocupação com os outros, conduzindo, inclusive, a uma intervenção positiva na conduta daqueles. Daí que se considere a adolescência como o período essencial para a promoção da responsabilidade social, na medida em que os jovens iniciam a busca pela autonomia, através da relação com os pares, ficando, por isso, também, mais capacitados para intervir no exterior (Ferreira & Ferreira, 2000; Liddle, 2002; McGoldrick & Carter, 2010).
Se a participação cívica influencia o bem-estar, a relação contrária também acontece (Thoits & Hewitt, 2011). Pessoas com maior bem-estar envolvem-se mais em, por exemplo, voluntariado, pelo que se cria um ciclo de desenvolvimento pessoal e social. Maior bem-estar leva a maior envolvimento, maior envolvimento leva a maior bem-estar. Os poucos estudos que existem com adolescentes e jovens confirmam estes resultados. É assim determinante que os jovens possam experienciar este tipo de atividades numa etapa precoce do seu desenvolvimento.

«(...) responsabilidade social (...) permitem que os jovens adquiram comportamentos seguros e saudáveis e, por outro, obtenham um sentido de preocupação com os outros, conduzindo, inclusive, a uma intervenção positiva na conduta daqueles.»

O envolvimento cívico vai permitir, ainda, aos adolescentes a criação de laços, cuja identificação vai reforçar um futuro envolvimento, bem como potenciar o pensamento crítico e a diminuição de atitudes de preconceito, pela exposição à diversidade (Metz & Youniss, 2003). Quando o sistema educacional promove este envolvimento está, ao mesmo tempo, a fornecer uma fonte de significado e de identidade aos jovens, possibilitando um desenvolvimento mais completo enquanto cidadãos (Flanagan & Levine, 2010).
Porque se considera a escola o contexto ideal para esta promoção? Existindo um sistema de obrigatoriedade de frequência escolar até ao 12º ano, mais facilmente se abrange um maior número de jovens com um programa que seja aplicado em contexto escolar, quer seja contemplado nas atividades extracurriculares, quer seja integrado no conteúdo das disciplinas já existentes. Desta forma, se a sensibilização/intervenção ao nível do desenvolvimento cívico for efetuada na escola, tornar-se-á mais ampla, contribuindo, por um lado, para um desenvolvimento integral dos jovens, fornecendo-lhes ferramentas que potenciam o seu bem-estar, a sua motivação nas aprendizagens e o sentimento de controlo das suas vidas e, por outro, possibilitando que uma maior diversidade de pessoas, no futuro, se interesse e se veja envolvida social e civicamente em contextos sociais formais de cidadania ativa.
É, então, necessário que se comece por realizar um estudo no sentido de avaliar se o impacto do envolvimento cívico nos jovens portugueses é semelhante ao descrito na literatura. Por se considerar que tal se viria a verificar, seria, então, benéfico que se pudessem implementar projetos de intervenção nas escolas, que permitam que os jovens se envolvam, numa primeira fase, em atividades cívicas para as quais manifestam maior interesse, fomentando a sua motivação, e à medida que o processo de desenvolvimento fosse permitindo uma maior flexibilização de pensamento, expô-los a situações sociais/cívicas mais diversificadas, como por exemplo, constituição e participação em associações juvenis, voluntariado, participação em atividades políticas, entre outras (Pearce & Larson, 2006). Se os jovens forem, a par do seu processo educativo formal, estando, ao longo do seu percurso, envolvidos em atividades deste cariz, tal pode possibilitar uma integração gradual e uma aprendizagem da forma como cada um é capaz, efetivamente, de contribuir para a comunidade em que vive, fomentando, assim, o sentimento de bem-estar, de pertença e uma maior e melhor perceção do impacto e benefícios de uma cidadania ativa no indivíduo e no grupo.

Bibliografia
Coslin, P. G. (2009). Psicologia do adolescente (R. Pacheco, trad.). Lisboa: Instituto Piaget (Obra original publicada em 2002).
Ferreira, J., & Ferreira, A. (2000). Adolescência e o grupo de pares. In M. T. Medeiros (Ed.), Adolescência: abordagens, investigações e contextos de desenvolvimento. Lisboa: Direção Regional da Educação.
Flanagan, C., & Bundick, M. (2011). Civic engagement and psychosocial well-being in college students. Liberal Education: Association of American Colleges & Universities, 20-27.
Flanagan, C., & Levine, P. (2010). Civic engagement and the transition to adulthood. The future of children, 20(1), 159-180.
Frey, B. S. (2009). Felicidade: uma revolução na economia. Lisboa: Gradiva Publicações.
Holmberg, S., Rothstein, B., & Nasiritousi, N. (2009). Quality of government: what you get. The Annual Review of Political Science (12), 135-161.
Layard, R. (2011). Happiness: lessons from a new science. London: Penguin Books.
Liddle, H. (2002). Attachment and family therapy: clinical utility of adolescent-family attachment research. Family Process, 41, 455-476.
Marques, A., Matos, C., & Mota, R. (2012). Democracia e satisfação com a vida em Portugal (investigação realizada no âmbito do Módulo de Economia da Felicidade do Executive Master em Psicologia Positiva Aplicada, por publicar). Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa.
McGoldrick, M.; Carter, B. (2010). The Expanded Family Life Cycle: Individual, Family, and Social Perspectives (4th Edition). London: Pearson.
Metz, E., & Youniss, J. (2003). A demonstration that school-based required service does not deter, but heightens, volunteerism. Political Science & Politics, 36(2), 281-286.
Pearce, N., & Larson, R. (2006). The process of motivational change in a civic activism organization. Applied Developmental Science, 10(3), 121-131.
Sprinthall, N., & Collins, W. (1994). Psicologia do adolescente: uma abordagem desenvolvimentista (C. M. Vieira, trad.). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (Obra original publicada em 1988).
Thoits, P. A., & Hewitt, L. N. (2001). Volunteer work and well-being. Journal of Health and Social Behaviour, 42, 115-131.

 

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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