O RISCO DE SER FISIOTERAPEUTA

28 abril 2017
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Author :   Margarida Roque
Citar ARTIGO: Roque, M. 2013. O risco de ser fisioterapeuta. Revista Segurança Comportamental, 6, 16-18 Citar ARTIGO: Roque, M. 2013. O risco de ser fisioterapeuta. Revista Segurança Comportamental, 6, 16-18

A educação dos fisioterapeutas deve passar por uma aprendizagem da identificação dos comportamentos de risco. Só assim os profissionais poderão ter capacidade cognitiva para decidir sobre a medida preventiva a desencadear a nível comportamental.

Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados com o Trabalho (DORT) podem ser definidos como lesões que resultam de um evento relacionado com a atividade profissional. Isto pode levar à perda de horas ou dias de trabalho, restrições no trabalho, ou transferência para outra função. Este tipo de lesões é comum entre os fisioterapeutas, sendo este um grupo que apresenta uma prevalência muito elevada de dor lombar ocupacional. (Salik & Özcan, 2004)
Alguns profissionais mostram uma prevalência preocupante de DORT, o que tem conduzido a pesquisas mais intensivas sobre o assunto nos últimos anos. Este tipo de lesões tem consequências importantes sobre a sociedade, os trabalhadores, os empregadores e sobre o setor de seguros, devido à perda de força de trabalho, incapacidade a longo termo, atraso no regresso às funções, diminuição da produtividade e efeitos psicológicos nos trabalhadores. Minimizar e prevenir os DORT tornou-se uma prioridade social e económica.

A dimensão do problema
A prevalência de DORT entre os fisioterapeutas é de 68% no Reino Unido, entre 55% e 91% na Austrália e de 85% na Turquia. A dor lombar é o DORT mais comum entre os fisioterapeutas sendo a prevalência anual de dor lombar de 68% no Reino Unido, entre 45% e 62% nos Estados Unidos da América, 49% no Canadá e de 70% no Kuwait. (Adegoke et al, 2008) Não foram encontrados dados epidemiológicos relativos a Portugal, na pesquisa realizada para este artigo.
Os fisioterapeutas jovens apresentam em geral uma prevalência mais elevada de problemas músculo-esqueléticos relacionados com as condições ocupacionais. Este facto pode ser explicado pela falta de experiência profissional, de conhecimentos e capacidades, que as pessoas tendem a ter nos primeiros anos de carreira (Salik & Özcan, 2004).
A região lombar é a parte do corpo mais afetada pelas lesões ocupacionais, sendo que o punho e a mão, o ombro e a região cervical são outras zonas frequentemente afetadas. As principais lesões reportadas são: tendinites, distúrbios a nível dos discos vertebrais, tensão muscular, entorses ligamentares, degenerações, sinovites, ruturas musculares, luxações, fraturas, entre outros. Os gestos profissionais que mais frequentemente levaram aos DORT são as transferências de pacientes, a realização de tarefas repetitivas e a elevação de cargas (Salik & Özcan, 2004). Os fisioterapeutas experienciam os DORT de uma severidade, tal que um em cada seis altera a sua carreira como consequência (Cromie et al, 2001).

Porque são os fisioterapeutas tão afetados?
Estudos biomecânicos têm demonstrado que os fatores relacionados com a carga física da profissão, tais como os movimentos de rotação, flexão e a elevação de pesos, desempenham um papel importante neste processo (Salik & Özcan, 2004).
As lesões músculo-esqueléticas são frequentemente associadas à manipulação, definida como qualquer atividade que exija o uso da força exercida por uma pessoa para levantar, empurrar, puxar, carregar, mover, segurar ou conter, um objeto animado ou inanimado (Cromie et al, 2001). Tendo em conta que o dia-a-dia de um fisioterapeuta é dominado por tais atividades, pode facilmente concluir-se o porquê dos números encontrados quando se estuda a prevalência de lesões neste grupo de profissionais.
Os fisioterapeutas afetados pelos DORT referem que elevar cargas, manter uma posição por um período prolongado de tempo, executar tarefas repetitivas e transferir pacientes são as atividades que mais frequentemente exacerbam os seus sintomas durante a prática clínica. Alterações na mecânica corporal, evitar cargas e mudar frequentemente a posição de trabalho são as três principais mudanças de hábitos ocupacionais referidas pelos fisioterapeutas lesados (Salik & Özcan, 2004).
Para além dos riscos relacionados com a biomecânica dos gestos profissionais podem ainda ressaltar-se os riscos inerentes à hidroterapia, à utilização de eletroterapia e ao contacto direto com a pele dos pacientes.
A hidroterapia expõe a pele à água e aos seus constituintes químicos e contaminantes. Isto pode produzir irritações que conduzem a dermatites ou a infeções fúngicas no entanto, não se sabe ao certo o número de fisioterapeutas afetados por este problema.
Quanto aos agentes electrofísicos, sabe-se que as ondas curtas e a diatermia por micro-ondas trazem riscos para os seus utilizadores, no entanto, estes riscos ainda não são completamente conhecidos, assim como os fisioterapeutas afetados por eles.
Os fisioterapeutas são também os profissionais que mais utilizam o toque para avaliar e tratar os seus utentes. O contacto direto com a pele pode também ser uma forma de transmissão de doenças de pele ou de patologias que se transmitam por fluidos corporais como o suor ou a saliva.
Por fim, os fisioterapeutas correm os riscos comuns a todos os outros profissionais de saúde, principalmente se trabalharem em meio hospitalar. Todos estes profissionais estão expostos a agentes patogénicos por vezes ainda por diagnosticar aos pacientes, o que leva a que nem sempre os profissionais tomem as medidas de precaução necessárias.

Como lidam os profissionais com o problema?
Existem dados que mostram que os fisioterapeutas nos Estados Unidos da América continuam a trabalham apesar da dor. Estes dados não podem ser extrapolados para a nossa população, no entanto, verifica-se uma lógica para que tal aconteça. Visto que os fisioterapeutas são capazes de reconhecer os sintomas, utilizar agentes físicos, executar exercícios terapêuticos e autotratamento, deixam “arrastar” a situação recorrendo a estes métodos que não são eficazes.
Cerca de 69% dos fisioterapeutas turcos procuram um médico e apenas 46% destes mesmos reportaram oficialmente a lesão ao seu empregador. Também os fisioterapeutas turcos recorrem aos seus conhecimentos profissionais, utilizando o autotratamento, repouso, medicação, e exercícios para resolver o problema (Salik & Özcan, 2004).
Os fisioterapeutas que continuam a trabalhar apesar da dor acabam por alterar a sua atividade profissional, evitando certas técnicas e pedindo ajuda a colegas principalmente quando tratam doentes pesados ou não cooperantes. Apesar disso, os profissionais são pressionados a manter a sua produtividade e a dor continua a aumentar. A dor afeta também a vida fora do trabalho e o profissional sente-se incapaz de controlar a sua saúde. Caso o fisioterapeuta deixe de conseguir providenciar cuidados de saúde efetivos, vai repensar os planos para a sua carreira e possivelmente abandonar a profissão.

“Sendo o trabalho intrinsecamente de risco e existindo algumas condições inseguras difíceis de controlar, a única aposta como forma de prevenção será no fator humano.”

Como prevenir?
Os primeiros responsáveis pela saúde dos profissionais são as organizações para quem estes profissionais prestam serviço, que lhes devem proporcionar condições seguras para que os trabalhadores possam comportar-se de forma segura. A estas medidas tomadas pelas organizações chamamos de medidas preventivas organizacionais que levam a que os trabalhadores possam desenvolver a sua atividade com os riscos inerentes a esta, diminuídos.
No Australian Journal of Physiotherapy foram publicadas em 2001 guidelines que pretendem orientar as organizações e os fisioterapeutas no sentido de providenciar a melhoria da sua saúde ocupacional. Os seguintes conselhos serão baseados nessas mesmas guidelines:
- As condições ambientais adequadas são mandatórias quando se trata do local de trabalho de fisioterapeutas. Assim sendo, o local deve ser tornado ergonómico tendo em conta regras de espaço, o tipo de equipamento e mobiliário existente. Os fisioterapeutas devem ter espaço para circular livremente e adquirir as posturas que exijam menor esforço durante a realização de determinada técnica, os equipamentos devem poder ser manuseados facilmente e regulados segundo as características físicas dos profissionais, entre outras estratégias.
- O trabalho do fisioterapeuta deve ser programado de forma a exigir um grau de exigência física variado durante as atividades. Isto pode ser conseguido através de:
• Definir diferentes atividades a realizar durante o dia e a semana de trabalho, e incluir uma variedade de técnicas e opções de tratamento durante as sessões terapêuticas;
• Definir pausas regulares e adequadas para descanso;
• Trabalhar com um leque de pacientes com variadas condições;
Existem no entanto fatores difíceis de controlar pelas entidades organizacionais que devem ser identificados e contornados da melhor forma possível pelos profissionais, evitando comportamentos de risco. Assim surgem as medidas preventivas comportamentais:
- Os profissionais devem participar no desenvolvimento de políticas na área da saúde para garantir cargas de trabalho razoáveis e ambientes de trabalho adequados.
- As ajudas mecânicas e os equipamentos, como superfícies de trabalho ajustáveis, bancos ergonómicos, cintos de elevação, talas, entre outros, devem ser utilizados sempre que seja apropriado. Os fisioterapeutas devem estar treinados para a sua utilização, correndo o risco de ineficácia na redução da prevalência de lesões, caso não as utilizem corretamente.
- Os fisioterapeutas devem ser treinados e educados no que respeita à prevenção de lesões, não só enquanto estudantes mas também enquanto profissionais. Esta educação deve passar por uma aprendizagem da identificação dos comportamentos de risco, como posturas erradas, esforços desadequados, movimentos perigosos, entre outros, e da valorização das consequências, ou seja, dos riscos que deles advêm. Só assim os profissionais poderão ter capacidade cognitiva para decidir sobre a medida preventiva a desencadear a nível comportamental para eliminar ou reduzir esse risco.
Tendo em conta a prevalência de lesões neste grupo, é claro que a formação que têm sobre lesões, as suas causas e mecanismos não os protege de serem afetados. Sendo o trabalho intrinsecamente de risco e existindo algumas condições inseguras difíceis de controlar, a única aposta como forma de prevenção será no fator humano. É importante reforçar a informação, formação e consulta dos trabalhadores para que estes saibam reconhecer situações de perigo e implementar medidas práticas.
Por outro lado, quando as exigências físicas do trabalho superam as capacidades dos trabalhadores, estes sofrem significativamente maior número de lesões, daí que devam ser educados no sentido de reconhecer esse aspeto e saberem autoavaliar-se para o papel a desempenhar. Desta forma, poderão concretizar a tarefa a dois, podendo igualar ou superar a capacidade física dos trabalhadores às exigências físicas do trabalho.
Uma forma de contornar a possível discrepância entre a capacidade física e as exigências físicas da profissão é o aumento da tolerância ao trabalho e da capacidade de manuseamento, através do exercício. Uma vez que existem profissionais com maior risco de lesão devido às suas menores capacidades físicas faz sentido que aumentando essas capacidades o risco diminua. Enquanto não existir igualdade entre a capacidade física e a exigência física da atividade o ideal seria que a sua realização fosse a dois ou através de uma ajuda mecânica.
Embora não existam conclusões científicas definitivas, tem sido demonstrado que um treino de força e flexibilidade diminui a duração da dor lombar e os dias de trabalho perdidos.
O exercício pode oferecer aos fisioterapeutas uma forma de reduzir a prevalência e a severidade dos DORT, embora ainda não seja formalmente reconhecido pelas associações profissionais e pelos educadores. O realce da importância do condicionamento físico durante a formação superior, e um compromisso contínuo para a manutenção desse condicionamento, podem ser estratégias fundamentais para reduzir as lesões a longo prazo.
Exercícios de alongamento e mobilidade durante as pausas, aquecimento, descanso e alterações de postura são também formas de exercício que entram nas medidas que devem ser implementadas pela instituição responsável pelos trabalhadores.
Os fisioterapeutas não são selecionados para determinado trabalho através de nenhum critério relacionado com as capacidades físicas, e a recusa de emprego baseada nas capacidades físicas (ou qualquer outro atributo) é ilegal, a menos que esse atributo seja determinado um requisito necessário ao trabalho. Determinar os requisitos para um trabalho físico é algo complexo e difícil de implementar no entanto, seria benéfico documentar as exigências das diferentes áreas da fisioterapia para que os fisioterapeutas pudessem fazer escolhas informadas, de acordo com as suas capacidades.

Bibliografia
Cromie, J., Robertson, V., Best, M. (2001). Occupational health and safety in physiotherapy: Guidelines for practice. Australian Journal of Physiotherapy, 47, 43-51
Salik, Y., Özcan, A. (2004). Work-related musculoskeletal disorders : A survey of physical therapists in Izmir-Turkey. BMC Musculoskeletal Disorders, 5,27
Campo, M., Darragh, A. (2010). Impact of Work-Related Pain on Physical Therapists and Occupational Therapists. Physical Therapy, 90, 905-920
Adegoke, B., Akodu, A., Oyeyemi, A. (2008). Work-related musculoskeletal disorders among Nigerian Physiotherapists. BMC Musculoskeletal Disorders, 9,112

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