AVALIAÇÃO DO CONHECIMENTO, ATITUDE E BOAS PRÁTICAS RELACIONADAS COM AS PRECAUÇÕES PADRÃO DOS MÉDICOS E CIRURGIÕES NUMA UNIDADE DE SAÚDE

28 abril 2017
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Author :   Filipe Marques. Cristina Santos. Ana Ferreira. João Paulo Figueiredo
Citar ARTIGO: Marques, F. et al. 2013. Avaliação do conhecimento, atitude e boas práticas relacionadas com as precauções padrão dos médicos e cirurgiões numa unidade de saúde. Revista Segurança Comportamental, 6, 20-22 Filipe Marques | Licenciado em Saúde Ambiental; Cristina Santos | Doutoranda em Ciências da Saúde-FMUC; Ana Ferreira | Doutoranda em Ciências da Saúde-FMUC; Paulo Figueiredo | Doutorando em Ciências da Saúde-FMUC

A preocupação com a prevenção na Infeção Associada aos Cuidados de Saúde (IACS) tem vindo a aumentar ao longo dos tempos. O nível de conhecimento e a atitude dos profissionais (médicos e cirurgiões) face às precauções padrão, apesar de não serem negativos, ainda têm vários aspetos a melhorar.

Introdução
A Infeção Associada aos Cuidados de Saúde (IACS) é uma infeção adquirida pelos doentes em consequência dos cuidados e procedimentos de saúde prestados e que pode, também afetar os profissionais de saúde durante o exercício da sua atividade.
A IACS assume cada vez maior importância em Portugal e no mundo. À medida que a esperança de vida aumenta e que dispomos de tecnologias cada vez mais avançadas e invasivas, e de maior número de doentes em terapêutica imunossupressora, aumenta também o risco de infeção. Estudos internacionais referidos no programa nacional de prevenção e controlo da infeção associada aos cuidados de saúde revelam que cerca de um terço das infeções adquiridas no decurso da prestação de cuidados são seguramente evitáveis (Ministério da Saúde, 2007). A adesão à prática da higiene das mãos continua a ser subvalorizada, raramente excedendo os 50%. Em Portugal, a taxa global de adesão à higiene das mãos, observada na fase de avaliação diagnóstica da campanha nacional de higiene das mãos (2009), foi de 46,2% (DGS, 2010).
Em termos epidemiológicos, como é referido na Circular Normativa Nº13/DQS/DSD da Direção Geral de Saúde, é consensual que a transmissão de microrganismos através das mãos entre profissionais e os doentes seja uma realidade incontornável, dando origem a infeções, consideradas consequências indesejáveis da prestação de cuidados (DGS, 2010).
Para uma prática clínica segura, todo o profissional de saúde deve ter constantemente presente o risco de exposição a agentes infeciosos. Assim, deverá aderir às Precauções Padrão (PP), medidas implementadas em 1987 pelo CDC (Centers for Disease Control), posteriormente atualizadas, que visam a prevenção do contacto com estes agentes infeciosos, através do uso sistemático de barreiras apropriadas e técnicas que reduzam a probabilidade de exposição, bem como de infeções cruzadas (Aires et al, 2008; CDC, 1988). Estas medidas pretendem evitar o contacto do profissional com sangue e outros fluídos potencialmente infestantes. O conceito das PP baseia-se, essencialmente, em duas premissas: 1) todos, doentes ou profissionais, podem estar infetados por algum agente; 2) é o ato técnico em si, e não o diagnóstico do doente, que deve determinar quais as precauções a utilizar. As PP preconizam a lavagem das mãos, o uso de barreiras protetoras (luvas, batas, aventais, máscaras e óculos ou viseiras) e a manipulação cuidadosa de instrumentos cortantes ou perfurantes (Aires et al, 2008; Ministério da Saúde, s/d).
Este estudo pretende avaliar o conhecimento, as atitudes e as boas práticas dos médicos e cirurgiões face às precauções padrão numa unidade de saúde.

Material e métodos
O estudo aplicado foi de nível II, do tipo inquérito e de natureza transversal, numa unidade de saúde localizada na cidade de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra. O estudo desenvolvido teve como população-alvo todos os médicos (profissionais que apenas fazem diagnóstico clínico, não intervindo no bloco operatório) e cirurgiões (profissionais de saúde que fazem intervenções cirúrgicas no bloco operatório), da equipe médica da unidade de saúde, perfazendo um total de trinta profissionais, sendo concebida a amostragem de uma forma não probabilística quanto ao tipo, e por conveniência quanto à técnica.
O questionário aplicado resultou da tradução de um inquérito elaborado por um grupo de profissionais de saúde Iraniano e revisto por peritos do Iranian National Expert Group of Infection Control Specialists (Askarian et al., 2006). As questões foram elaboradas com base nas orientações respeitantes às Precauções de Isolamento Padrão descritas pelo CDC e traduzidas para aplicação no presente estudo. Os itens do questionário centraram-se inicialmente na descrição demográfica dos participantes, na formação anterior e na vontade de obter formação. A segunda parte do questionário era composta por nove questões relacionadas com as precauções padrão relativas à, higienização das mãos, equipamento de proteção pessoal, uso de soluções antissépticas e método de disposição de seringas.
As respostas para as questões de conhecimento eram “sim”, “não” e “não sei”. As questões usadas para avaliar a atitude dos participantes foram organizadas no formato de escala do tipo Likert, com as possibilidades de respostas a incluírem, “muito importante”, “importante”, “considerável”, “pouco importante” ou “nada importante”. Quanto às boas práticas foi também utilizada uma escala do tipo Likert com cinco opções de resposta, “sempre”, “muitas vezes”, “algumas vezes”, “poucas vezes”, “nunca”. Às respostas de conhecimento consideradas corretas foi atribuído o valor de 1, e quando a resposta a questões de boas práticas era “sempre”, era também atribuído o valor de 1, a todas as outras opções de respostas era atribuído o valor de zero. O valor total para o conhecimento e boas práticas inseria-se num intervalo de zero a nove. Para questões de atitude, um valor de 5 era atribuído à resposta “muito importante”, decrescendo este valor até 1 para a resposta “nunca”, desta forma o resultado total para a atitude possuía um intervalo entre 9 e 45 (quadro n.º 1).
O tratamento de dados foi realizado com recurso ao software estatístico SPSS versão 19.0, para Windows. Para a análise da amostra foram utilizadas estatísticas descritivas como, frequências e percentagens, medidas de localização (mediana) e dispersão (desvio-padrão). Na verificação das hipóteses de investigação utilizaram-
-se os testes ANOVA a 1 fator fixo; t de Student para Amostras Independentes; Mann-Whitney; Qui-Quadrado da Independência. Na verificação da correlação foi utilizado o coeficiente de correlação linear de Pearson.

Discussão
A adesão dos profissionais de saúde às precauções de contacto tem sido um problema universal e amplamente discutido na literatura.
Este estudo revelou que 50% dos profissionais nunca tiveram formação anterior em PP, sendo que apenas 42% demonstraram vontade de obter formação. Estes resultados demonstram a necessidade não só de ações de formação, mas também de programas educacionais e motivacionais que despertem os profissionais para a necessidade e a importância de conhecer e adotar PP. A formação é uma componente essencial e que não pode ser ignorada, devendo envolver todos os novos profissionais e ser desenvolvida com frequência.
Apesar de no geral, os profissionais terem apresentado níveis de conhecimento satisfatórios e demonstrado uma atitude positiva face à adoção de PP, a sua adesão a estas medidas foi aquela que obteve níveis mais baixos. Não foram observadas quaisquer diferenças significativas entre as duas categorias profissionais. Existem algumas barreiras que podem dificultar a adesão dos profissionais às PP, e que poderão ajudar a explicar o facto de este ter sido o fator que obteve piores resultados, como por exemplo condições de trabalho stressantes e a crença que as PP podem interferir com os cuidados ao paciente, também constado num estudo realizado acerca das PP num Hospital Universitário Iraniano (Askarian et al., 2006). Tendo em conta os resultados obtidos, respeitantes aos três fatores analisados, constatou-se uma relação (moderada a forte) significativa, entre o conhecimento e a atitude dos profissionais, demonstrando que a atitude dos médicos e cirurgiões é influenciada pelo conhecimento que estes possuem acerca das PP, sendo esta relação mais forte para os cirurgiões, que, ao obterem os níveis mais altos de conhecimento e atitude, demonstraram que um conhecimento correto de PP faz com que seja dada mais importância a esses procedimentos. Na relação entre conhecimento e boas práticas não foram encontradas diferenças significativas para ambas as categorias profissionais, não sendo verificável uma relação entre estes dois fatores. No caso da atitude dos profissionais, foi observada uma relação significativa com as boas práticas, para os médicos.
Analisando os resultados do conhecimento, ficou demonstrado que apenas 41.7% dos médicos e 57.1% dos cirurgiões, que as agulhas devem ser colocadas diretamente no contentor para objetos cortantes e perfurantes. Este ponto é de extrema importância pois, evita o recapsulamento de agulhas, como se pode constatar num estudo realizado em 2008 num Hospital Central e Universitário Português, relacionando este ato com ocorrência de acidentes ocupacionais, podendo ocorrer picadas acidentais e potencial infeção hospitalar (Aires et al., 2008). De forma idêntica, apenas 50% médicos e 42.9% dos cirurgiões, acreditou corretamente que betadine não era usado como solução antisséptica na higienização das mãos, podendo significar um desconhecimento dos profissionais em relação aos antissépticos indicados para uma correta higienização das mãos. Nesta questão apenas 25% dos médicos e 38.5% dos cirurgiões apresentaram práticas corretas face a este procedimento. Outro item que apresentou más práticas foi a lavagem de mãos antes e depois de cuidar ou ter contacto com o paciente, demonstrando mais uma vez o não cumprimento de precauções essências a ter no contacto com o doente. A higienização das mãos, tal como a DGS refere na Circular Normativa respeitante a essa prática, constitui um ponto nevrálgico na prevenção e controlo de infeção sendo considerada a medida mais relevante ao nível das precauções de higiene, já que o seu incumprimento é considerado o principal meio de transmissão de microrganismos (DGS, 2010).
Apenas três de nove questões foram respondidas com “muito importante” por mais de 75% dos profissionais. Ficou assim demonstrado, que estes três itens a indicar boa atitude em relação a atividades que requerem precauções padrão, não necessitam de muito esforço ou persuasão para serem levadas a cabo pelos profissionais.

 

Conclusão
A IACS não é um problema recente, mas a sua importância e impacto na prevenção de doenças tem vindo a aumentar, sendo um tema amplamente discutido na comunidade científica. Os resultados obtidos neste estudo demonstraram que o nível de conhecimento e a atitude dos profissionais face às PP, apesar de não serem negativos, ainda têm vários aspetos a melhorar, bem como as práticas dos profissionais, onde foram obtidos os resultados mais baixos, demonstrando que é na adesão dos profissionais às PP que se encontram as maiores dificuldades. A aposta na formação e informação dos profissionais, é importante não só para melhorar os índices obtidos, mas também para corrigir uma lacuna existente ao nível da formação anterior, apostando também em programas de motivação que combatam a pouca importância dada a estas formações, constatada com o elevado número de profissionais que não demonstra vontade de obter formação.
Sendo os profissionais de saúde elementos chave no controlo de IACS, é de extrema importância a adoção de programas de sucesso e abordagens inovadores, que alertem e motivem os profissionais para a importância e necessidade de seguir as PP devendo desenvolvida através de medidas como, o uso de barreiras protetoras/equipamento de proteção pessoal (luvas, máscaras, batas, óculos, viseiras), devendo este, estar sempre disponível; manipulação cuidadosa de instrumentos cortantes ou perfurantes e a correta lavagem das mãos. Estas medidas devem ser participadas pelos profissionais, através da colocação de informação em forma de poster ou outro, junto aos locais de trabalho; organização de seminários/workshops para as equipes médicas, focando a importância da prática de PP coerentes, para a defesa pessoal dos profissionais em tempos de doenças emergentes; a realização de auditorias internas, com auditores designados pela CCIH, com o objetivo de identificar práticas menos adequadas e a aplicação de medidas corretivas, no momento em que estão a ser prestados cuidados de saúde.
Este estudo encontrou-se limitado pela sua dependência com o autorrelato, e não por observação do cumprimento das PP pelos profissionais. É importante no futuro fazer uma análise às condições estruturais, integrando a sua avaliação, com os resultados obtidos na componente humana, ficando a sugestão para um futuro estudo. Estudo este, que permita também validar o questionário traduzido para esta investigação, de forma a confirmar a sua validade e adequabilidade à realidade portuguesa.

Bibliografia
Aires S., Carvalho A., Aires E., et al. (2008). Avaliação dos Conhecimentos e Atitudes sobre Precauções Padrão – Controlo de Infeção dos Profissionais de Saúde de um Hospital Central e Universitário Português.
Askarian M., McLaws M. L., Meylan M. (2006). Knowledge, attitude, and practices related to standard precautions of surgeons and physicians. Community Medicine Department, Shiraz Medical School, Shiraz Nephro-Urology Research Center, Shiraz, Islamic Republic of Iran.
Askarian M., Shiraly R., Aramesh K., McLaws M. L. (2006). Knowledge, Attitude, and Practices Regarding Contact Precautions Among Iranian Physicians. Department of Community Medicine, Shiraz University of Medical Sciences, Shiraz, Islamic Republic of Iran.
CDC (1988). Perspectives in disease prevention and health promotion update: universal precautions for prevention of transmission of Human Immunodeficiency Vírus, Hepatitis B Vírus and other bloodborne pathogens. In health-care settings. MMWR, Disponível em: URL: http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00000039.htm
DGS - Direcção-Geral da Saúde (14 de Agosto de 2010). Orientação de Boa Prática para a Higiene das Mãos nas Unidades de Saúde. Circular Normativa Nº13/DQS/DSD. Portugal.
Ministério da Saúde (Março de 2007). Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Infeção Associada aos Cuidados de Saúde. Portugal.
Ministério da Saúde (s/d). Manual de condutas em exposição ocupacional a material biológico. Coordenação Nacional de DST e AIDS. Disponível em: URL: http://www.bvsde.paho.org/bvsamat/condutas.pdf
Oliveira A. C., Cardoso C.S., Mascarenhas D. (2009). Conhecimento e Comportamento dos Profissionais de um Centro de Terapia Intensiva em Relação à Adoção das Precauções de Contato.

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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