O ENVOLVIMENTO DOS TRABALHADORES NA SEGURANÇA DO TRABALHO - INDÚSTRIA EÓLICA

28 abril 2017
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Author :   José Gavancha
Citar ARTIGO: Gavancha, J. 2013. O envolvimento dos trabalhadores na segurança do trabalho - Indústria eólica. Revista Segurança Comportamental, 6, 28-30 José Gavancha | EDP Produção. Pós-graduado em Segurança Higiene e Saúde no Trabalho pelo ISCSS. Pós-graduado em Psicologia Social e das Organizações pelo ISCTE.

Nem o baixo nível de literacia dos trabalhadores deve servir de álibi para o seu não envolvimento. Na interação com as pessoas recolhe-se informação preciosa, que permite fundamentar a eficácia e eficiência das análises de risco produzidas.

Introdução
A grande “oportunidade perdida”, na gestão das matérias de SST, tem normalmente que ver com a focalização no objetivo, em detrimento do processo. Geralmente resulta subvalorizado o mais importante: o envolvimento das pessoas, que deve ser promovido em todos os momentos de implementação de um sistema de gestão de segurança. Por outras palavras durante o processo deve ser considerada a colaboração ativa de todos.
O presente artigo pretende divulgar como se pode promover a participação ativa, através da utilização da ferramenta análise de risco, mesmo que esta seja muito elementar.

Objetivo
Com a entrada em exploração de parques eólicos, foi necessário constituir equipas que fossem assegurando a manutenção preventiva e corretiva dos equipamentos em funcionamento, além do seu acompanhamento em exploração. Uma empresa dona de ativos desta natureza procedeu junto do universo do grupo empresarial de que faz parte, à contratação dos serviços de manutenção. Aquilo que começou por ser uma equipa de 3 ou 4 pessoas transformou-se rapidamente num grupo de trabalho de 36 pessoas, com diferenciados níveis de saber e de capacidade operacional. O responsável dessa unidade de negócio desde o início que considerou como uma das suas prioridades dotar essa estrutura com instrumentos que ao nível da segurança no trabalho, respondesse à natureza da atividade desenvolvida. Para o efeito, solicitou, junto da estrutura interna da «empresa mãe», o apoio de um técnico que interviesse durante o segundo semestre de 2007.

Caracterização da estrutura a dinamizar
A base da organização era constituída por equipas de 2 elementos, com grande autonomia, que procediam a intervenções de desempanagem em primeiro grau, à monitorização das condições de exploração e atividades de manutenção corrente.
Para atividades mais complexas, como por exemplo a montagem ou desmontagem, de equipamentos com o recurso a gruas recorria-se ao trabalho de 2 ou 3 equipas em simultâneo. A faixa etária dos intervenientes situava-se entre os 20 e os 30 anos, sendo que a maioria das pessoas tinham como habilitações cursos técnico profissionais ao nível do 12.º ano.
O gestor da unidade de negócio contava com o apoio de dois encarregados de zona e dois engenheiros que asseguravam a preparação técnica dos trabalhos. Na fase final deste trabalho, a equipa tinha sob a sua responsabilidade, o acompanhamento de cerca de 200 aerogeradores.

O instrumento de intervenção
Replicou-se nesta unidade de negócio, uma estratégia já utilizada noutros locais para promover a participação ativa das pessoas, mobilizando-as e dando cumprimento ao que a legislação dispõe no que concerne à participação dos trabalhadores no âmbito da segurança no trabalho.
O ponto de partida utilizado foi a adaptação de um “procedimento local de avaliação de controlo de risco”, que na sua essência replicava, o procedimento já implementado noutras unidades de negócio de maiores dimensões e algumas delas certificadas pela OHSAS 18001.
O referido procedimento, alem de normalizar a forma de identificar atividades, tarefas e os perigos inerentes, orienta a respetiva avaliação de risco, prevendo desde logo a construção pelas unidades de negócio de um portfólio de atividades tipo, contendo os perigos e os graus de risco associados.
O método utilizado foi aplicar um inquérito, individualmente a todos os trabalhadores da unidade de negócio, sendo depois sintetizadas as suas repostas em “fichas resumo”, surgindo assim as atividades mais comuns da unidade de negócio. Os inquéritos são iguais aos aplicados noutras instalações e foram elaborados a partir da matriz que faz parte da portaria n.º 988/1993 de 6 de outubro.
O técnico de segurança, responsável pelo processo de análise de risco, utilizou estas “fichas resumo” como ponto de partida, complementada pela observação e acompanhamento dos trabalhos, para as avaliações de risco a elaborar.
É a partir destas análises de risco, que são criadas as “cartas de risco de atividade”. Exemplos: “consignação de equipamentos elétricos”, “condução automóvel”, “intervenção em espaços confinados”, “lubrificação de equipamentos”, etc.
Para cada grupo profissional, extrapolando o célebre princípio de Pareto (20% das atividades, ocupam 80% do tempo de trabalho), são selecionadas algumas “cartas de risco de atividade” mais comuns, sendo que a sua síntese constitui a “carta de risco profissional”, atribuída pessoalmente e em nome individual a cada um dos trabalhadores.
O procedimento em questão prevê mecanismos que permitem a qualquer utilizador das cartas de risco, propor modificações. O técnico de segurança analisa o pedido e decide sobre as possíveis modificações propostas.

“(...) usando de bom senso, abertura de espírito, disponibilidade para ouvir, promover a participação de todos e existência de preocupação visível e genuína dos responsáveis, é possível lançar as bases de uma cultura de segurança, sólida e robusta.”

Processo
Depois de explicado a cada um dos trabalhadores quais os objetivos deste processo, foi-lhes fornecido um dossier contendo os questionários para preenchimento. Estes foram preenchidos com base na experiência pessoal de cada um tendo em conta as suas sensibilidades. O objetivo foi listar e caracterizar o maior número possível de atividades.
Apesar dos inquéritos serem de resposta individual, foi encorajada a troca de opiniões e o apoio mútuo no preenchimento do dossier, tendo sido dado em média um prazo de 2 semanas para a sua devolução.
Dos 30 questionários distribuídos, obtiveram-se respostas de 26 indivíduos, sendo que cada um deles identificou em média, entre 4 a 6 atividades, havendo mesmo alguns que indicaram 10 a 12 atividades. No total, foram indicadas 131 atividades, embora depois de analisadas, muitas destas como é natural, surgissem repetidas.
O trabalho de síntese das informações recolhidas teve em consideração a contextualização referida na literatura consultada, nomeadamente a diferenciação que caracteriza o trabalho em altura, como os conceitos “top” e “down” (BWEA, 2006; Left et al, 2002). Outra variável de contexto teve que ver com o perigo elétrico e a “convivência” com os riscos associados com a alta e/ou média tensão.
De realçar que os “drafts” das cartas de risco, eram discutidos com os trabalhadores, sendo acolhidas as melhorias, depois de analisadas e consolidadas. O responsável da unidade de negócio acompanhou e validou todo o processo.
As análises de risco efetuadas, originaram 21 cartas de risco de atividade e a elaboração de um plano de controlo de risco.
Para os 4 grupos profissionais identificados, (técnicos, encarregados, quadros superiores e logística), foram emitidas 36 cartas de risco profissional, mais 6 do que os inquéritos inicialmente emitidos, para englobar os trabalhadores entretanto admitidos.
Algumas das cartas de risco de atividade não foram incluídas em nenhuma das cartas de risco profissional, mas ficaram disponíveis para ser emitidas em anexo a ordens de trabalho que envolvessem esse tipo de atividade. Por exemplo “Operação de equipamento de elevação e transporte”.
O plano de controlo de risco foi consequência das 3 fases de análise de risco (identificação, avaliação e controlo). Identificou algumas necessidades imediatas, com particular ênfase nas componentes “procedimentos” e “formação”. Foi proposta a implementação um programa de formação e treino, nomeadamente nas áreas de “trabalhos em altura” e “resgate e evacuação em altura”, dando continuidade a ações de formação já iniciadas. Foi também apontada a necessidade de especial atenção, para as questões de saúde ocupacional, como por exemplo o elevado risco de lesões músculo-esqueléticas, devido a sobre esforço nos joelhos.

Discussão
Este artigo, pretende divulgar uma possível forma de promover e mobilizar todos os trabalhadores, desde que a hierarquia assuma claramente o seu compromisso com o processo de intervenção.
Em situações similares, uma tentação que há a evitar a todo o custo, será a de substituir a análise de risco que deve anteceder qualquer intervenção, pelas aqui designadas “cartas de risco”. Jamais se deve considerar estas cartas de risco, como uma espécie de análises de risco “prefabricadas”, principalmente porque a análise de risco é por natureza dinâmica e varia em função de variáveis de contexto, que em cada situação incrementam ou não o grau de risco presente.

Conclusão
Nem o argumento muitas vezes ouvido, do baixo nível de literacia dos trabalhadores deve servir de álibi para o não envolvimento de todos. Até porque, na interação com as pessoas se recolhe informação preciosa, que permite fundamentar, as análises de risco produzidas. Mesmo sem recorrer a conhecimentos muitos aprofundados na área comportamental, usando de bom senso, abertura de espírito, disponibilidade para ouvir, promover a participação de todos e existência de preocupação visível e genuína dos responsáveis, é possível lançar as bases de uma cultura de segurança, sólida e robusta.

Bibliografia
BWEA (2006). Wind Turbine Safety Roles, (www.embracewind.com) Embrace the revolution, London
Left, D. et al. (2002). Guidelines for Health & Safety in the Wind Energy Industry. London: BWEA (British Wind Energy Association).

  • SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S  ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    SUSTENTAÇÃO DA METODOLOGIA 6S ATRAVÉS DOS PRINCÍPIOS BBS: 6S (1-Separar; 2-Simplificar; 3-Salubrificar; 4-Sistematizar; 5-Sustentar E 6-SEGURANÇA) BBS (Behavior Based Safety)

    A metodologia 6S é uma abordagem sistemática de organização do trabalho e de goodhousekeeping é aplicada à produção de produtos e serviços de qualidade, sempre de forma segura. Para potencializar os resultados da metodologia 6S é obrigatório que haja a integração dos conceitos, princípios e ferramentas BBS. Foca primeiramente as condições e organização de trabalho e numa etapa seguinte o fator humano. Para cada regra deve haver pelos menos um comportamento alvo definido, no entanto, a quantidade de comportamentos alvo a monitorizar deve ser bem menor do que a quantidade de regras a implementar. O sistema de informação, comunicação, instrução e coaching deve acompanhar a implementação destas metodologias.

  • EFICIÊNCIA DA GESTÃO BBS (BEHAVIOR BASED SAFETY) ATRAVÉS DA FILOSOFIA LEAN

    EFICIÊNCIA DA GESTÃO BBS (BEHAVIOR BASED SAFETY) ATRAVÉS DA FILOSOFIA LEAN

    Lean Behavior-Based Safety é uma abordagem aprimorada de melhoria do sistema de segurança do trabalho, baseada em comportamentos, utilizando a redução do desperdício, reduzindo ou eliminando custos e tempo. Esta abordagem decorre da experiência prática de quase uma década da PROATIVO, Instituto Português, em implementação de programas BBS e pode estar focada no processo puro de gestão (ex: integração sistémica, tipo de lista de verificação, incorporação da linha de alarme de segurança-comportamental, condução de diálogos preventivos de segurança, gestão consequências PIC/NIC e formação & coaching), assim como, na gestão do contexto cultural (ex: thinking people system, líderes lean, gestão de hábitos e trabalhadores como motor).

  • ESTRATÉGIA OPERACIONAL, UMA FERRAMENTA DE GESTÃO AO SERVIÇO DA SEGURANÇA NO TRABALHO. A importância da atitude/comportamento na observação de equipas de trabalho: Relatos e reflexões

    ESTRATÉGIA OPERACIONAL, UMA FERRAMENTA DE GESTÃO AO SERVIÇO DA SEGURANÇA NO TRABALHO. A importância da atitude/comportamento na observação de equipas de trabalho: Relatos e reflexões

    A mesma política, o mesmo sistema de gestão de segurança, os mesmos recursos, as mesmas atividades, as mesmas iniciativas, os mesmos perigos e riscos e as mesmas intervenções, geraram resultados significativamente diferentes neste caso do setor elétrico. Acredita-se que o conhecimento por parte das organizações das necessidades e características pessoais dos seus colaboradores é determinante para uma melhor compreensão dos seus comportamentos e assim se poder utilizar a comunicação e o envolvimento como um meio poderoso ao nível da própria mudança na apropriação do valor segurança.
    O que aqui se pretendeu demonstrar, neste artigo, é que, apesar de todo o esforço que uma organização faça através do seu sistema de gestão da segurança, se o “comportamento” de toda a organização não estiver devidamente alinhado e não for visível e coerente com a política declarada, os resultados certamente não serão os esperados.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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