FAMÍLIA: AGENTE FACILITADOR DO PÓS-ACIDENTE DE TRABALHO

28 abril 2017
(0 votos)
Author :   Sónia P. Gonçalves
Citar ARTIGO: P. Gonçalves, S. 2013. Família: Agente facilitador do pós-acidente de trabalho. Revista Segurança Comportamental, 6, 42-43 Sónia P. Gonçalves | Doutorada em psicologia do trabalho e das organizações pelo ISCTE-IUL. Investigadora no CIS - ISCTE-IUL. Docente no Instituto Piaget.

Aspetos como a notificação da família acerca da ocorrência do acidente devem ser trabalhados e não deixados ao acaso. O apoio dado aos trabalhadores envolvidos no acidente de trabalho, bem como às suas famílias deve prolongar-se e não ser apenas um apoio imediato.

Este artigo foca a família como alvo das consequências da sinistralidade laboral, mas também enquanto agente facilitador do pós-acidente. O que significa família? Sabemos que tem significados diferentes para diferentes pessoas e nos diferentes momentos da vida. Qual será o papel desta quando de um acidente de trabalho? É esta a questão que procuraremos refletir.
Os acidentes de trabalho possuem um conjunto de características que os tornam potenciais eventos traumáticos, entre as quais, serem imprevisíveis, envolverem experiências de perda e mudanças de vida. Dada a forte carga emocional e traumática associada a estes acontecimentos, podem associar-se assim, ao desenvolvimento de diversas reações psicológicas (Carstensen et al., 2000). É sabido que os indivíduos que experienciam um evento traumático têm risco de desenvolver perturbação pós-stress traumático (PPST) entre outras reações – comorbilidade – como a depressão maior, a ansiedade e o abuso de substâncias (Norwood & Ursano, 1997; Scheibe, Bagby, Miller, & Dorian, 2001). Segundo Figley (1989, p.99) uma “família traumatizada é aquela que foi exposta a um stressor que alterou involuntariamente a rotina familiar”. Dadas as características mencionadas é possível pensar no acidente de trabalho enquanto esse stressor.
Como qualquer acontecimento traumático o acidente de trabalho pode afetar a família de diferentes formas, nomeadamente ao nível de comportamentos de evitamento (intra e extra família), alienação e isolamento, suicídio, uso de substâncias, violência, desconfiança/ira, rigidez e permeabilidade das fronteiras e tornar a comunicação inexistente (Pereira, 2003). Também as crianças numa família traumatizada podem ser alvo de sequelas: a) a criança pode sentir-se distanciada do progenitor; b) pode existir uma subvalorização e proteção das crianças por parte do progenitor; c) as crianças podem ser trianguladas como fonte de apoio social, ou formarem coligações (Matsakis, 1996).
Para que se possa intervir nas famílias afetadas por eventos traumáticos (e.g., acidentes de trabalho) é necessário perceber melhor o que se passa no seio destas famílias, no sentido de se poder planear uma intervenção mais eficaz. Na literatura destacam-se dois modelos que têm procurado sistematizar o que se passa com as famílias envolvidas em evento stressantes e traumáticos: o modelo ABCX Duplo (McCubbin e Patterson, 1983) e o CATS Model (Couple Adaptation to Traumatic Stress Model) (Goff & Smith, 2005). De forma genérica ambos os modelos colocam a ênfase da adaptação ao trauma no sistema familiar. Os recursos que a família e os indivíduos dispõem (e.g., reportório de estratégias de coping apoio social), bem como as suas perceções acerca do evento constituem pontos chaves para a adaptação. O nível de funcionamento da vítima direta e do/a parceiro/a (e.g., sintomas emocionais, comportamentais, cognitivos e biológicos), bem como do casal (vinculação, satisfação, estabilidade, apoio, poder, intimidade, comunicação, conflitos, fase do ciclo de vida e papéis) constituem igualmente aspetos importantes. Os fatores de predisposição (e.g., idade, trauma prévio) contam também para o processo de adaptação.
A família parece ter um papel fundamental enquanto fonte de proteção ao desenvolvimento e severidade das consequências do trauma através do apoio em encontrar soluções alternativas, da flexibilidade para as mudanças, no incentivo do crescimento e maturação dos membros, para que se sintam aceites, autónomos e confiantes (Vaz Serra, 2002).
No sentido de aprofundar o estudo das consequências dos acidentes de trabalho para o casal e família realizou-se um estudo empírico com quatro casais em que o marido sofreu um acidente de trabalho. Por questões de limites de espaço focam-se apenas alguns dos resultados mais salientes que apontam o impacto do acidente e para as mudanças que daí provêm:

Impacto do acidente
“…na família depois recaem as coisas todas…”
“…só de pensar como é que ele estava ... E não conseguia. Era uma situação tão grave que eu só vomitava...”
“Não nos diziam nada … está a fazer exames … está a fazer não sei o quê … e nós ali à espera … e quando o vimos … tinha os olhos inchados … assim todo partido da cintura para cima … todo ligado às máquinas … o braço partido, a perna partida … a cara dele estava toda inchada … os olhos pretos … e o nariz … é horrível …um mês … cada dia a caminharmos para lá …”
“Ainda se está a passar … Ainda não está completamente … há coisas que nunca mais passam … eu lembro-me sempre do acidente … sempre que me ponho em pé lembro-me sempre do acidente … eu tenho sempre dores …”

Mudanças do acidente
- Intrapessoais (agressividade, autoimagem…)
“…modificava-o a ele. Olha, em não teres esta … agressividade ... Pronto, que ele voltasse ao que era… Mas eu às vezes penso, que sina que eu tenho, porque ele era uma pessoa muito calma, tenho tantas saudades dele…”
“…quando vou sozinho, desde que tive o acidente, vou de autocarro…”
“… deixou de gostar dele…a revolta dele…
- Financeiras e económicas
“…houve um corte muito grande porque eu é que andava por fora … eu tirava o dobro do ordenado …”
- Profissionais
“A minha vida profissional mudou … porque eu não posso fazer aquilo que eu fazia …“
“… agora, a minha vida alterou. O meu dia-a-dia é completamente diferente…”
- Dinâmica familiar (papéis, intimidade, comunicação…)
“…mas podia chegar a casa e desabafar comigo, mas não!“
“… na vida particular, continuo a dormir sozinho…”
“…eu fazia tudo e mais alguma coisa … agora há certas coisas que eu não posso fazer … mesmo em casa…”

A nível prático, realça-se que as organizações devem ter uma atitude pró-ativa relativamente à prevenção e intervenção, no domínio psicossocial, em caso de acidente de trabalho, dada a dimensão emocional associada a este acontecimento laboral (Heidel, 2003). As intervenções que são planeadas no âmbito da segurança, higiene e saúde no trabalho devem contemplar as consequências psicológicas e relacionais. Aspetos como a notificação da família acerca da ocorrência do acidente devem ser trabalhados e não deixados ao acaso.
O apoio dado aos trabalhadores envolvidos no acidente de trabalho, bem como às suas famílias deve prolongar-se e não ser apenas um apoio imediato, pois as consequências dos acidentes de trabalho são prolongadas no tempo. Efetivamente, em alguns casos os sintomas de perturbação psicológica e relacional podem persistir ao longo do tempo e evoluir para expressões crónicas da doença, e noutros o seu aparecimento pode ser diferido relativamente à altura em que se deu o acidente.
É também fundamental que seja dada formação básica neste domínio aos responsáveis pela segurança, higiene e saúde das empresas e que sejam incluídos conteúdos programáticos durante os cursos de formação dos “futuros” técnicos de segurança, higiene e saúde no trabalho e nos cursos de reciclagem relativas às questões psicológicas associadas aos acidentes de trabalho. Para além disso, os hospitais e seguradoras deveriam ter técnicos habilitados para fornecer um apoio sério e constante aos sinistrados e familiares, e não apenas apoios casuais.

Bibliografia
Dembe, A. (2001). The social consequences of occupational injuries and illnesses. American Journal of Industrial Medicine, 40, 403-417.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…