PERCEÇÃO DE RISCO E TRABALHO NO SETOR DE ENERGIA ELÉTRICA

29 abril 2017
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Author :   Paulo Brito; Iara Picchioni Thielen; Diogo Picchioni Soares; Hamilton Costa Júnior
Citar ARTIGO: Brito, P. et al. 2012. Perceção de risco e trabalho no setor de energia elétrica. Revista Segurança Comportamental, 5, 10-12 Paulo Brito | Engenheiro Eletricista, Especialista em Engenharia de Segurança pela UFPR; Iara Picchioni Thielen | Psicóloga, Doutora em Ciências Humanas – Sociedade e Meio Ambiente, pela UFSC; Diogo Picchioni Soares | Psicólogo, Bacharel e Mestrando em Ps

No setor elétrico, os fatores responsáveis pela maior parte dos acidentes mortais são a eletrocussão e queda.

A segurança e saúde do trabalhador é foco de atenção interdisciplinar. A realização das atividades laborais exige esforços físicos e mentais que geram produtividade e sofrimento resultante de desgaste físico e mental, instigando esforços de compreensão das relações entre o desempenho das atividades e suas repercussões nos sujeitos, na organização e na sociedade. Os expressivos índices de acidentes com afastamentos do trabalho, no Brasil, indicam a necessidade de investigação de variáveis associadas. Este estudo focaliza interações pertinentes a duas grandes áreas de conhecimento: engenharia de segurança e psicologia do trabalho.
Os acidentes de trabalho respondem por parcela significativa das perdas de produção, gerando sequelas físicas e emocionais. A NBR14280 define acidente de trabalho como ocorrência imprevista e indesejável, instantânea ou não, que tem relação com o trabalho executado pelo empregado e que resulta ou pode resultar em lesão. O comportamento humano constitui um fator central na análise dos acidentes de trabalho. As condutas arriscadas estão associadas a formas de perceber o risco que estão ancoradas em fatores individuais, interpessoais, grupais, ideológicos (Lima, 2005) e organizacionais.
O referencial teórico da perceção de risco caracteriza a maneira como as pessoas julgam e interpretam fatores associados às probabilidades de consequências danosas advindas de eventos perigosos ou indesejáveis (Slovic, 1987). As diferentes perspetivas de leigos e peritos sobre riscos podem interferir na comunicação de perigos, na formação em segurança e no controlo do comportamento em ambientes que oferecem ameaças.
Estudos abordando a perceção de risco consideram a diferença entre leigos – não especialistas ou a população em geral que não detém conhecimento técnico aprofundado sobre determinado assunto – e peritos – especialistas que avaliam os riscos (Lima, 1998). Há divergência de opiniões: os peritos fazem estimativas com base em dados e cálculos sobre a possibilidade real do evento ocorrer, com foco nas causas, enquanto os leigos centram-se nas possíveis consequências do evento indesejável.
Apesar da preferência por soluções, por parte dos engenheiros, independentemente do fator humano, os impasses da segurança derivam maioritariamente do comportamento. A análise de Thielen, Hartmann e Soares (2008) o sobre comportamento e o excesso de velocidade no trânsito revela a interação entre normas de segurança e a perceção de riscos. A intervenção da engenharia de segurança depende prioritariamente de pessoas e não apenas de máquinas, instrumentos e equipamentos. Os esforços investidos em tecnologia de segurança podem ser malogrados caso não haja conscientização sobre os riscos e a necessidade de utilização de equipamentos de proteção. Entretanto, a confiança excessiva no aparato tecnológico pode gerar comportamentos arriscados (Wilde, 2005). Se todos os trabalhadores recebem a mesma formação, o que será que leva alguns a se exporem mais aos riscos do que outros e a não cumprirem as normas de segurança?
Este estudo avalia o grau de risco de atividades executadas por eletricistas e ajudantes do ramo de distribuição de energia. A perceção dos trabalhadores sobre o risco avaliado é investigada e confrontada com a perceção de um especialista em segurança do trabalho, com o objetivo de identificar as discrepâncias entre os grupos e os fatores que permeiam comportamentos de risco. Os 25 participantes deste estudo incluem 17 eletricistas, 7 ajudantes e um especialista que trabalham em redes elétricas em empresas de distribuição de energia: expandem o sistema, realizam manutenção e intervenções de emergência, estabelecem e interrompem as conexões. O ajudante executa tarefas no chão, não efetua serviços em contato com eletricidade, auxilia o eletricista na montagem de estruturas, entrega de materiais e ferramentas. O eletricista executa tarefas de construção, manutenção e reparos nas redes de distribuição. Essas tarefas expõem os trabalhadores a perigos e riscos de acidentes fatais relacionados com a eletrocussão e quedas de postes.

As campanhas de prevenção são um importante instrumento de combate aos acidentes mortais, mas estas para serem eficazes deverão ter em conta a perceção de risco dos trabalhadores.

Fundamentado no paradigma psicométrico da perceção de risco foi elaborado um instrumento que contempla questões sobre a quantidade de risco percebido em três situações: abertura de chaves fusíveis, execução de serviços na rede secundária não energizada com a rede primária energizada, troca da cruzeta de uma estrutura já existente com a rede elétrica não energizada. Cada situação é questionada quanto ao risco de eletrocussão e queda – fatores responsáveis pela maior parte dos óbitos que ocorrem nas empresas terceirizadas do setor elétrico. Cada trabalhador atribui um valor numa escala de risco que varia de 1 (atividade totalmente segura) até 7 (atividade com risco máximo). A aplicação do instrumento consistiu em entrevista individual para que respondessem as questões com base na sua perceção. As respostas de eletricistas e ajudantes foram confrontadas com as respostas do especialista em segurança do trabalho, identificando as diferenças de perceção de risco. A média das pontuações de cada grupo nas situações específicas de risco foi comparada com a avaliação feita pelo especialista. Foram analisadas as diferenças na argumentação de cada grupo para justificar as respostas.
Os resultados revelam que a perceção de risco do especialista é referenciada em normas e procedimentos que os eletricistas devem obedecer, subestimando os riscos das atividades. Eletricistas e ajudantes percebem os riscos com base em situações vivenciadas, tornando a sua avaliação superestimada em relação à avaliação do especialista. Os trabalhadores justificam a resposta às questões segundo episódios críticos de circunstâncias nas quais experienciaram o perigo de acidente. Mesmo não executando nenhuma das tarefas investigadas, os ajudantes apresentam perceção similar à dos eletricistas, indicando que é possível obter respostas de leigos com padrão semelhante em atividades complexas.
A quantidade de risco atribuída à eletrocussão é mais expressiva que a do risco de quedas, nas três situações investigadas, pois a violência associada à eletrocussão é mais temida. A opinião dos trabalhadores indica que pesquisas centradas em riscos específicos proporcionam variabilidade de respostas na forma como são percebidos.
O estudo da perceção de risco dos trabalhadores constitui um importante elemento para a formulação de campanhas de prevenção de acidentes ao elucidar que peritos e leigos expressam motivos e fatores distintos que permeiam a perceção de risco. A constatação possível pelo paradigma psicométrico sobre a maneira como os trabalhadores percebem o risco deve ser respeitada, superando a conceção dos especialistas que as consideram como insana e irracional (Slovic, 1987).
A segurança do trabalho demanda conscientização dos trabalhadores para a adoção de comportamentos seguros e uso adequado de equipamentos de proteção. A eficiente comunicação dos riscos perpassa a compreensão dos fatores que interferem na perceção dos trabalhadores sobre os perigos das atividades. Com base em dados obtidos pela investigação da perceção de risco, as empresas podem definir políticas de prevenção de acidentes que enfatizem as consequências das condutas de risco, planeando atividades que possam desenvolver nos trabalhadores competências para identificar e prevenir riscos reais inerentes às suas tarefas. Este estudo desvela interfaces que fomentam o comportamento seguro e contribuem para a compreensão dos fatores humanos relacionados aos acidentes de trabalho.

Referências Bibliográficas
Lima, M. L. (1998). Fatores sociais na perceção de riscos. Psicologia, n.º12, 11-28.
Lima, M. L. (2005). Perceção de riscos ambientais. In L. Sockza (Org.), Contextos humanos e psicologia ambiental (pp. 203-245). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
NBR 14280 (1999). Cadastro de acidentes do trabalho – Procedimentos e classificação. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas.
Slovic, P. (1987). Perception of risk. Science, n.º236, 280-285.
Thielen, I. P., Hartmann, R. C., & Soares, D. P. (2008). Perceção de risco e excesso de velocidade. Cadernos de Saúde Pública, n.º24, 131-139.
Wilde, G. J. S. (2005). O limite aceitável de risco: Uma nova psicologia sobre segurança e saúde: O que funciona? O que não funciona? E por quê? (R. J. A. Rozestraten, Trad.). São Paulo: Casa do Psicólogo.

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    Após um acidente existem muito esforço para determinar as causas raiz e recomendações respetivas, no entanto, não é raro que a ocorrência se repita. O drama se torna real quando precisamos escolher as recomendações, pois cada uma deve contribuir com sua “parcela de probabilidade”. Se não analisarmos profundamente o desvio comportamental, o tipo de erro cometido e sobretudo os fatores humanos envolvidos, a chance de sucesso é muito pequena. Este artigo contém uma sugestão de um método de análise, por abordar profundamente os fatores humanos envolvidos. São apresentados alguns conceitos e definições importantes que são fundamentais para a metodologia: erros internos e externos, fatores humanos e o modelo ABC e ABC reverso.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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