O PAPEL DA SEGURANÇA DE PROCESSO NA SUSTENTABILIDADE DE UMA EMPRESA DE PETRÓLEO E GÁS

29 abril 2017
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Author :   Hélder Figueira
Citar ARTIGO: Figueira, H. 2012. O papel da segurança de processo na sustentabilidade de uma empresa de petróleo e gás. Revista Segurança Comportamental, 5, 16-18 Hélder Figueira | Consultor da DuPont Sustainable Solutions Portugal

A melhoria do sistema de gestão de segurança, saúde e ambiente (SSA) e o objetivo de zero acidentes, é uma forma de garantir um futuro sustentável, a nível social, ambiental e económico.

A sustentabilidade, como conceito holístico, reflete a tendência atual de salvaguardar o nosso mundo. Embora tradicionalmente associada a questões ambientais, a definição de sustentabilidade expandiu-se para englobar toda a pegada social e ambiental das operações de uma empresa. O presente estudo de caso refere-se a um operador integrado de petróleo e gás - Galp Energia - é hoje o único grupo integrado de produtos petrolíferos e gás natural de Portugal, com atividades que se estendem desde a exploração e produção de petróleo e gás natural, à refinação e distribuição de produtos petrolíferos, à distribuição e venda de gás natural e à geração e venda de energia elétrica. O facto de trabalhar com materiais perigosos torna a gestão da segurança de processo (PSM) uma questão crucial. Em 2004, durante uma obra num oleoduto ocorreu um incêndio que tomou grande dimensão. Embora do acidente não tenha resultado danos pessoais graves, afetou fortemente a imagem da empresa. A investigação do acidente revelou a necessidade de melhorar a gestão da segurança de processo e identificou alguns aspetos de preocupação, nomeadamente no que se refere a gestão de prestadores de serviços, procedimentos de segurança e disciplina operacional. A comissão executiva da empresa considerou também que o sistema de gestão de segurança, saúde e ambiente (SSA) necessitava de ser melhorado para atingir o objetivo de zero acidentes. Esta decisão foi considerada como a única forma de garantir um futuro sustentável para a empresa, assim como, promover uma imagem de excelência.

Avaliação inicial identifica áreas de atuação
Em 2005, foi avaliada a sua cultura de segurança, pela DuPont, e foram comparadas as práticas existentes com os melhores padrões da indústria. A metodologia utilizada para a avaliação inicial foi composta por visitas às várias instalações e entrevistas a gestores e aos colaboradores da empresa assim como a prestadores de serviços, em todas as unidades da empresa. Os resultados revelaram a ausência de uma cultura SSA transversal na organização, algumas falhas nos procedimentos de segurança de processo, e a necessidade de desenvolver um maior compromisso por parte da direção no que se refere à segurança.
Assim, e apesar dos colaboradores e prestadores de serviços compreenderem a importância do tema, nenhum deles se sentia responsável pela segurança.
Considerava-se que o conhecimento e a capacidade de prevenção contra acidentes seriam exclusivamente da responsabilidade do departamento de SSA.
Quando a empresa passou a ser cotada em bolsa em 2006, o desempenho nas vertentes de ambiente e segurança tornou-se ainda mais importante, não só com o intuito de garantir a segurança e saúde dos colaboradores, dos ativos da empresa e envolvente em geral, mas também para fazer face às expectativas dos acionistas e comunidade em geral.

Mudança organizacional e formação para melhorar cultura de SSA
Com base na avaliação inicial, a equipa de projeto, composta por consultores e por colaboradores da organização, desenvolveu um plano global para fazer evoluir o sistema de gestão de SSA e melhorar a cultura de segurança. O novo sistema de gestão SSA incluiu a criação de uma organização integrada de SSA, liderada pelos diretores de cada área com reporte à comissão executiva, bem como a redefinição das responsabilidades de SSA dos vários gestores. Além disso, foram criadas comissões de SSA, que envolvem os vários níveis hierárquicos da empresa e grupos de excelência liderados e integrando gestores das várias áreas para análise e tratamento de temas de SSA.
Um plano de formação adequado é essencial para o bom funcionamento do sistema de gestão da segurança de processo pelo que o operador levou a cabo um programa de formação e coaching, que envolvendo mais de 3.500 colaboradores. Os gestores receberam formação sobre as suas responsabilidades e o seu papel em termos de liderança no tema segurança e sobre o quão crucial é a demonstração do seu empenho e compromisso na organização. Além destas, foram promovidas ações de formação sobre aspetos técnicos e comportamentais de SSA. Entre 2006 e 2011 o número total de horas de formação excedeu as 25.000.
A empresa introduziu um sistema de comunicação bidirecional de forma a partilhar as boas práticas, incluindo colaboradores internos e prestadores de serviços. Lançou também campanhas de comunicação corporativas para promover vários temas relacionados com o sistema de gestão em desenvolvimento.
Sendo o comportamento dos vários intervenientes essencial para qualquer mudança cultural, a equipa de projeto também desenvolveu um sistema de auditorias comportamentais para auxiliar os gestores na identificação de práticas de trabalho não adequadas, da utilização indevida de equipamentos e na inexistência de procedimentos ou sua aplicação incorreta.

«(…) a empresa levou a cabo um programa de formação e coaching (…) os gestores receberam formação sobre as suas responsabilidades (…) [foi introduzido] um sistema de comunicação bidirecional de forma a partilhar as boas práticas (…) todos são encorajados a comunicar os pequenos e os quase acidentes (…)»

«O índice de frequência de acidentes com baixa diminuiu de 3,4 em 2008 para 1,0 em 2011.»

Gestão da segurança de processo assenta em alicerces da gestão de SSA
Depois de colmatar as maiores falhas culturais e de estabelecer a base para bons sistemas de gestão SSA, a empresa pode tratar de aspetos mais técnicos e de risco, envolvidos na gestão da segurança de processo (PSM).
A empresa definiu indicadores de desempenho específicos para a segurança de processo e iniciou a monitorização de todos os eventos reportáveis com o enquadramento da recomendação prática 754 da API (American Petroleum Institute, 2010). Os indicadores dos níveis 1 e 2 de PSM foram estabelecidos para identificar e controlar eventos relacionados com perda de contenção primária.
Além disso, atualmente, cada gestor possui os indicadores relacionados com o desempenho SSA da sua área e todos os colaboradores, incluindo os prestadores de serviços. Todos são encorajados a comunicar os pequenos e os quase acidentes – uma forma proactiva para evitar a recorrência de incidentes.
A empresa iniciou assim, a implementação dos princípios fundamentais da PSM tais como, por exemplo, a integridade mecânica, a análise de risco de processo, a gestão da mudança. Como resultado deste processo, no final de 2010, a empresa conseguiu reduzir o número de acidentes graves em todas as suas áreas.

 

 

Resultados e melhoria contínua
Em cinco anos o desempenho SSA melhorou consideravelmente. O índice de frequência de acidentes com baixa (nº de acidentes com baixa por milhão de horas) diminuiu de 3,4 em 2008 (início da recolha de dados de pessoal próprio e de sub-contratados) para 2,1 em 2009. Esta taxa diminuiu ainda mais, cerca de 40 % entre 2009 e 2010 para um IFA de 1,2 e no final de 2011 foi de 1,0. Através de uma completa reorganização da gestão dos temas de SSA e da clarificação das respetivas responsabilidades dos gestores, a empresa conseguiu aumentar o compromisso por parte de todos os gestores e uma alteração significativa nas atitudes e comportamentos dos colaboradores e prestadores de serviços relativamente à segurança. Um aspeto essencial da mudança cultural da empresa é que a segurança – tal como a proteção ambiental – está atualmente integrada como um valor essencial da empresa.

Planos para o futuro
Sendo a PSM uma clara área de enfoque, a empresa pretende continuar com as atividades atuais, de forma a cumprir as normas internacionais de segurança de processo. Pretende também ampliar o seu sistema de monitorização atual para os indicadores dos Níveis 3 e 4 de forma a localizar, não só a grave perda de eventos de contenção, mas também outros eventos e quase incidentes. O bom desempenho conseguido no domínio da segurança encorajou a empresa a expandir o conhecimento de gestão dos temas de SSA adquirido para outros países onde a empresa opera, nomeadamente nas atividades em Espanha, África e Brasil.
Embora o caminho a percorrer para alcançar os zero acidentes ainda seja longo, a empresa acredita que o nível de disciplina operacional atingido mudou a forma como os colaboradores trabalham e melhorou a sua eficiência global. Este projeto revelou-se um estímulo e o conhecimento que a empresa desenvolveu na gestão da segurança de processo pode agora ser aplicado a todas as áreas do grupo, para ajudar a atingir a sustentabilidade e promover uma imagem de excelência.

Referências Bibliográficas
American Petroleum Institute, ANSI/API Recommended Practice 754 (2010). Process Safety Performance Indicators for the Refining and Petrochemical Industries. First Edition. Washington D.C.

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