RISCOS ERGONÓMICOS (1) EM ATIVIDADES DE ENFERMAGEM NO CONTEXTO DOMICILIÁRIO

29 abril 2017
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Author :   Madalena Torres; Joana Martins; Paula Carneiro
Citar ARTIGO: Torres, M., Joana, M., Carneiro, P. 2012. Riscos ergonómicos em atividades de enfermagem no contexto domiciliário. Revista Segurança Comportamental, 5, 29-31 Madalena Torres | Mestre em Engenharia Humana, Hospital de Braga; Joana Martins | Mestre em Engenharia Humana, ACES Cávado III Barcelos/Esposende; Paula Carneiro | Doutoranda em Engenharia Industrial e Sistemas, Departamento de Produção e Sistemas, Escola

Uma política de sensibilização do utente domiciliário para a organização do seu espaço habitacional, de forma a minorar a exiguidade de espaço e a desobstruir o espaço em redor do leito do utente, ajuda à redução do risco de lesões músculo-esqueléticas dos enfermeiros domiciliários.

Introdução
Os profissionais de saúde constituem um grupo com uma elevada exposição a fatores de carga física conducentes a lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT). Destes profissionais, os enfermeiros apresentam uma elevada prevalência de LMERT em particular ao nível da coluna vertebral, sendo a movimentação de doentes e a manipulação manual de cargas as atividades que mais contribuem para o risco de lombalgias (Barroso et al., 2007; Martins, 2008; Torres et al., 2010).
Martins (2008), no estudo realizado sobre caracterização e análise da perceção do risco de desenvolvimento de LMERT em profissionais de enfermagem que desempenham a sua atividade em contexto hospitalar, sugere o desenvolvimento de investigação em enfermeiros dos cuidados de saúde primários, que desempenham a sua atividade em contexto de prestação de cuidados de saúde no domicílio. Partilhando desta preocupação, e não se verificando a existência em Portugal de estudos sobre LMERT em contexto domiciliário, foi levado a cabo o presente estudo, que tem como objetivos:
- Identificar os fatores de risco de natureza ergonómica que possam estar a contribuir para a predisposição de LMERT na atividade de enfermagem em contexto domiciliário;
- Avaliar o risco objetivo de LMERT em profissionais de enfermagem que desenvolvem a sua atividade em contexto domiciliário.

Metodologia
Com vista à concretização dos objetivos definidos foram aplicadas duas metodologias distintas para a quantificação do risco de LMERT associado às atividades de enfermagem desenvolvidas no domicílio: REBA – Rapid Entire Body Assessment e MAC – Manual Handling Assessment Charts. A técnica REBA foi empregue na quantificação do risco de LMERT associado às atividades de assistência, tratamento e movimentação de doentes, e o método MAC foi aplicado a diversas tarefas de movimentação manual de cargas (MMC) como operações de elevação, de transporte e operações de movimentação em equipa.
Para aplicação destas metodologias de análise ergonómica foram utilizadas imagens vídeo e fotográficas, obtidas em contexto real de trabalho, a cinco enfermeiros do agrupamento de centros de saúde Cávado III Barcelos/Esposende, durante os meses de novembro e dezembro de 2010. A técnica REBA contempla a divisão do corpo humano em seis segmentos distintos – tronco, pescoço, pernas, braços, antebraços e pulsos. Cada segmento é analisado quanto à postura, sendo-lhe atribuída uma pontuação que traduz o desvio relativamente à postura neutral. Esta técnica também recolhe dados relacionados com outros fatores de risco que contribuirão para o cálculo do risco global de LMERT: aplicação de força, posturas estáticas, repetitividade de movimentos, alternância rápida entre posturas, instabilidade postural e o tipo de pega (coupling) utilizada. O resultado final da aplicação da técnica REBA é uma pontuação que integra os diferentes fatores de risco referidos e que funciona como indicador do nível de risco de LMERT relativo a uma determinada tarefa e, consequentemente indica o nível de urgência de proceder, ou não, a um estudo mais detalhado sobre o posto de trabalho e a uma intervenção no mesmo (Hignett & McAtamney, 2000).
Para a utilização do REBA foram analisados 170 registos de posturas num total de 16 atividades, abrangendo atividades de tratamento de feridas, vacinação e posicionamento do utente no leito. O método MAC consiste numa ferramenta de auxílio na avaliação dos fatores de risco mais comuns, associados às tarefas de elevação/abaixamento e transporte efetuadas por um operador e operações de elevação / abaixamento realizadas em equipa. Para cada um dos três tipos de tarefas considerados existe um guia de avaliação e um fluxograma para determinar o nível de risco para cada fator de risco. A cada nível de risco está associada uma cor que identifica os elementos da tarefa que requerem maior atenção (HSE, 2002; Arezes & Miguel, 2008). Para aplicação do MAC foram filmadas 10 atividades de MMC, concretamente operações de elevação/abaixamento e transporte do saco de material clínico entre a viatura e o domicílio do utente por um enfermeiro e operações de elevação/abaixamento do referido saco por dois enfermeiros.

“(...) atividade domiciliária possui características de risco específicas, como a exiguidade de espaços de trabalho, o mobiliário inadequado, as superfícies de trabalho demasiado altas ou baixas, a ausência ou insuficiência de dispositivos de auxílio à movimentação do utente e outras condições laborais adversas (...)”

Resultados e discussão
Os valores REBA obtidos para as posturas analisadas, correspondentes a cada uma das atividades desenvolvidas pelos enfermeiros no domicílio, variaram de 4 a 9 pontos. Assim, nas atividades de:
(i) tratamento de feridas os valores variaram entre 4 e 8, que vão de um nível de risco médio a alto;
(ii) movimentação do utente no leito obtiveram-se valores entre 6 e 9, representando um nível de risco de médio a alto; e
(iii) vacinação o nível de risco obtido foi médio (REBA=5).
Salientam-se ainda os seguintes aspetos:
- Nas atividades de tratamento de ferida a utente independente, em posição de trabalho sentada e com superfície adequada para alocação do material, o nível de risco obtido foi médio (REBA= 4), no entanto quando realizadas em espaço de trabalho exíguo, obrigando a adoção de posturas extremas, os valores obtidos corresponderam a um nível de risco alto (REBA=8), sugerindo a implementação de medidas urgentes de correção das condições de trabalho.
- A repetitividade nos movimentos de limpeza e desinfeção de feridas, a colocação e remoção de ligaduras e, o tipo de pega utilizado variando entre aceitável e inaceitável contribuíram igualmente para os níveis de risco obtidos.
- As atividades de posicionamento realizadas em utente dependente, deitado em cama articulada, do tipo hospitalar, apresentaram um risco de lesão músculo--esquelético médio (REBA=6), contudo, quando realizadas em cama de casal não articulada, com espaço de trabalho exíguo pelo excesso de mobiliário, verificou-se que o risco de lesão músculo-esquelética aumentou significativamente, apresentando-se alto (REBA=9).

“(...) também se observaram posturas inadequadas em alguns profissionais, o que sugere uma desvalorização do risco de LMERT por parte destes, podendo dever-se à falta de formação dos mesmos ou diminuição da perceção do risco.”

Também o risco de LMERT associado às tarefas de MMC analisadas foi classificado através do método MAC entre o nível médio e elevado. Tudo leva a crer que nas várias tarefas de MMC analisadas os fatores de risco que mais terão contribuído para o desenvolvimento de LMERT nos enfermeiros que prestam a atividade domiciliária são:
(i) distância horizontal entre as mãos e a região lombar;
(ii) assimetria da carga;
(iii) constrangimentos à postura devido, por exemplo, a espaços de trabalho exíguos;
(iv) torção e inclinação lateral do tronco;
(v) mau estado do pavimento;
(vi) obstáculos no percurso, como escadas, e
(vii) grandes distâncias percorridas no transporte da carga.

Conclusões
Os resultados obtidos evidenciam a presença de múltiplos fatores de risco de natureza ambiental, organizacional e estrutural e o importante contributo dos mesmos para a existência dos níveis de risco classificados entre médio e alto. Na prática, a atividade domiciliária possui características de risco específicas, como a exiguidade de espaços de trabalho, o mobiliário inadequado, as superfícies de trabalho demasiado altas ou baixas, a ausência ou insuficiência de dispositivos de auxílio à movimentação do utente e outras condições laborais adversas, que poderão manifestamente influenciar a adoção de comportamentos de risco. Por outro lado, também se observaram posturas inadequadas em alguns profissionais, o que sugere uma desvalorização do risco de LMERT por parte destes, podendo dever-se à falta de formação dos mesmos ou diminuição da perceção do risco.
Com vista à redução do risco de LMERT em atividades domiciliárias impõem-se algumas medidas. Intervir diretamente no contexto domiciliário pode tornar-se uma tarefa difícil e não aceite pelo utente e/ou prestador de cuidados, pelo que pensamos que essa intervenção passa por uma política de sensibilização do utente/prestador de cuidados para a importância da segurança e da organização dos espaços envolventes.
Esta sensibilização pode passar pela distribuição de panfletos onde se realça a readequação dos espaços habitacionais, de forma a minorar a exiguidade de espaço e a desobstruir o espaço em redor do leito do utente. É também importante a aquisição/utilização de equipamentos de auxílio à movimentação do utente (cama articulada do tipo hospitalar, triângulo e outros).
Outras diretrizes para os profissionais passam por acondicionar o material clínico de forma a facilitar a sua manipulação; substituir o saco de material clínico por mochila ergonómica com rodas facilitando o transporte da carga sobre rodas e permitindo também o seu transporte às costas de uma forma ajustada e simétrica, em caso de obstáculos no percurso (como escadas), mau estado do pavimento ou passagens estreitas; formação periódica aos profissionais nomeadamente no que diz respeito aos princípios da segurança e de comportamentos seguros.

Bibliografia
Arezes, P. & Miguel, A. (2008). Avaliação de risco em tarefas de manipulação manual de cargas. Relatório do Projeto 69-APJ/6 ACT. Guimarães: DPS da EE/UM, 204p.
Barroso, M., Carneiro, P. & Braga, A. (2007). Characterization of Ergonomic Issues and Musculoskeletal complaints. In a Portuguese District Hospital. In Proceedings of the International Symposium “Risks for Health Care Workers: prevention challenges”, Athens.
CCOHS – Canadian Centre for Occupational Health and Safety (2011). Ergonomics. Acedido em 10 de Outubro de 2011, de: http://www.ccohs.ca/oshanswers/ergonomics/
Hignett, S. & McAtamney, L. (2000). Rapid Entire Body Assessment (REBA). Applied Ergonomics, 31(2): 201-205.
HSE (2002). Manual handling Assessment Charts (MAC): Health & Safety Executive (HSE) and Health & Safety Laboratory (HSL), UK.
Martins, J. (2008). Percepção do risco de desenvolvimento de lesões músculo-esqueléticas em actividades de enfermagem. Dissertação de Mestrado em Engenharia Humana. Guimarães: Escola de Engenharia/Universidade do Minho, 142p.
Torres, M., Arezes, P. & Barroso, M. (2010). Risk perception of work related musculoskeletal disorders in pre-hospital emergency. In A, J.jReliability, Risk and Safety – Ale, Papazoglou & Zio (eds) (2010), Taylor & Francis, London, ISBN 978-0-415-60427-7, pp. 2375-2381.

(1) Riscos ergonómicos referem-se a condições de trabalho que representam o risco de lesões para o sistema músculo-esquelético do trabalhador e incluem repetitividade, a aplicação de força, as posturas inadequadas, utilização de ferramentas manuais, entre outros (Canadian Centre for Occupational Health and Safety, 2011).

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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