ASSUMIR RESPONSABILIDADES: CAMINHO PARA A MELHORIA DO DESEMPENHO EM SEGURANÇA

29 abril 2017
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Author :   Ricardo Hojda
Citar ARTIGO: Hojda, R. 2012. Assumir responsabilidades: Caminho para a melhoria do desempenho em segurança. Revista Segurança Comportamental, 5, 40-41 Ricardo Hojda | Engenheiro. Mestre em engenharia de produção pela Universidade de São Paulo. Auditor Líder e professor da Fundação Vanzolini/IQNet. Consultor e diretor da Stance Gestão e Treinamento.

A implementação da “cultura da segurança” passa pelo processo de transferência de responsabilidades operacionais: dos profissionais da segurança para as lideranças.

Cultura da segurança
O termo “cultura da segurança” foi inicialmente introduzido pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) como resultado da primeira análise do acidente da usina de Chernobyl. Desde esta época, foram apresentadas diversas definições para a expressão “cultura da segurança”, mas a mais abrangente delas foi a estabelecida pelo Advisory Committee on the Safety of Nuclear Installations (ACSNI) que afirma: “a cultura de segurança de uma organização é o produto dos valores individuais e do grupo, atitudes, percepções, competências e padrões de comportamento que determinam o comprometimento, e o estilo e a competência da gestão da saúde de segurança de uma organização. Organizações com uma cultura de segurança positiva são caracterizadas por comunicações baseadas na confiança mútua, por percepções compartilhadas sobre a importância da segurança e pela confiança na eficácia nas medidas prevencionistas”.

Clima da segurança
O “clima da segurança” é o termo usado para descrever a percepção comum dos colaboradores em como a gestão da segurança está sendo operacionalizada no ambiente de trabalho e em um momento específico. Segundo Zohar citado por Cooper (2004), “clima da segurança” fornece um indicador da prioridade da segurança. Ele é um subconjunto da “cultura da segurança” e é obtido através de pesquisas com questionários e entrevistas. Através de análise do “clima da segurança”, pode-se avaliar o impacto de diversos fatores na “cultura da segurança” das organizações. Iremos analisar o papel das lideranças e dos profissionais da segurança no processo de formação e manutenção da “cultura da segurança” e o seu impacto no colaborador.

“(...) o compromisso pessoal da alta direção e das lideranças com segurança traz a redução de acidentes.”

Papel das lideranças na cultura de segurança
Segundo Simard (2001), existe uma clara relação entre a evolução da cultura da segurança e o desempenho de segurança das organizações. Segundo ele, foram realizados numerosos estudos comparativos de empresas que gozam de baixas taxas de acidentes e outras com frequência de acidentes superior a média. Uma das conclusões dos estudos foi que o compromisso pessoal da alta direção e das lideranças com segurança traz a redução de acidentes. Segundo Smith e Cols, descritos por Simard (2001), o envolvimento ativo da direção contribui para motivar, tanto os diversos níveis da liderança como os trabalhadores, ao mostrar a preocupação da direção com seu bem-estar. Simard (2001) afirma que “os resultados de numerosos estudos realizados mostram que um dos meios mais eficazes de difundir os valores humanos e a filosofia da direção consiste em participar de atividades mais visíveis, como as inspeções de segurança e comitês com a participação dos trabalhadores”.
Chew, Mattila, Hyttinen e Rantanen descritos por Simard (2001) afirmam: “a intervenção dos supervisores em um sistema participativo da segurança está associado aos índices de sinistros mais baixos”. O comportamento dos supervisores concretiza-se através de comunicações e troca de informações, frequentes e informais, com os colaboradores, sobre temas de segurança do trabalho, prestando atenção a atuação dos trabalhadores neste campo e oferecendo retroalimentação positiva, além de promover a participação do colaborador na prevenção de acidentes. Entendemos que o líder ativo e participativo em segurança também é eficiente no acompanhamento da produtividade e qualidade da equipe. Alguns resultados de avaliações do “clima da segurança” em empresas que possuem o engajamento das lideranças são: que a liderança se sente responsável pela integridade da sua equipe, tem sua percepção de perigos desenvolvida, valoriza aqueles que trabalham com segurança e fornece feedback aos colaboradores, conversa sistematicamente com seus colaboradores sobre segurança, reconhece e desenvolve colaboradores mais resistentes. A “cultura da segurança” fomenta entre os colaboradores o conceito de proteção mútua, o tema segurança é corriqueiro, há análise periódica dos processos visando controle de riscos elevados e avaliação da sua condição pessoal (psicológica, emocional, física) antes da realização dos serviços.

Papel dos profissionais da segurança no Brasil
No Brasil, a Norma Regulamentadora (NR) 4 é o ato legal que regulamenta a formação dos serviços especializados em engenharia de segurança e em medicina do trabalho (SESMT) pelas empresas. Ela estabelece que a empresa contrate de forma compulsória uma equipe de profissionais da segurança (engenheiros, técnicos e médico do trabalho) com o objetivo promover a saúde e proteger a integridade física dos trabalhadores da empresa.
O porte do SESMT varia em função do porte, grau de risco e atividade da empresa. Com o passar do tempo, as empresas brasileiras acabaram por distorcer a NR-4 e a obrigação de contratação de profissionais especializados em segurança trouxe como consequência a responsabilização do SESMT pela segurança do trabalho da empresa. Os profissionais da segurança do trabalho passaram a ser considerados “fiscais da fábrica” e a imagem da segurança do trabalho ficou ligada à figura da penalização. O SESMT assumiu as responsabilidades das lideranças que de forma acomodada deixaram de se envolver com os temas associados a segurança do trabalho.

Conclusão: transferência de responsabilidades
Os profissionais da segurança devem atuar de forma a suportar o desenvolvimento da “cultura da segurança”. O papel de “fiscal da fábrica” deve ser eliminado. Na “cultura da segurança”, os profissionais da segurança devem ser vistos pela organização como parceiros e devem fornecer suporte ao processo de melhoria e de capacitação dos colaboradores em segurança. Cabe aos profissionais da segurança tornar as lideranças e os formadores de opinião da empresa competentes em segurança, seja nos aspectos técnicos ou de gestão.
A implementação da “cultura da segurança” passa pelo processo de transferência de responsabilidades operacionais: dos profissionais da segurança do trabalho para as lideranças. Somente assim a segurança será tratada nas organizações como “valor” e será priorizada pelas lideranças empresariais.

Bibliografia
Cooper, M.D., Phillips R.A. (2004) Exploratory analysis of the safety climate and safety behavior relationship. Journal of Safety Research 35, 497-512.
Saari, J. (2001). Processo Parcipativo de Mejora del Lugar de Trabajo. Enciclopedia de Salud y Seguridad em el Trabajo No. 59.
Simard, M. (2001). Cultura e Gestion de la Seguridad. Enciclopedia de Salud y Seguridad em el Trabajo No. 59.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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