MUDANÇA CULTURAL BASEADA NO COMPORTAMENTO DE SEGURANÇA: UMA EXPERIÊNCIA NO SECTOR ELÉCTRICO BRASILEIRO

30 abril 2017
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Author :   José Luiz Alves & Luiz de Miranda Júnior
Citar ARTIGO: Alves Luiz, J., Miranda Júnior, L. 2011. Mudança cultural baseada no comportamento de segurança: uma experiência no sector eléctrico brasileiro. Revista Segurança Comportamental, 4, 4-6 José Luiz Alves | Engenheiro, Doutorado em Engenharia, Consultor Principal na DNV – Det Norske Veritas; Luiz de Miranda Júnior | Engenheiro, Mestre em Gestão em Saúde e Meio Ambiente, Professor de graduação e pós-graduação na UNICAMP.

O exemplo prático do sector eléctrico mostra que os resultados visivelmente significativos em segurança só são conseguidos através do investimento no desenvolvimento da cultura de segurança utilizando um programa comportamental, baseado em diálogo, fundamentado na interdependência, com foco educativo e no desenvolvimento das competências técnicas, geridas pelo SGSST.

Introdução
Muito tem sido feito para reduzir os acidentes no trabalho nas empresas. Observam-se esforços de implementação que utilizam programas comportamentais com base em processos como BBS – Behavior Based Safety (Segurança Baseada em Comportamento). Algumas empresas optam por um programa integrado, no qual a base é o sistema de gestão da saúde e segurança do trabalho (SGSST) e neste sistema o programa comportamental é inserido e desenvolvido. Este artigo tem como objectivo apresentar uma experiência de sucesso e mostrar o caminho percorrido desde a criação do SGSST até o início do programa comportamental. O trabalho mostra a experiência da CPFL, empresa líder em segurança no sector eléctrico brasileiro, responsável pela distribuição da energia numa das áreas de maior densidade populacional do Brasil. O programa denominado “Vá e Volte” está a ser desenvolvido pela CPFL em parceria com a DNV – Det Norske Veritas. O trabalho visa mostrar a experiência e aprendizagem adquirida, de forma a inspirar outras empresas, principalmente do mesmo sector eléctrico, para investirem em programas comportamentais.

O SGSST na CPFL Energia
A gestão da segurança e saúde numa empresa de serviços, onde a quase totalidade dos trabalhos de risco ocorrem em logradouros públicos é um desafio de grandes proporções. Nessas condições, são os trabalhadores que detêm o poder da decisão em executar as suas funções com atenção aos perigos e riscos, evitando acidentes. A construção compartilhada entre empresa e trabalhadores de um SGSST eficaz foi a alternativa escolhida, tendo como alicerce duas referências internacionais: a DNV e a OHSAS (Occupational Health and Safety Assessment Series) 18001.
Em 2000, a CPFL deu os seus primeiros passos rumo à implantação de um SGSST com o uso das ferramentas propostas pelo SCIS – sistema de classificação internacional de segurança concebido pela DNV (o SCIS tem como origem o ISRS – International Safety Rating System, desenvolvido há vários anos pela DNV. No seu actual formato (2011) o ISRS é um Sistema Integrado de Gestão para a sustentabilidade da empresa. O trabalho desenvolvido resultou na incorporação gradual do SGSST pela organização e seus trabalhadores e contribuiu com o início da reversão do quadro negativo de acidentes registado à época. O SGSST da CPFL contribuiu para a eficácia da gestão da segurança e saúde, ocasionando a redução dos acidentes do trabalho. Apresentamos alguns sistemas e instrumentos adoptados, de forma sucinta.
- Mais de 900 perigos e riscos foram identificados e analisados, com a participação dos trabalhadores.
- Mais de 13.000 comunicações de eventos com sugestões de melhoria, eliminação de risco e correcção de condições abaixo do padrão foram apresentadas pelos trabalhadores e, em sua maioria, implementadas.
- Identificação, avaliação e orientação para o controle das legislações pertinentes.
- Gestão da comunicação das condições abaixo do padrão, incidentes, acidentes pessoais e materiais inclusive com o público em geral.
- Gestão da identificação, avaliação dos riscos ocupacionais e acompanhamento da eficácia do controle operacional das actividades.
- Uso de vestimentas com propriedades específicas para protecção ao risco de arco eléctrico.
- Uso de cinto de segurança tipo pára-quedista com linha da vida.
- Atribuição de cartões-verdes a empregados que respeitam e cumprem os procedimentos de segurança descritos nas tarefas operacionais.
- Realização de Diálogos Semanais de Segurança – DSS.
A implantação do SGSST (2001) e outros projectos fizeram com que os acidentes tivessem redução expressiva. No gráfico n.º 1 são apresentadas as taxas de frequência (TF) de acidentes ocorridos nas distribuidoras de energia eléctrica da CPFL nos últimos anos. Pode-se verificar a expressiva diminuição dos acidentes do trabalho.

Gráfico  n.º1: CPFL Energia - evolução das Taxas de Frequência dos acidentes do trabalho

(número de acidentes por 1 milhão de horas trabalhadas) comparadas com a TF média do Sector Eléctrico.

Gráfico  n.º2: Evolução mensal do Índice Seguro (abril 2011: dados parciais).

O Programa “Vá e Volte”
O desejo de eliminar os riscos potenciais de acidentes levou a CPFL Energia a iniciar um novo programa, com o nome escolhido pelos trabalhadores: Vá e Volte, em alusão ao desejo de todos irmos trabalhar todos os dias, cumprindo nossas responsabilidades e vocações e, ao término do dia de trabalho, voltarmos sãos e salvos para o convívio com nossos familiares e amigos.
O “Vá e Volte” estabeleceu acções nas áreas administrativas, comportamental, comunicação, desenvolvimento e capacitação, engenharia, infraestrutura e normalização. Na área comportamental, mais de cem profissionais, entre electricistas, técnicos, engenheiros e gerentes participaram do programa “piloto” de “prevenção de acidentes com foco em aspectos comportamentais”.
Nesta fase, o programa foi conduzido em parceria com a Det Norske Veritas (DNV), empresa internacional especializada em gestão de riscos. Um diagnóstico da cultura de segurança foi inicialmente realizado e em seguida um plano de acção com o intuito de alicerçar uma cultura sólida de prevenção de acidentes. Foram realizados workshops, com os objectivos de trabalhar os conceitos de competência em risco e diálogo comportamental. Os diálogos comportamentais permitem identificar comportamentos adequados e de risco, se existirem. O indicador escolhido, ver gráfico nº.2, foi denominado de «índice seguro». O «índice seguro» é o quociente percentual das situações seguras (S) verificadas no campo pelo somatório destas mais as não seguras (NS).
No gráfico nº.3 são apresentados os comportamentos não seguros relacionados a aspectos básicos de segurança e registados desde a implementação do programa comportamental.
Dois factores têm contribuído para o sucesso. O primeiro é o foco educativo, por meio do diálogo comportamental. O segundo é relativo ao modelo teórico usado. Este modelo, derivado do tradicional modelo ABC, baseia-se na observação dos desvios e dos comportamentos seguros, na identificação dos activadores, como as crenças, por exemplo. Baseia-se, fundamentalmente, no reforço positivo. No gráfico n.º 4 apresentamos alguns activadores, como exemplo. Na imagem n.º 2 apresentamos um momento de realização do diálogo comportamental.
Findo o “projecto piloto”, a CPFL Energia irá implantar o programa em todas as demais distribuidoras de energia eléctrica do grupo, ou seja, nas suas oito empresas, o que envolverá mais de 2.000 profissionais em 569 municípios onde atende mais de 18 milhões de clientes.

Gráfico  n.º 3: Evolução mensal de comportamentos não seguros relacionados a aspectos básicos de segurança (abril 2011: dados parciais).

Gráfico  n.º 4:  Evolução mensal dos antecedentes verificados (abril 2011: dados parciais).

Aprendizagem e oportunidades de melhorias
A seguir apresentamos alguns pontos considerados chave no Programa “Vá e Volte” e que podem ajudar o leitor no planeamento dos seus projectos de segurança com base no comportamento.
- Apoio da alta administração desde o início do projecto, com compromisso e exemplo visíveis;
- As empresas contratadas fazem parte do programa comportamental.
- Os funcionários são apoiados quando trabalham para melhorar a qualidade de equipamentos, ferramentas e veículos utilizados.
- O programa comportamental visa à evolução da cultura de segurança.
- O programa comportamental ajuda a desenvolver habilidades para o diálogo dos profissionais da empresa com a comunidade.
- Um comité operacional com a liderança da área operacional dá credibilidade e velocidade ao programa.
- As áreas de segurança e saúde das empresas actuam como assessoria no processo, que é assumido pelas lideranças locais.

Imagem n.º 2: Actividade alvo do diálogo comportamental na CPFL (Fonte: CPFL)

Conclusões
Vale a pena investir no desenvolvimento da cultura de segurança utilizando um programa comportamental, baseado em diálogo, fundamentado na interdependência, com foco educativo e no desenvolvimento das competências técnicas, geridas pelo SGSST. É importante que o sistema de gestão suporte as acções desenvolvidas no programa comportamental. Este sistema, quando robusto e de alta qualidade, permite inclusive melhorar a segurança das empresas contratadas e da comunidade envolvida.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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