MATURIDADE DE SEGURANÇA NA INDÚSTRIA DE METALOMECÂNICA: DADOS DE UM ESTUDO DE CASO

30 abril 2017
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Author :   Hernâni Veloso Neto
Citar ARTIGO: Veloso Neto, H. 2011. Maturidade de segurança na indústria de metalomecânica: dados de um estudo de caso. Revista Segurança Comportamental, 4, 12-13 Hernâni Veloso Neto | Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Os fatores de natureza cultural (valores, crenças, etc.) são os que mais sustentavam as resistências à adoção de comportamentos mais seguros. Fatores como os baixos recursos educativos e o número de anos a fazer o mesmo serviço são fontes de resistência (sempre trabalhei assim e nada de grave aconteceu, porquê mudar).

Notas introdutórias
O presente texto deriva de um trabalho mais amplo que se tem vindo a desenvolver sobre a transformação ocorrida ao nível dos modelos e práticas societais e organizacionais de SST em Portugal. Um dos principais intuitos é a identificação das principais determinações dos processos de construção sócio-organizacional do risco profissional e da segurança e saúde no trabalho (SST). Para se concretizar este intuito desenvolveu-se uma abordagem teórico-metodológica com capacidade para explorar práticas e representações organizacionais. A abordagem passa pela constituição de portfólios sócio-organizacionais de SST. Um portfólio é um dossiê personalizado sobre uma organização que comporta um retrato organográfico com múltiplos ângulos, dimensões e elementos relativos às condições de trabalho em termos de segurança e saúde.
Independentemente da natureza da organização, o retrato alicerça-se num modelo de análise que coloca em interação várias componentes contextuais diferentes. Num primeiro plano, contrapõe-se uma componente contextual externa e uma componente contextual interna. O contexto externo surge representado pelo enunciação dos fatores representativos de uma interatividade com o exterior, por via da identificação e caraterização dos processos de interinfluência. O contexto interno surge representado pela especificação e caracterização dos fatores que ajudam a especificar o ambiente sócio-organizacional em presença e como a realidade é construída a partir desse referencial.
Os fatores contextuais internos consideram os elementos estruturais, processuais, percetuais e atitudinais que determinam e especificam a cultura organizacional de SST de uma organização. A avaliação do grau de maturidade das/os tabalhadoras/es surge configurado no modelo de análise como fatores atitudinais que concorrem para a especificação do contexto cultural interiorizado, isto é, para a especificação das suposições básicas de SST que cada colaborador/a carrega consigo e coloca em prática.
Este contexto interiorizado reflete as representações culturo-organizacionais internalizadas e que funcionam como operadores lógicos definidores de um conjunto de predisposições para a ação. Através da análise das perceções e atitudes individuais relativamente à SST é que se conseguem determinar essas predisposições e os elementos que concorrem para a sua explicação.
Neste artigo vai-se evidenciar parte do trabalho que se efetuou, em termos de avaliação do grau de maturidade de segurança, num dos casos de estudo realizados. A organização que funcionará como caso exemplificativo é uma empresa do setor da metalomecânica. Foi elaborado um portfólio sócio-organizacional de SST para esta empresa, a partir do qual se retirou alguns elementos para este artigo. A elaboração do portfólio implicou que se tivesse aplicado todos os procedimentos e instrumentos metodológicos que lhe estão associados. Um dos instrumentos utilizados permitiu a obtenção de dados para a criação da componente analítica que se está a ser trabalhada. A explicação do instrumento e do processo de criação da componente será efetuada no ponto seguinte, onde também se fornecerá mais informações sobre a empresa em estudo. No ponto três, serão discutidos alguns dados obtidos com a criação desta componente analítica. Por último, será efetuado um balanço crítico dos aspetos analisados.

Apontamentos teórico-metodológicos
Os fatores atitudinais previstos no modelo de análise remetem para os elementos que concorrem para a definição do grau de consciência e atitudes de risco das/os trabalhadoras/es. A especificação destes dois fatores deriva dos dados decorrentes da aplicação de um inquérito às/aos trabalhadoras/es da empresa. Para preservar a sua identidade utilizou-se um nome fictício. A Stigma é uma indústria de fabricação de produtos metálicos situada no Distrito do Porto. A empresa tinha 341 pessoas ao serviço em 31 de Dezembro de 2009. O universo de referência foi o número de pessoas indicado, uma vez que o trabalho de campo decorreu no ano de 2010.
Como não existiram condições para se aplicar diretamente o inquérito, teve-se de optar pela autoadministração, o que acabou por ter implicações na taxa de resposta. Foi de apenas 37,9%. De qualquer modo, ainda se conseguiu validar um total de 130 inquéritos. Esta é a amostra de referência do artigo.
O inquérito integrou um conjunto de escalas psicométricas, a partir das quais foi possível, entre outras, apurar uma componente fatorial relativa à maturidade de segurança. Esta componente foi perspectivada a partir do grau de consciência, orgulho e compromisso com os valores e práticas de segurança. Estes três elementos contribuem para determinar em que medida a segurança está internalizada no consciente das pessoas e nas suas predisposições para não adotarem comportamentos de risco. Deste modo, a internalização da segurança e os comportamentos de risco foram os dois índices fatoriais que compuseram a componente maturidade de segurança.
Quer a componente, quer os índices fatoriais foram apurados com o recurso ao programa estatístico SPSS. Através do nível de significância associado ao teste de Bartlett (p < ,001) e do valor do teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO = ,826) foi possível confirmar a qualidade da componente fatorial. A componente é composta por 18 itens distribuídos por dois índices fatoriais. A proporção de variância explicada da componente pelos índices é de 60,8%. O índice relativo à Internalização da segurança explica cerca de 36,8% da variância global da componente (valor próprio = 6,626) e tem uma consistência interna muito boa (α = ,927). O índice relativo aos Comportamentos de risco explica cerca de 24% da variância global da componente (valor próprio = 4,316) e tem uma boa consistência interna (α = ,848).
Infelizmente não foi possível apresentar uma tabela com a listagem dos itens que compõem cada índice. No ponto seguinte vai-se apresentar alguns dos resultados obtidos, sinalizando itens que foram mobilizados.

«(...) acabou por ficar vincado a importância da escolaridade, da idade e da antiguidade na especificação do grau de maturidade de segurança.»

Dados do estudo de caso
Como não foi possível recorrer a todos os itens mobilizados, destacar-se-á apenas um em cada dimensão, tentando-se deixar transparecer um conjunto de ilações que estava subjacente a muitos outros itens.
O índice relativo à internalização focalizou a interiorização dos preceitos culturais e normativos em termos de SST, por via da análise das atitudes das pessoas relativamente a um conjunto de procedimentos e posturas. No global, o grau de internalização da segurança foi positivo. Do total de dez itens, destaca-se que a maioria das pessoas inquiridas defendia que o pessoal da empresa seguia cuidadosamente os procedimentos de segurança escritos (59,3%), sendo que à medida que aumentava o nível de escolaridade das/os inquiridas/os tendia a diminuir o grau de concordância com o cumprimento das prescrições de segurança (r = - ,280; n = 120; p = ,002). Ou seja, os mais escolarizados tinham uma visão mais negativa sobre o cumprimento dos procedimentos de segurança. No caso da idade, a associação era positiva (r = ,190; n = 113; p = ,044), indicando que à medida que aumentava a idade das/os inquiridas/os tendia a aumentar o grau de concordância. Ou seja, eram os mais velhos quem mais defendiam que se cumpria com as prescrições de segurança. Eventualmente, a crença advinha do fato de verem os mais novos a cumprir, enquanto a descrença dos mais novos advinha de verem os mais velhos a não cumprirem.
O índice relativo aos comportamentos de risco refletiu em que medida a internalização da segurança se manifestava nas atitudes das pessoas perante um conjunto de situações potenciadoras de exposição a risco profissional. No global, o índice revelou um conjunto de predisposições positivas para a adoção de comportamentos de segurança. Do total de oito itens, destaca-se que a maioria das pessoas inquiridas discordava que fosse necessário correr algum risco para acabar o trabalho mais depressa (64,5%). Para um nível de confiança de 99% pode-se indicar que à medida que aumentava o nível de escolaridade tendia a diminuir o grau de concordância com a necessidade de se correr risco para se realizar rapidamente o trabalho (r = -,299; n = 118; p = ,001). Para um nível de confiança de 90% pode-se indicar que se registou uma tendência para aumentar o grau de concordância com a necessidade de, por vezes, se correr riscos para se concluir rapidamente o trabalho à medida que aumentava a antiguidade (r = ,169; n = 106; p = ,082). Ou seja, denotou-se que eram as pessoas com menos habilitações e com mais antiguidade que estavam menos comprometidas com os comportamentos de segurança.

Notas finais
A maturidade de segurança evidenciada pelas/os trabalhadoras/es são uma componente essencial da segurança comportamental em contexto de trabalho. Apesar de não ter sido possível explanar muitos dados, acabou por ficar vincado a importância da escolaridade, da idade e da antiguidade na especificação do grau de maturidade de segurança. Foram as variáveis sócio-organizacionais que mais influenciavam as predisposições para a ação manifestadas pelas/os inquiridas/os. Também reforça a ideia defendida por alguns dos responsáveis da empresa, a SST era uma questão cultural. O que defenderam durante as entrevistas acabou-se por confirmar no inquérito, tendiam a ser os fatores de natureza cultural (valores, crenças, etc.) que mais sustentavam as resistências à adoção de comportamentos mais seguros. Fatores como os baixos recursos educativos e o número de anos a fazer o mesmo serviço eram fontes de resistência (sempre trabalhei assim e nada de grave aconteceu, porquê mudar!). Havia maior probabilidade de estas pessoas terem mais dificuldade em ver o alcance da adoção de determinadas práticas e equipamentos de proteção. A mudança de mentalidades continua a ser o maior desafio para muitas empresas e para a própria sociedade. É uma linha de reflexão e intervenção que deve ser aprofundada, já que influenciam diretamente o grau de internalização e de comportamentos de segurança.

  • Cultura de Segurança e Saúde – Avaliação e Intervenção  (1.ª ed.)

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    18 a 19 de outubro de 2021 | 9H30 às 17H30 | 14 horas

  • RASTREIO DA PRESENÇA DE ESTRESSE, RESILIÊNCIA E COPING ENTRE TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA QUÍMICA, NO BRASIL

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    Este estudo teve como objetivo verificar a ocorrência de estresse e relações com coping e resiliência, fazendo a relação com dados epidemiológicos da população. Observou-se ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse. A maior parte da população apresenta nível de estresse ou de estresse elevado. Existe correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Existe correlação entre estratégias disfuncionais e estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.

  • ENVELHECIMENTO ATIVO E OS COMPORTAMENTOS SEGUROS EM SOCIEDADE

    ENVELHECIMENTO ATIVO E OS COMPORTAMENTOS SEGUROS EM SOCIEDADE

    Em Portugal, registaram-se mais de 2,1 milhões de idosos em 2017, o que equivale a cerca de 21% da população total no país. Segundo Euromonitor International os portugueses constituem a quinta população mais envelhecida do mundo. O processo de envelhecimento traz consigo, habitualmente, complicações diversas na saúde das pessoas, pelo que urge a importância crescente da prevenção e de novos comportamentos e hábitos de vida. Tendo este grupo de risco tendencialmente uma redução de mobilidade, uma das maiores preocupações, seja em casa ou na rua, são as quedas. São aqui apresentadas as medidas relacionadas não só com a mudança de comportamentos e hábitos do indivíduo tanto a nível físico, psicológico e social, mas também, nas condições habitacionais.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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