UM OLHAR SOBRE A VIOLÊNCIA NA ESCOLA: REVISITANDO O FENÓMENO DO BULLYING

30 abril 2017
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Author :   Paula Paulino
Citar ARTIGO: Paulino, P. 2011. Um olhar sobre a violência na escola: revisitando o fenómeno do bullying. Revista Segurança Comportamental, 4, 26-27 Paula Paulino | Psicóloga clínica. Mestre em psicologia social. Doutoranda no programa de doutoramento inter-universitário em psicologia

A escola é o lugar preferencial onde o indivíduo adquire competências para desenvolver comportamentos seguros. Para isso, terá que existir um programa preventivo, e também interventivo perante o bullying, onde se insira o papel do agressor, da vítima, do espectador, dos professores e família.

Abordar a questão da violência em contexto escolar, leva-nos intuitivamente para o domínio da violência entre pares e do fenómeno do bullying. O bullying define-se como um comportamento agressivo e intencional que envolve desequilíbrios de poder e/ou força; e o uso repetido e deliberado de meios físicos ou psicológicos para fazer sofrer uma outra criança/adolescente, sem uma provocação adequada, e no conhecimento de que a vítima não será capaz de uma retaliação efectiva (Haber & Glatzer, 2007; Olweus, 1978; Smith et al., 1999).

Sinais de Alerta Vítimas e Agressores
Para uma abordagem precoce no fenómeno de violência escolar é importante estarmos atentos a alguns sinais de alarme. Nos agressores encontramos frequentemente: a) baixo interesse pela escola e desempenho académico fraco; b) expressões de violência em textos escritos e desenhos; c) padrões de comportamento de ataque e intimidação crónicos; d) historial de problemas disciplinares; e) intolerância em relação à diferença e atitudes preconceituosas; entre outros. Da parte da vítima são evidentes sinais do sofrimento físico (e.g. cortes e nódoas negras, dinheiro perdido, roupas ou materiais estragados; queixas de dores de cabeça e de estômago; desordens alimentares; insónias e pesadelos; enurese nocturna), social (e.g. falta de entusiasmo para estar com amigos; perda de interesse em actividades de tempos livres; relutância em ir à escola) e psicológico (e.g. ansiedade e mudanças de humor; explosões de fúria; comportamentos destrutivos ou autodestrutivo; apatia e depressão; hipersensibilidade as críticas (Pereira et al., 2008).

Uma nota para a intervenção
Diversos autores realçam o bullying como um problema relacional, sugerindo que estes comportamentos emergem numa dinâmica interpessoal complexa, e não do problema de uma criança que é agressiva e outra que não sabe defender-se. Por isto, a intervenção no fenómeno do bullying deve promover competências interpessoais das crianças e jovens, para a construção de relações saudáveis no presente e no futuro (Pepler et al., 2008). Neste sentido, é importante intervir com a vítima e com o agressor, na compreensão das dinâmicas interpessoais e das competências pessoais e sociais de cada um. No que respeita aos agressores, a intervenção terá o desafio de redireccionar o potencial de liderança da criança, das estratégias de bullying para competências positivas. Sob esta premissa algumas perspectivas defendem a importância de intervenções que, para além da consequência negativa pelo comportamento de abuso, incluam a formação sobre o tipo de respostas mais adequadas naquela situação. A título de exemplo, podemos encorajar os agressores a lerem histórias, verem um filme, e escreverem/discutirem sobre como as agressões podem magoar o outro, ou mesmo ser escolhidos para implementar programas anti-bullying em anos escolares mais precoces (Pepler et al., 2008). Com estas estratégias estamos a potenciar as capacidades de liderança dos agressores, transformando-as em competências positivas, e ao mesmo tempo a proporcionar-lhes um papel e estatuto no contexto escolar. A intervenção com as vítimas deve enraizar-se na base do problema relacional, i.e. o facto da criança estar a experienciar abuso por parte do(s) agressor(es) e não estar, na maioria das vezes, a receber suporte social dos outros que testemunham as agressões ou de adultos que desconhecem o problema. Neste caso deve ajudar-se as crianças a desenvolverem relações de apoio e confiança com os pares e os adultos. Alguns professores já utilizam estratégias com este objectivo, designadamente a promoção do trabalho a pares, a criação de grupos de suporte, tutorias, ou mesmo através da exploração de oportunidades para que a vítima possa demonstrar as suas competências e talentos. No entanto, é essencial analisar a situação em rigor, pois muitas vezes estas crianças têm dificuldades no âmbito das competências sociais e de assertividade, na regulação das suas emoções e/ou internalização dos problemas; e apostar no suporte consistente da comunidade educativa, de professores, psicólogos, pais, funcionários e colegas.
Para além dos agressores e das vítimas, os espectadores do bullying desempenham um papel crucial neste fenómeno, uma vez que lhes pode ser possível impedir ou interromper uma situação de abuso e humilhação. Isto porque o reforço social do comportamento dos agressores (e.g. rir, fazer troça) pode manter e/ou aumentar a violência (Haber & Glatzer, 2007). Existem já alguns programas de intervenção centrados na acção directa do espectador, e que assentam no valor da responsabilidade social e do papel desempenhado por cada um quando assiste a uma situação de bullying (Craig et al., 2000). Nestas intervenções são realizados treinos de competências sociais na reacção a determinada situação, p.ex. impedir o abuso, ensaiar formas de intervir, reflectir sobre a questão do desequilíbrio de poder.

Algumas soluções:
Agressores:
- redireccionar o potencial de liderança das estratégias de bullying para competências positiva (encorajando-os a lerem histórias, verem um filme, e escreverem/discutirem sobre como as agressões podem magoar o outro, ou mesmo ser escolhidos para implementar programas anti-bullying em anos escolares mais precoces);
Vítimas:
- ajudar a desenvolverem relações de apoio e confiança com os pares e os adultos (promovendo o trabalho a pares, a criação de grupos de suporte, tutorias, ou exploração de oportunidades para que a vítima possa demonstrar as suas competências e talentos).

O papel dos adultos é também essencial na intervenção na problemática do bullying. Por um lado, na promoção de um ambiente responsável, seguro e encorajador, que permita à criança manifestar-se contra o bullying e; por outro lado, na modelagem de comportamentos adequados. A título de exemplo e, de acordo com alguns autores, é essencial que os adultos desencorajem a estruturação de grupos de crianças agressivas e potenciais agressores, sob o risco de serem potenciados ciclos de violência e bullying (Craig et al., 2000). Paralelamente, parecem existir benefícios em ser o professor a criar grupos de trabalho dentro da sala de aula, para a promoção do equilíbrio entre competências e dificuldades no seio do grupo. Através desta prática, os professores podem evitar os constrangimentos associados ao facto de algumas crianças nunca serem escolhidas pelos colegas.
Torna-se cada vez mais claro que a intervenção no fenómeno do bullying deve contemplar diversos intervenientes: as vítimas, os agressores e os espectadores. O nosso papel, enquanto adultos e educadores, deve centrar-se na promoção de um desenvolvimento social e emocional saudável. Na acção e intervenção sob este pressuposto, estaremos a construir bases sólidas para o estabelecimento de relações positivas entre as crianças, que perdurem o resto das suas vidas.

Bibliografia
Haber,J. & Glatzer,J. (2007). Bullying: manual anti agressão. Proteja o seu filho de provocações, abusos e insultos. Alfragide: Casa das Letras.
Olweus, D. (1978). Aggression in the schools: Bullies and whipping boys. Washington: DC, Hemisphere.
Smith, P. K., Morita, Y., Junger-Tas, J., Olweus, D., Catalano, R., & Slee, P. (Eds.) (1999). The nature of school bullying: A cross-national perspective. London: Routledge.
Pepler, D., Jiang, D., Craig, W., & Connolly, J. (2008). Developmental trajectories of bullying and associated factors. Child Development, 79, 325-338.
Craig, W. M., Pepler, D. J., & Atlas, R. (2000). Observations of bullying on the playground and in the classroom. International Journal of School Psychology, 21, 22-36.
Pereira, A.I., Goes, A.R.,Ferreira,A.J.,Silva,C.F.,Rijo,D.,Barros,L.,Nossa,P. (2008). Trabalhar para o Sucesso Escolar - Manual para Técnicos. Alfragide:Texto Editores.

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