ANSIEDADE E DEPRESSÃO TENDEM A AUMENTAR NOS DESEMPREGADOS COM MAIS DE 50 ANOS

30 abril 2017
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Author :   Rita Borges das Neves
Citar ARTIGO: Borges das Neves, R. 2011. Ansiedade e depressão tendem a aumentar nos desempregados com mais de 50 anos. Revista Segurança Comportamental, 4, 28-29 Rita Borges das Neves | Mestre em sociologia da saúde Universidade do Minho. Doutoranda em sociologia na UM em colaboração com o Oxford Institute of Ageing –University of Oxford

A geração mais velha de desempregados, percepciona a falta de controlo do seu próprio percurso de vida. Obrigados a sair do mercado de trabalho ainda antes da idade regulamentada, traz sentimentos de fragilidade, inutilidade e até, nalguns casos, de deterioração da sua auto-imagem.

Desde maldição a bênção que confere sentido à própria vida, muitos têm sido os entendimentos sobre o trabalho discutidos por pensadores tão diversos como Aristóteles, Marx, Weber, Arendt ou Veblen
Mas foram Jahoda, Lazersfeld e Zeisel (1933) que conduziram em Marienthal, na Alemanha, o trabalho empírico seminal na exploração das consequências do desemprego no bem-estar. De acordo com as observações em Marienthal, o desemprego potencia sentimentos depressivos, como auto-depreciação, desesperança e sensação de inutilidade já que constitui um momento de ruptura e de perturbação. O desemprego pode trazer não só privação material, mas também psicossocial. É que, nas sociedades actuais, e para uma classe de assalariados, este assume-se como o garante da subsistência e como metrónomo dos ritmos diários, um locus de formação e consolidação de redes pessoais, de configuração identitária e estatutária (Jahoda et al., 1933).
Outros trabalhos mais recentes têm evidenciado os efeitos deste evento na saúde mental e física. Avançadas técnicas de meta-análise, que permitem o cruzamento de várias bases de dados, indicam que o desemprego efectivamente aumenta o risco de morbilidade e de mortalidade (Paul & Moser, 2009; McKee-Ryan et al., 2005; Paul 2005).
Os trabalhadores mais velhos (na literatura os maiores de 50 anos) possuem características que podem torná-los menos apelativos aos olhos dos empregadores e mais vulneráveis a discriminação aquando da procura de (novo) emprego (Ilmarinem, 2010; Loretto & White, 2006). Acresce ainda a indisponibilidade do mercado de trabalho para a absorção de toda a mão-de-obra disponível. A reintegração no mercado de trabalho pode, portanto, ser deveras problemática para este estrato populacional e conduzir a processos de desemprego de longa ou muito longa duração.
Pouco se conhece da experiência de desemprego em activos mais velhos em Portugal, contudo, sabe-se que este número tem vindo a aumentar e, em 2010 perto de 20% dos portugueses entre os 45 e os 54 anos e 10,1% entre os 55 e os 64 anos estavam desempregados (Pordata, 2011). A reforma antecipada ou pré-reforma (com prejuízo do valor da prestação), é muitas das vezes a única estratégia encontrada por estes desempregados e mesmo uma prática fomentada por alguns países no sentido de baixar o número de desempregados nesta faixa etária (Casey & Laczko, 1989). Desta feita as estatísticas oficiais podem deixar escapar a verdadeira amplitude do problema, contabilizando como reformados aqueles que de facto são desempregados desencorajados.
Um outro factor que não pode ser desconsiderado é o risco de problemas de saúde que a idade acarreta. Estes são particularmente óbvios no caso de indivíduos que tenham acumulado desvantagens ao longo da vida com reflexos no capital de saúde (ex. baixa escolaridade, baixos rendimentos, profissões desgastantes e fracas condições habitacionais, estilos alimentares, tabagismo e alcoolismo ou outros comportamentos de risco).
Considerando os impactos descritos do desemprego ao nível do bem-estar, bem como as especificidades dos indivíduos com 50 e mais anos, importa conhecer melhor a realidade dos desempregados e explorar até que ponto o desemprego afecta a vida e a saúde dos trabalhadores mais velhos.
Foi por isso conduzida uma primeira análise compreensiva com ex-trabalhadores de empresas do sector da metalurgia. O encerramento destas fábricas no concelho de Braga ocorre pouco depois do início da crise económica de 2008 e lança no desemprego centenas de trabalhadores. Dez homens entre os 55 e os 64 anos de idade, desempregados há menos de 12 meses, e que exerciam sobretudo tarefas manuais, foram convidados a falar sobre o seu percurso de vida bem como sobre o desemprego. Foi também aplicado um instrumento de medição da saúde mental, o SF32. V2.
Os dados apontam os efeitos negativos do desemprego no bem-estar económico, psicológico e social. Os cortes que sofrem nos rendimentos obrigam a um ajuste na gestão diária que, no caso de famílias sem grandes poupanças e com entradas de dinheiro mais baixas, passa a obedecer a uma lógica de racionamento, mesmo ao nível dos produtos e serviços considerados de primeira necessidade, como sejam a alimentação, o aquecimento ou os cuidados médicos e/ou medicamentosos.
É unânime entre os entrevistados o entendimento do desemprego como fim da vida activa em virtude da pouca procura e da discriminação etária que subsistem no mercado de trabalho. Este entendimento desmoraliza severamente os desempregados e inibe as estratégias de procura de emprego. A procura da pré-reforma ou reforma antecipada é a possibilidade percebida como mais viável. A impossibilidade de controlarem o seu próprio percurso, obrigados a sair do mercado de trabalho ainda antes da idade regulamentada, traz sentimentos de fragilidade, inutilidade e até, nalguns casos, de deterioração da sua auto-imagem.
Contudo, alguns apontam o desemprego como um alívio das duras condições de trabalho. A sensação de alívio sobrepõe-se ao desespero e à ansiedade sobretudo nos casos em que existe maior conforto e estabilidade material e económica. A possibilidade de dedicar o seu tempo livre a outras actividades que não o trabalho, bem como à família é também factor que alivia a frustração e o mal-estar causado pela perda de trabalho pago.
Percebe-se, apesar das contrariedades trazidas pelo desemprego, uma tentativa de manutenção de uma identidade positiva e ainda vinculada à profissão. Contudo o desemprego representa um processo de exclusão antecipada do mercado de trabalho e propicia a interiorização de um papel de excluído, com efeitos visíveis ao nível do bem-estar.
A reintegração no mercado de trabalho destes activos em empregos ajustados às suas competências e experiência, bem como à sua disponibilidade física e mental, deverá evitar o mal-estar que afecta estes desempregados e diminuir os riscos em termos de saúde a que esta franja populacional esta exposta.

Bibliografia
Casey, Bernard; Laczko, Frank (1989). Early Retired or Long-Term Unemployed?: The Situation of Non-working Men Aged 55-64 from 1979 to 1986. In Work, Employment & Society. 3 (4), 509-526.
Ilmarinen, Juhani E (2001). Aging workers. In Occupational and Environmental Medicine. 58 (8), 546 - 552.
Jahoda, M., Lazarsfeld, P. & Zeisel, H. (1933). Marienthal: The sociography of an unemployed community. (English translation). Chicago: Aldine.
Loretto, Wendy; White, Phil (2006). Population Ageing and Older Workers : Employers’ Perceptions, Attitudes and Policies“. In Population, Sapce and Place. 12, 341-352.
McKee-Ryan, F., Song, Z., Wanberg, C. R., & Kinicki, A. J. (2005). Psychological and physical well-being during unemployment: a meta-analytic study. The Journal of applied psychology, 90(1), 53-76.
Paul, K. I. (2005). The negative mental health effect of unemployment : Meta-analyses of cross-sectional and longitudinal data. Measurement. Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg.
Paul, K. I., & Moser, K. (2009). Unemployment impairs mental health : Meta-analyses. Journal of Vocational Behavior, 74(3), 264-282. Elsevier Inc. www.pordata.pt

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