PERCEPÇÃO DE SAÚDE E BEM-ESTAR NUMA AMOSTRA PORTUGUESA: APRESENTAÇÃO DE UM PROGRAMA DE INTERVENÇÃO EM RISCOS PSICOSSOCIAIS

30 abril 2017
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Author :   Ludovina Azevedo, Cecília Loureiro, Daniela Sousa, João Paulo Pereira, Maria João Pereira, Cátia Oliveira, Joaquim Almeida
Citar ARTIGO: Azevedo, L. et al. 2011. Percepção de Saúde e Bem-Estar numa amostra portuguesa: apresentação de um programa de intervenção em riscos psicossociais. Revista Segurança Comportamental, 4, 42-43 Ludovina Azevedo, Cecília Loureiro, Daniela Sousa, João Paulo Pereira, Maria João Pereira, Cátia Oliveira, Joaquim Almeida | ISMAI - Linha de Investigação em Psicologia da Saúde e Saúde Ocupacional (HOHP)

Embora a taxa de portugueses com stress, burnout e desordens emocionais seja alarmante, as experiências positivas no trabalho evidenciam efeitos directos na percepção de saúde e bem-estar. O programa Health Coaching tenta promover recursos pessoais, interpessoais e organizacionais.

Resumo
O artigo apresenta um programa português de Health Coaching, contextualizado na Psicologia da Saúde Ocupacional.

Prevenção de riscos psicossociais e psicologia da saúde ocupacional positiva
A actual legislação portuguesa (Lei n.º 102/2009), consonante com a Organização Mundial de Saúde (OMS; 2009) e a Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho (AESST, 2007), sublinha a necessidade da investigação científica no que concerne à emergência de riscos psicossociais. Os relatados como mais frequentes são a vulnerabilidade ao Stress, Burnout (síndrome de exaustão emocional, despersonalização e fraco sentido de realização profissional) e Desordens Emocionais, que repercutem influências negativas na adaptação dos trabalhadores, no seu equilíbrio trabalho/casa e na percepção de Bem-Estar (Pereira et al, 2010). De forma a evitar estes danos, a aplicação da psicologia positiva ao contexto ocupacional, denominada por Psicologia da Saúde Ocupacional Positiva, investiga variáveis que promovam organizações auto-sustentáveis, compostas por trabalhadores saudáveis. Entre essas variáveis, destacam--se o Engagement, Commitment, Empowerment, Satisfação e Qualidade de Vida e do Trabalho (Salanova & Schaufeli, 2009), factores que se relacionam mutuamente.
O Engagement é um estado de resiliência individual, coexistente com características mentais positivas, nomeadamente níveis elevados de energia, envolvimento e sentido de eficácia, que surgem como uma experiência de presença psicológica na realização das tarefas, em oposição ao Burnout (Maslach & Leiter, 2008). Frequentemente decorrendo do engagement, o commitment é entendido como o estabelecimento de um compromisso normativo e afectivo para com a organização laboral, desenvolvendo condições para a promoção da motivação intrínseca. A motivação apresenta um impacto de sustentabilidade para a organização uma vez que impulsiona o desenvolvimento de tarefas com autonomia e responsabilidade, factores por sua vez constituintes do empowerment. Assim sendo, a percepção deste construto encontra-se directamente envolvida no desenvolvimento da organização, e na percepção de Satisfação e Qualidade de Vida e do Trabalho (Sousa, 2009). Estas variáveis, ao centrarem--se na capacidade funcional do indivíduo e da sua felicidade, apresentam um impacto muito significativo na percepção de saúde e bem-estar, colmatando os riscos psicossociais (Pereira & Sousa, 2010).
Percepção de saúde e bem-estar na população portuguesa
Sequentemente e de forma a compreender os riscos psicossociais mais eminentes na cultura organizacional portuguesa e os factores de adaptação mais procurados pelos respectivos trabalhadores, analisou-se estatisticamente uma amostra de 899 portugueses (Azevedo, 2010).
Essa análise concluiu que a percepção de um aumento da sobrecarga laboral prediz o desenvolvimento de riscos psicossociais (Azevedo, 2010)., nomeadamente, a vulnerabilidade ao stress, burnout e desordens emocionais, por sinal, também bastante dependentes da vulnerabilidade ao stress. Contrariamente, o engagement mostrou ser um forte indicador da percepção de saúde e bem-estar nos portugueses, e ainda um factor preditor do commitment e do empowerment (Azevedo, 2010). Tanto o engagement como o commitment revelaram--se como factores de adaptação ao fluxo laboral, desenvolvendo Satisfação com a Vida e o Trabalho (Azevedo, 2010). A satisfação evidenciou ainda um efeito preditivo da Qualidade de Vida e do Trabalho, que desenvolvem nos portugueses o aumento da percepção de saúde, bem-estar e mecanismos de coping (capital psicológico) (Azevedo, 2010).

Health coaching model: criação de um programa de avaliação e intervenção em riscos psicossociais
A partir destes resultados, o Health Coaching surge como um programa de avaliação e intervenção em riscos psicossociais, procurando condições de desenvolvimento humano e organizacional, através da promoção de recursos pessoais, recursos que fomentem o equilíbrio Indivíduo-Trabalho e recursos que apontem para maiores índices do empowerment individual, colectivo e organizacional (Pereira et al, 2010). Nesse sentido, o programa investe em actividades que promovam o suporte social, a partir de técnicas dirigidas para as relações sociais funcionais, para canais abertos de comunicação e para a regulação e expressão de emoções positivas (Azevedo, 2010). Como complemento aos recursos pessoais destacados e visto que o engagement se apresentou como forte indicador de saúde mental, o Health Coaching incide também em dinâmicas que potencializam o alinhamento de valores e expectativas entre o trabalhador e a organização (Azevedo, 2010). Além disso e uma vez que o construto se revelou também como promotor do commitment e do empowerment, não faria sentido ignorar a probabilidade que o sentimento de identidade e congruência para com a organização, motiva os trabalhadores à continuidade de tarefas com vínculo e prazer, acarretando-lhes a percepção de eficácia, e sentimentos de absorção no trabalho (Azevedo, 2010). Desta forma, a percepção de engagement surge também no Health Coaching, como uma ferramenta a ser potencializada, objectivando o equilíbrio positivo na interacção trabalhador-trabalho, com repercussões no empowerment. Complementarmente e para que o empowerment seja verdadeiramente eficiente, o modelo investe em estratégias de gestão do stress e promoção da eficácia (Azevedo, 2010).

Conclusão
Apesar da taxa de portugueses com stress, burnout e desordens emocionais ser alarmante, constatou-se que as experiências positivas no trabalho evidenciam efeitos directos na percepção de saúde e bem-estar (Azevedo, 2010). Assim, o Health Coaching, que surge a partir do estudo desenvolvido com uma amostra portuguesa de largo espectro, tenta promover recursos pessoais, interpessoais e organizacionais, desenvolvendo efeitos positivos na dinâmica indivíduo-organização-relação trabalho/casa.
Em forma de conclusão, sublinha-se que o modelo foi aplicado em docentes, técnicos de saúde e polícias de segurança pública, ficando evidenciado na avaliação da sua intervenção, a forte possibilidade do Health Coaching criar condições para que o local de trabalho signifique para os portugueses um local de prazer e potencialização de saúde (Loureiro, 2010).

Bibliografia
Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho (2007). Expert forecast on emerging psychosocial risks related to occupational safety and health. Luxemburgo: Office for Official Publications of the European Communities, AESST.
Azevedo,L. (2010). Promoção da Saúde e Bem-Estar em Local de Trabalho: criação de um programa de avaliação e intervenção em riscos psicossociais. Dissertação de Mestrado no âmbito da Psicologia Clínica e da Saúde. Ismai: Castêlo da Maia.
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Loureiro,C. (2010). Percepção da Saúde Psicológica face ao fluxo/sobrecarga de trabalho na polícia de segurança pública: resultados de uma intervenção com base em modelos da Psicologia da Saúde Ocupacional Positiva. Dissertação de Mestrado no âmbito da Psicologia Clínica e da Saúde. Ismai: Castêlo da Maia.
Maslach, C. & Leiter, M. (2008). Early Predictors of Job Burnout and Engagement. Journal of Applied Psychology, Vol. 93, No. 3, 498 – 512.
Organização Mundial de Saúde (2009). Raising awareness of stress at work in developing countries: a modern hazard in a traditional enviornement: advice to emplyers and worker representatives. Protecting Worker’s Health series, 6. Geneva: World Health Organization.
Pereira, J., Pereira, M., Azevedo,L. & Loureiro,M. (2010). Vulnerabilidade ao Stress, Desordens Emocionais, Qualidade de Vida e Bem-estar em Cuidadores Formais de Idosos Institucionalizados. VII Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia. Universidade do Minho: Braga.
Pereira, J., Pereira, M., Loureiro, M., Sousa, D., Lopes, P. & Azevedo, L., (2010). Modelo de Psicologia Positiva no Trabalho. Ismai: Castêlo da Maia.
Pereira, J. & Sousa, D., (2010). Quality of life and Job Satisfaction:Multicultural Perspective. 9th Congerence of the European Academy of Occupational Health Psychology. Pontificial Urbaniana University: Rome.
Salanova, M. & Schaufeli, W.B. (2009). El Engagement en el trabajo: Cuando el trabajo se convierte en pasión. Madrid: Alianza Editorial.
Sousa,D. (2009). Qualidade de Vida e Satisfação no Trabalho: Perspectiva Multicultural. Dissertação de Mestrado no âmbito da Psicologia Clínica e da Saúde. Ismai: Castêlo da Maia.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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