STRESS, BURNOUT E DESORDENS EMOCIONAIS EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE DE ONCOLOGIA

30 abril 2017
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Author :   João Paulo Pereira, Joana Rodrigues, Maria João Cunha, Santiago Gascon
Citar ARTIGO: Paulo Pereira, J. et al. 2011. Stress, Burnout e Desordens Emocionais em Profissionais de Saúde de Oncologia. Revista Segurança Comportamental, 3, 12-14 João Paulo Pereira, Joana Rodrigues, Maria João Cunha, Santiago Gascon | Instituto Superior da Maia & Universidade de Zaragoza

Os profissionais de saúde de oncologia apresentam maior percepção de vulnerabilidade ao stress. Por isso, desenvolvem um certo distanciamento, evitando envolver-se emocionalmente com os doentes. Os mecanismos de defesa que adoptam trazem benefícios para a organização, para eles próprios e para os doentes.  

INTRODUÇÃO
A comunidade científica tem vindo a direccionar cada vez mais a sua atenção para os estudos sobre o stress, visto que a evolução para quadros crónicos, como o burnout é cada vez mais uma regra e não uma excepção. Tal manifesta-se no profissional em exaustão emocional, diminuição progressiva do envolvimento e da percepção de eficácia, resultando frequentemente em desmotivação. Embora tais indicadores estejam presentes noutros profissionais, considera-se, os profissionais de saúde como um grupo de risco extremo. As consequências destas experiências nos profissionais de saúde, repercutem-se não só ao nível da qualidade dos serviços prestados aos doentes, mas também na qualidade de vida e bem-estar dos próprios profissionais (Parreira, 2006).
Na presença deste preocupante cenário, e porque os profissionais de saúde, sobrevêm como tendo elevado potencial a desenvolver burnout, iniciou-se este estudo, tendo como objectivo contribuir para uma melhor compreensão acerca da forma como este é experienciado e quais as reais consequências para a saúde destes profissionais. Os profissionais de saúde estão diariamente sujeitos a inúmeras situações desgastantes, decorrentes do seu ambiente de trabalho e do contacto com os pacientes e seus familiares. Contudo acreditamos que em alguns serviços, como é o caso de Oncologia, estes encontram-se ainda mais expostos, devido às exigências emocionais inerentes ao processo de detecção, diagnóstico, prognóstico da doença, e à difícil tomada de decisão relativamente ao tratamento.

MÉTODO
O presente estudo, classifica-se como descritivo transversal, tendo como amostra profissionais de saúde (médicos/as, enfermeiros/as e auxiliares de acção médica), divididos em dois grupos, sendo que um deles exerce a sua profissão em serviços de oncologia (n= 75), e outro em serviços de cirurgia, urgência e clínica geral (n= 92). Responderam a um questionário que incluía dados sócio-demográficos, a Escala das Seis Áreas da Vida de Trabalho (Leiter & Maslach, 2000), o Inventário de Burnout (Maslach Burnout Inventory: MBI) (Maslach & Jackson, 1996) e o Questionário de Vulnerabilidade ao Stress (23 QVS) (Vaz Serra, 2000). O grupo de profissionais de oncologia (g1), apresenta uma média de idades de 37,2 anos, maioritariamente de sexo feminino, com relação afectiva estável, e exerce a sua profissão em média há 7,8 anos. O grupo de profissionais de outros serviços (g2), apresenta uma média de idades de 34,2 anos, maioritariamente do sexo feminino, com relação afectiva estável, e exerce a sua profissão em média há 9,2 anos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Através de um estudo quase-experimental pretendeu-se verificar o efeito do fluxo de trabalho, mediado pelo engagement, sobre a vulnerabilidade ao stress e burnout. Os resultados obtidos revelam:
1. Presença de indicadores de vulnerabilidade ao stress e burnout nos profissionais de saúde. Embora presentes em ambos os grupos, a vulnerabilidade ao stress nos profissionais de oncologia apresenta valores mais elevados do que no outro grupo, levando-nos a sugerir que o facto da sua actividade profissional estar intimamente ligada a situações de risco e processos de decisão rápidos os predispõe a desenvolver uma maior vulnerabilidade ao stress.
2. Podemos ainda verificar uma menor percentagem de quadros de burnout nos profissionais de saúde de oncologia comparativamente aos outros profissionais de saúde. De notar que embora a vulnerabilidade ao stress seja um factor desencadeador de quadros de burnout, como iremos perceber, poderão haver outros factores que estão a influenciar estes valores.
Como nos apresenta o esquema, no g1 existem maiores índices de vulnerabilidade ao stress e burnout. Por sua vez, a literatura revela que o engagement, é um importante recurso facilitador na gestão da vulnerabilidade ao stress e do burnout, face à influência da percepção do fluxo de trabalho. No entanto, se por um lado o g2 parece apresentar recursos (engagement) que lhes permite lidar com as exigências de trabalho, no g1, o desenvolvimento destas estratégias não parece ser tão evidente. Assim, no g1, o engagement ou pelo menos a percepção de envolvimento dos profissionais de saúde, apresenta-se como factor mediador entre a percepção de fluxo de trabalho e ambas as variáveis de burnout e vulnerabilidade ao stress, que potencia a perturbação e exaustão emocionais.
Ao analisarmos os resultados referentes ao engagement, somos levados a sugerir que são elementos preocupantes aqueles que observamos nos profissionais de saúde de oncologia, na medida em que nesta população o engagement se revela como um factor potenciador de burnout e vulnerabilidade ao stress.
Assim, embora o engagement caracterize um estado positivo oposto ao burnout (Schaufelli, Salanova, González-Romá & Bakker, 2001), os resultados obtidos permitem verificar que nos profissionais de oncologia este se apresenta como uma dimensão negativa. Assim, estes profissionais revelam uma forte motivação intrínseca, patente pelo esforço (energia), dedicação, entusiasmo e envolvimento que empreendem junto dos seus pacientes, procurando a terapêutica mais eficaz para o quadro clínico evidenciado. No entanto, tal implicação psicológica com o seu trabalho, parece levar os profissionais de saúde de oncologia a um elevado investimento de recursos pessoais (cognitivos, emocionais e físicos) para persistir face à adversidade, não percepcionando a perniciosidade de tal situação, que pode potenciar a vulnerabilidade ao stress e o burnout. Assim, perante a diminuição efectiva dos seus recursos, não tendo a capacidade de os repor, o engagement apresenta-se com uma dualidade positiva (motivação) e negativa (vulnerabilidade ao stress e burnout).

CONCLUSÃO
Os profissionais de saúde de oncologia apresentam maior percepção de vulnerabilidade ao stress e ao burnout, estando expostos a exigências específicas, e reconhece-se por isso que necessitam de uma especial atenção. Na realidade como verificamos no presente estudo, os profissionais de saúde de oncologia devido à sua elevada implicação motivacional, física, cognitiva e emocional com o seu trabalho, com os seus doentes e seus familiares, não adoptam mecanismos que lhes permitam fazer face ao contínuo desgaste imposto por tal dinâmica. Assim, o ideal é que o trabalho seja fonte de satisfação e de desafio, trazendo benefícios tanto para a pessoa como para a organização.
Para finalizar, Leiter (2009) refere que não é apenas o trabalho e especificamente o fluxo de trabalho o responsável máximo pelo burnout, pois se assim fosse, seria fácil resolvermos esta situação, diminuindo a carga de trabalho. O que acontece é que as pessoas podem-se envolver com seu trabalho, mesmo quando enfrentam grandes exigências. E podem ainda experimentar o burnout, enquanto gerem uma carga de trabalho relativamente moderado. O ponto crítico é saber se eles acreditam no trabalho que fazem e se trabalham num local onde acreditam neles. Por sua vez, os resultados da presente investigação revelam uma preocupante questão: Acreditando os profissionais de saúde de oncologia no trabalho que fazem, trabalhando num local e com pessoas que acreditam neles, qual o ponto crítico para a perniciosa e excessiva implicação/engagement no trabalho?

«Os profissionais de saúde são efectivamente susceptíveis ao stress, contudo há evidências significativas de que os profissionais de saúde de oncologia estão mais vulneráveis.»

IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
Com este estudo conseguimos obter informação importante para podermos proceder a um plano de avaliação e intervenção em riscos ocupacionais, potenciando o desenvolvimento de estratégias de coping que permitam uma maior adaptação às situações vividas diariamente, bem como promoção de “encontros”/workshops, tertúlias em que possam ser abordados temas que contribuam para melhoria da qualidade de vida dos profissionais e dos serviços prestados, especialmente na área da oncologia, sendo este um grande e ambicioso passo. Outro dos objectivos deste estudo foi fomentar o interesse para futuras investigações com outros profissionais que se poderão encontrar em situações idênticas de risco, como os dos serviços de urgências, das unidades de cuidados intensivos e do INEM.

Bibliografia
Leiter, M. & Maslach, C., Six Areas of Worklife: A Model of the Organizational Context of Burnout. Journal of Health and Human Services Administration, 21, 1999, pp.472-89.
Maroco, J. & Tecedeiro, M., Inventário de burnout de Maslach para estudantes portugueses. Psic., Saúde & Doenças, vol.10, no.2, 2009, pp.227-235.
Parreira, A., Gestão do Stress e da Qualidade de vida, Um guia para a Acção, 2006, Lisboa: Monitor.
Shaufeli, W. B., Leiter, M. P., & Maslach, C., Burnout: Thirty-five years of research and practice. Career Development International, 14, 2009, pp.204-220.
Salanova, M., Schaufeli, W., Martinez, I. & Bresó, E., How obstacles and facilitators predict academic performance: the mediating role of study burnout and engagement. Anxiety, Stress & Coping, 2009, pp.1-18, First Article.
Serra, V. , O Stress na Vida de Todos os Dias., 2002, Coimbra: Minerva Coimbra.

  • RASTREIO DA PRESENÇA DE ESTRESSE, RESILIÊNCIA E COPING ENTRE TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA QUÍMICA, NO BRASIL

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    Este estudo teve como objetivo verificar a ocorrência de estresse e relações com coping e resiliência, fazendo a relação com dados epidemiológicos da população. Observou-se ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse. A maior parte da população apresenta nível de estresse ou de estresse elevado. Existe correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Existe correlação entre estratégias disfuncionais e estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.

  • SISTEMA CEREBRAL, HÁBITOS, RESPIRAÇÃO E STRESSE

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    Para cada ação realizada pela primeira vez, o cérebro constrói um “caminho neuronal”. Perante a repetição dessa ação, o cérebro vai entender que aquela ação é necessária, sendo desta forma reforçado o caminho neuronal, através da passagem de impulsos elétricos/químicos recorrentes e constantes, tornando-se um automatismo, passando a informação do neocórtex para o cérebro dos mamíferos inferiores ou réptiliano, responsáveis pelos automatismos e hábitos. Existe um circuito neuronal que causa ansiedade quando respiramos de uma determinada forma e tranquilidade quando respiramos de outra. É neste ponto que entra a reeducação respiratória. Um indivíduo reeducado é um indivíduo com mais vitalidade e capacidade de resposta aos desafios e pressões externas, como por exemplo perante um contexto causador de stresse.

  • O COMPORTAMENTO HUMANO EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA

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    O comportamento humano em situações de emergência é estudado não só por modelos de natureza qualitativa, mas também por modelos matemáticos que tentam recriar a movimentação pedonal. Atualmente ainda existem variáveis desconhecidas, tais como por exemplo condições psicossociais (stresse e tensão) que ocorrem no decurso na emergência. Em Portugal, está em desenvolvimento um protótipo utilizando Jogos Sérios, focando-se na formação e treino dos ocupantes em ambiente de simulacros de evacuação virtuais, com o objetivo de bombeiros e outras forças de emergência desenvolverem planos e estratégias mais eficientes em evacuação.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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