SER BOMBEIRO: IMPLICAÇÕES PARA A SUA SAÚDE

30 abril 2017
(0 votos)
Author :   Dália Marcelino
Citar ARTIGO: Marcelino, D. 2011. Ser Bombeiro: Implicações para a sua saúde. Revista Segurança Comportamental, 3, 16-18 Dália Marcelino | Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde. Instituto Piaget de Almada – ISEIT. Delegação do Seixal da Cruz Vermelha

A vivência das experiências traumáticas, pode constituir uma ameaça para a vida, segurança e bem-estar do próprio bombeiro.

A saúde mental e o bem-estar físico e emocional dos bombeiros pode ser comprometido pelo contexto onde desenvolvem o seu trabalho?!

“Sou Bombeiro!”
Mas afinal o que é ser bombeiro? Segundo o Artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 241/2007 do Diário da República, bombeiro é “o indivíduo que integrado de forma profissional ou voluntária num corpo de bombeiros, tem por actividade cumprir as missões deste, nomeadamente a protecção de vidas humanas e bens em perigo, mediante a prevenção e extinção de incêndios, o socorro de feridos, doentes ou náufragos, e a prestação de outros serviços previstos nos regulamentos internos e demais legislação aplicável” (DR, 1.ª série – N.º 118, 21 de Junho de 2007, pág. 3925). Mas ser bombeiro é só isto? Não! Ser bombeiro é mais do que uma profissão, é sem dúvida uma vocação! Bombeiro é aquele que fica ao dispor de conhecidos e desconhecidos que possam precisar de ajuda, em vez de ir passear, jantar ou dormir uma noite tranquila. É escolher ir para a rua com frio e chuva, é correr riscos e enfrentar o medo e o perigo, é ter espírito de sacrifício, dedicação e muita vontade de ajudar. Ser bombeiro é também dar conforto e uma palavra de apreço ao outro, é transmitir segurança e tranquilidade, mesmo no meio dos escombros. Não existe nada mais “humano” do que proteger ou salvar a vida do outro. E os bombeiros sabem disso melhor que ninguém, porque investem corpo e alma numa profissão de alto risco.
Uma das principais características desta actividade é a incerteza. Começa no momento em que toca o telefone, atenua ou agrava-se quando são fornecidos os dados e o motivo da chamada, prolonga-se durante o percurso até ao local, onde desaparece ou aumenta de acordo com a situação. E no local, por vezes, surge o confronto com situações novas, não protocoladas e até “nunca vistas”, onde têm de ser tomadas decisões rápidas e eficazes. É incontestável que estes profissionais, prestam cuidados em ambientes não familiares e perigosos, onde a sua presença é por vezes considerada inoportuna e onde a sua performance profissional é posta à prova e avaliada por curiosos e familiares. Além disso, são ainda, frequentemente, submetidos a abusos na solicitação dos seus serviços para situações que não se enquadram no contexto da sua profissão.

«(...) actualmente sabe-se que os níveis de stress dos operacionais de socorro tem aumentado nas últimas décadas, tendo não só implicações para os próprios, como também custos directos e indirectos para as organizações e repercussões para as vítimas.»

As ocorrências adquirem formas diversificadas, nem sempre permitindo uma adaptação adequada do profissional, uma vez que constantemente estão expostos a incidentes que envolvem a dor humana, como os acidentes de viação, paragens cárdio-respiratórias, e situações que envolvem crianças (Van der Ploeg, Kleber, 2003). São solicitados para tratar e lidar com situações complicadas, e embora algumas possam ser recompensadoras, outras poderão ser potencialmente traumatizantes e até constituir uma ameaça para a vida ou segurança do próprio bombeiro (Smith & Roberts, 2003). Estas situações são caracterizadas pelos bombeiros como bastante traumáticas e com influência significativa nas suas vidas, no entanto, são relutantes em procurar ajuda de um especialista ou em fazer algum tratamento. Este facto poderá estar associado a crenças culturais, dado que durante muitos anos existiu a tendência de desvalorizar os problemas de saúde nestes profissionais, alguns deles mediados pelo stress. Concebia-se que este grupo profissional teria a competência de tratar dos outros, estando por si só imunes ao stress. No entanto, actualmente sabe-se que os níveis de stress dos operacionais de socorro tem aumentado nas últimas décadas, tendo não só implicações para os próprios, como também custos directos e indirectos para as organizações e repercussões para as vítimas (Bennett, Williams, Page, Hood, Woollard & Vetter, 2005) dado que tem sido bem determinada a relação entre a menor qualidade dos cuidados prestados e o grau de insatisfação e mal-estar dos profissionais.
Neste sentido, na última década tem-se assistido a um reconhecimento crescente da importância de avaliar as equipas de socorro na sua prática diária. Estudos recentes mostram que as tarefas operacionais e as exigências físicas e psicológicas são identificadas como fortes stressores (Sterud, Ekeberg, & Hem, 2006) tais como: a pressão temporal, a sobrecarga de responsabilidades, as exigências físicas, cognitivas e emocionais, as próprias condições e áreas de trabalho, os recursos muitas vezes limitados e as expectativas sempre elevadas. Igualmente, a constante e continuada exposição a incidentes de carácter traumático constitui uma fonte de preocupação e de stress (Smith & Roberts 2003). Esta exposição externa refere-se a factores físicos e psicossociais do ambiente de trabalho que causam uma exposição interna do corpo, provocando efeitos cumulativos que vão eliminando os recursos e tornando os sujeitos mais vulneráveis ao desenvolvimento de sintomatologia física e psicológica (Aasa, Brulin, Angquist & Barnekow-Bergkvist, 2005; Bennett, Williams, Page, Hood, Woollard & Vetter, 2005).

Fortes stressores:
- pressão temporal,
- sobrecarga de responsabilidades,
- exigências físicas,
- exigências cognitivas,
- exigências emocionais,
- condições e áreas de trabalho desfavoráveis,
- recursos muitas vezes limitados,
- expectativas sempre elevadas,
- constante e continuada exposição a incidentes,
- exposição a situações adversas.

Um dos problemas de saúde que tem merecido a atenção dos investigadores é a perturbação pós-stress traumático, na medida em que a incapacidade para responder e superar a vivência às experiências traumáticas, pode conduzir a uma ruptura do bem-estar (Marcelino & Figueiras, 2007). Estes profissionais estão susceptíveis a efeitos traumáticos posteriores como resultado do seu envolvimento secundário nas situações. Estudos realizados em diversos países indicam que a prevalência de sintomas de pós-stress traumático em operacionais de socorro é superior a 20% (Alexander & Klein, 2001; Sterud, Ekeberg & Hem, 2006). Mas a exposição a situações adversas aumenta também a probabilidade de se desenvolver outros diagnósticos, como ansiedade e depressão, burnout, dependência de substâncias, tais como tabaco, álcool e cafeína, fadiga, problemas cognitivos, problemas nas relações interpessoais e outros problemas de saúde (Smith & Roberts 2003).
Para além disso, este trabalho inclui ainda tarefas fisicamente exigentes, como a passagem das vítimas da cama para maca ou descer escadas com uma vítima na maca, o que tem contribuído para a presença de queixas de saúde, nomeadamente ao nível das lesões músculo-esqueléticas, como problemas com o pescoço, ombros e joelhos, e problemas de sono, cefaleias e outros sintomas somáticos (Aasa, Brulin, Angquist & Barnekow-Bergkvist, 2005).
Considerando a evidência de que a satisfação profissional e o bem-estar estão associados ao grau de stress experienciado durante o trabalho (Van der Ploeg & Kleber, 2003), e que à medida que aumenta a sintomatologia associada a incidentes críticos diminui o bem-estar, depreende-se que os diferentes tipos de exposições e exigências físicas e psicológicas poderão ser prejudiciais, a longo prazo, às diferentes estruturas do corpo. No entanto, é de salientar a importância das diferenças individuais (sexo, idade, personalidade, resiliência, etc.) e da experiência prévia perante uma situação, como chave determinante do impacto e intensidade da sintomatologia (Smith & Roberts, 2003; Marcelino & Figueiras, 2007). Isto é, se por um lado estes dados reforçam a ideia de que a saúde mental e o bem-estar físico e emocional dos bombeiros podem ser comprometidos pelo contexto onde desenvolvem o seu trabalho, por outro, é importante perceber que a exposição a estes incidentes também pode constituir uma oportunidade para desenvolver estratégias mais adequadas para enfrentar os desafios diários e proporcionar um crescimento pessoal, que naturalmente tem influência na vida dos bombeiros, perpetuando a antiguidade e eficácia na profissão.

Bibliografia
Aasa, U., Brulin, C., Angquist, KA. & Barnekow-Bergkvist, M.. Work-related psychological factors, worry about work conditions and health complaints among female and male ambulance personnel. Scandinavian Journal of Caring Sciences, 19 (3), 2005, pp. 251-258.
Alexander, D. & Klein, S., Ambulance personnel and critical incidents: impact of accident and emergency work on mental health and emotional well-being. British Journal of Psychiatry, 178 (1), 2001, pp. 76-81.
Bennett, P., Williams, Y., Page, N., Hood, K., Woollard, M. & Vetter, N., Associations between organizational and incident factors and emotional distress in emergency ambulance personnel. The British Journal of Clinical Psychology, 44 (pt 2), 2005, pp. 215-226.
Marcelino, D. & Figueiras, MJ., A perturbação pós-stress traumática nos socorristas de emergência pré-hospitalar: Influência do sentido interno de coerência e da personalidade. Psicologia, Saúde & Doença, 8 (1), 2007, pp. 95-106.
Smith, A. & Roberts K. , Interventions for post-traumatic stress disorder and psychological distress in emergency ambulance personnel: a review of the literature. Emergency Medicine Journal, 20, 2003, pp. 75-78.
Sterud, T., Ekeberg, O. & Hem, E. Health status in the ambulance services: a systematic review. BMC Health Services Research. 6, 2006, p. 82.

  • RASTREIO DA PRESENÇA DE ESTRESSE, RESILIÊNCIA E COPING ENTRE TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA QUÍMICA, NO BRASIL

    RASTREIO DA PRESENÇA DE ESTRESSE, RESILIÊNCIA E COPING ENTRE TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA QUÍMICA, NO BRASIL

    Este estudo teve como objetivo verificar a ocorrência de estresse e relações com coping e resiliência, fazendo a relação com dados epidemiológicos da população. Observou-se ausência de correlações entre determinado horário de trabalho e estresse. A maior parte da população apresenta nível de estresse ou de estresse elevado. Existe correlação negativa entre estresse e resiliência, indicando que quanto menor a resiliência maior o estresse, e correlação positiva entre resiliência e estratégias funcionais em coping. Existe correlação entre estratégias disfuncionais e estresse. Entre as estratégias disfuncionais predomina o fator “fuga e esquiva”.

  • SISTEMA CEREBRAL, HÁBITOS, RESPIRAÇÃO E STRESSE

    SISTEMA CEREBRAL, HÁBITOS, RESPIRAÇÃO E STRESSE

    Para cada ação realizada pela primeira vez, o cérebro constrói um “caminho neuronal”. Perante a repetição dessa ação, o cérebro vai entender que aquela ação é necessária, sendo desta forma reforçado o caminho neuronal, através da passagem de impulsos elétricos/químicos recorrentes e constantes, tornando-se um automatismo, passando a informação do neocórtex para o cérebro dos mamíferos inferiores ou réptiliano, responsáveis pelos automatismos e hábitos. Existe um circuito neuronal que causa ansiedade quando respiramos de uma determinada forma e tranquilidade quando respiramos de outra. É neste ponto que entra a reeducação respiratória. Um indivíduo reeducado é um indivíduo com mais vitalidade e capacidade de resposta aos desafios e pressões externas, como por exemplo perante um contexto causador de stresse.

  • O COMPORTAMENTO HUMANO EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA

    O COMPORTAMENTO HUMANO EM SITUAÇÕES DE EMERGÊNCIA

    O comportamento humano em situações de emergência é estudado não só por modelos de natureza qualitativa, mas também por modelos matemáticos que tentam recriar a movimentação pedonal. Atualmente ainda existem variáveis desconhecidas, tais como por exemplo condições psicossociais (stresse e tensão) que ocorrem no decurso na emergência. Em Portugal, está em desenvolvimento um protótipo utilizando Jogos Sérios, focando-se na formação e treino dos ocupantes em ambiente de simulacros de evacuação virtuais, com o objetivo de bombeiros e outras forças de emergência desenvolverem planos e estratégias mais eficientes em evacuação.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…