PRODUÇÃO, SEGURANÇA E AMBIENTE

30 abril 2017
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Author :   Paulo Granjo
Citar ARTIGO: Granjo, P. 2011. Produção, Segurança e Ambiente. Revista Segurança Comportamental, 3, 30-31 Paulo Granjo | Antropólogo. Instituto de Ciências Sociais – UL

Impactes ambientais calamitosos podem resultar directamente da subordinação da segurança aos custos e às “necessidades” de produção. Só as más experiências anteriores, a regulamentação e o controle exterior pode mudar este padrão comportamental nas empresas.

Existe um factor de risco industrial que, embora observável com frequência, raramente é objecto da atenção e reflexão por parte dos cientistas e técnicos: a subalternização da segurança aos objectivos de produção, quando estes são ameaçados.
O substancial silêncio acerca do problema talvez se deva às ressonâncias ideológicas que ele parece invocar, ao investimento técnico que é feito na normatividade preventiva e na análise de factores de segurança aparentemente mais refinados, ou no facto de a enfatização do problema poder ser desconfortável para as entidades que pagam investigações aplicadas. Ou a todas essas razões.
Contudo, se essa subalternização da segurança já é relevante quando estão em causa perigos para os trabalhadores e o equipamento, parece ocorrer com mais facilidade quando se espera que os danos que possa vir a causar afectem menos a empresa do que a qualidade ambiental à sua volta.
Numa das mais importantes fábricas portuguesas, que durante a laboração normal cumpre escrupulosamente as normas legais de segurança, pude verificar a frequente ocorrência de pressões hierárquicas para que os trabalhadores adoptassem procedimentos mais expeditos mas menos seguros, quando se tratava de manter ou aumentar os volumes de produção em situações técnicas adversas, de tentar evitar uma paragem de emergência que seria sensato realizar, ou de acelerar a reposição em funcionamento da maquinaria (Granjo, 2004). Mas verifiquei também que, embora uma avaria numa unidade de transformação de produtos comercialmente valiosos fosse de imediato reparada, uma outra poderia esperar meses pela sua resolução, caso ocorresse numa unidade com funções sobretudo ambientais, de que não resultem produtos comercialmente interessantes – como, por exemplo, na recuperação de enxofre. Até que a reparação fosse agendada, sub-produtos inúteis e sabidamente poluentes eram simplesmente queimados para a atmosfera.

«(...) uma avaria [nos] produtos comercialmente valiosos fosse de imediato reparada, uma outra poderia esperar meses (...) por exemplo, na recuperação de enxofre.»

Noutros casos, impactes ambientais calamitosos podem resultar directamente da subordinação da segurança aos custos e às “necessidades” de produção. Basta recordarmos que a explosão da plataforma Deepwater Horizon, de que resultou o recente derrame petrolífero no Golfo do México, se deveu à falha de um mecanismo de segurança (blowout preventer – BOP) que, segundo estudos anteriores, deveria existir em duplicado, como forma de segurança redundante. Não obstante essa vulnerabilidade, decidiu-se continuar as perfurações mesmo depois de ter falhado um dos comandos desse BOP (que possui um eléctrico e outro hidráulico), em vez de se parar para efectuar a reparação. O último comando desse único BOP, por fim, falhou.
Outras vezes, ainda, não é fácil descortinar o primado da produção e do lucro, sob a aparência natural das calamidades que vão ocorrendo. O caso mais discutido será o das alterações climáticas induzidas pela acumulação de emissões de carbono; mas, agravados ou não por elas, outros casos têm responsáveis menos fluidos e universais. São deles exemplos (Lopes, on-line) as cheias ocorridas em 2007 e 2008 no vale do Zambeze, que afectaram 300.000 pessoas e provocaram mortes, amplos reassentamentos de populações e avultados custos em salvamentos e perdas agrícolas. Essas cheias ter-se-ão devido tanto às chuvas fortes quanto ao modelo de exploração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa que, ao manter quotas de água elevadas até aos meses anteriores à época das chuvas (a fim de maximizar a produção eléctrica), diminuiu substancialmente a margem de encaixe da barragem face a afluências hídricas cuja magnitude e calendário se têm tornado mais incertos, sob influência de incontornáveis alterações climáticas.
Pelo contrário, algumas grandes empresas viram-se na contingência de encarar de frente o problema que tenho vindo a expor, normalmente em resultado da sua experiência de múltiplos acidentes bastante onerosos em termos financeiros, humanos e de imagem pública. É o caso da BHP Billiton, resultante da fusão de duas empresas com um historial pouco abonatório a esse respeito e principal accionista da fundição de alumínio Mozal, perto de Maputo. Nessa fábrica, o princípio de «safety first, production second» é particularmente enfatizado e controlado no seu cumprimento (Granjo, 2008), mostrando a que ponto existe a consciência de que, a não ser assim, facilmente um tal princípio poderia ser invertido na prática, em resultado das pressões de gestão e de obtenção de resultados.

«(...) explosão da plataforma Deepwater Horizon, de que resultou o recente derrame petrolífero no Golfo do México, se deveu à falha de um mecanismo de segurança (blowout preventer – BOP) que, segundo estudos anteriores, deveria existir em duplicado, como forma de segurança redundante.»

Apesar disso, apesar do seu também declarado objectivo de «zero harm» sobre os trabalhadores e o ambiente, e apesar de utilizar as mais actualizadas tecnologias de produção e segurança, essa empresa vê-se actualmente envolta numa danosa polémica pública em torno de um by-pass a filtros de tratamento, para corrigir um defeito estrutural de construção. A empresa afirmava – e os dados da monitorização independente que está a ser realizada parecem dar-lhe razão (Mozal, on-line) – que as emissões durante o período de by-pass ficariam abaixo de todas as normas nacionais e internacionais. No entanto, a conjugação do discreto cumprimento, por parte da empresa, dos requisitos legais estritamente necessários para ver autorizada esta reparação, da desconfiança pública acerca da idoneidade das instituições estatais que a autorizaram, da tardia e desastrada informação que foi disponibilizada acerca dos níveis e riscos das emissões e de velhas desconfianças acerca do potencial poluidor da fábrica (Granjo, 2003) minou a sua credibilidade pública. No entanto, mais do que o próprio processo (interessante, mas ainda em curso), dever-se-á aqui salientar que o primado da segurança e da cautela, aplicado de forma tão enfática no interior da fábrica, se parece ter subordinado a considerações económicas e a uma lógica de “risco aceitável”, quando se tratou de equacionar o impacto externo de uma reparação onerosa.

Dados:
As cheias ocorridas em 2007 e 2008 no vale do Zambeze, que afectaram 300.000 pessoas e provocaram mortes, amplos reassentamentos de populações e avultados custos em salvamentos e perdas agrícolas.

Atentando nestes e em muitos outros exemplos, em diversos países e actividades económicas, verificamos que o risco de subordinação da segurança à produção e ao lucro não é pontual, mas um padrão bastante generalizado de comportamento empresarial – no qual é mais fácil cair quando os possíveis danos não irão ocorrer dentro das fronteiras da empresa, mas no ambiente e sociedade circundantes.
Um padrão grave e que só parece dominável nos casos (ainda excepcionais) em que as más experiências anteriores e a capacidade de delas tirar ilações conduzam uma empresa a uma política activa de combate a essa tendência, ou quando (conforme será bem mais generalizado) as empresas sejam a isso obrigadas, através de regulamentação e controle exterior.

Bibliografia
Granjo, Paulo, A Mina Desceu à Cidade – memória histórica e a mais recente indústria moçambicana, in Etnográfica, VII (2), 2003, pp. 403-428.
Granjo, Paulo, Homens e perigo na refinaria de Sines, in Trabalhamos Sobre um Barril de Pólvora. Lisboa, ICS, 2004
Granjo, Paulo “Dragões, Régulos e Fábricas – espíritos e racionalidade tecnológica na indústria moçambicana”, in Análise Social, 187, 2008, pp. 223-249.
Lopes, José (on-line) http://zapper.xitizap.com/xitizap%2037/ e #31, #32, #33, #34 e #43.
Mozal (on-line) http://www.xitizap.com/Mozal-monitoria-jan13-2011.pdf

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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