A IMPORTÂNCIA DO GRUPO PARA O BEM-ESTAR NO TRABALHO: UM ESTUDO COM POLÍCIAS

30 abril 2017
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Author :   Sónia P. Gonçalves
Citar ARTIGO: Gonçalves, S. P. 2011. A importância do grupo para o bem-estar no trabalho: um estudo com polícias. Revista Segurança Comportamental, 3, 40-41 Sónia P. Gonçalves |Psicóloga. Mestre em psicologia social e das organizações. Doutoranda em psicologia no ISCTE-IUL. Investigadora no Centro de Investigação e Intervenção Social. Professora assistente no Instituto Piaget.

Um grupo coeso pode ser encarado como um sistema de apoio óptimo em tempo de crise.

O local de trabalho, enquanto ambiente social, é caracterizado por uma série de exigências e acontecimentos partilhados e vivenciados por diferentes pessoas que estão organizadas em grupos, sendo por isso um contexto privilegiado para processos de troca social e de influência social. Processos estes que parecem ser ainda mais reforçados quando vividos em contextos exigentes. Se pensarmos no contexto de trabalho dos profissionais de polícia, verificamos que reúne um conjunto de características exigentes, a nível físico, psicológico e emocional. O grupo de trabalho assume um papel fundamental, dado estes profissionais se depararem com situações muito particulares durante o exercício da sua profissão, vividas em grupo, as quais produzem uma série de tensões psicológicas (Territo & Vetter, 1981). É uma das ocupações profissionais associada a níveis de stress mais elevados (e.g., Beehr et al., 1995). Os estudos que se debruçam sobre o papel da coesão grupal revelam que os colaboradores reportavam menos ansiedade e nervosismo quando trabalhavam em grupos coesos (Seashore, 1954), as pessoas lidam com o stress de forma mais eficaz quando estão inseridos em grupos coesos (Bowers et al., 1996) e parece existir uma relação inversa entre stress no trabalho e coesão de grupo (Keller, 2001). Os resultados destas investigações indicam que a coesão ajuda a promover a adaptação individual.
Um grupo coeso pode ser encarado como um sistema de apoio óptimo em tempo de crise porque:
(a) fornece apoio emocional, informação, ajuda instrumental e companheirismo;
(b) potencia a auto-estima individual;
(c) fornece apoio mútuo ou multilateral, o que constitui um mitigador do stress mais poderoso do que o apoio unilateral; e,
(d) os indivíduos estão a viver a mesma experiência e, por isso, compreendem melhor as emoções desencadeadas (Rodrigues, 2006).
Por exemplo, o estudo de Gonçalves, Silva e Lima (2006) revelou que o clima de segurança grupal dos colegas é um dos melhores preditores dos comportamentos seguros por parte dos trabalhadores.

Mas o que é a coesão de grupo?
O conceito de coesão grupal é conceptualizado de diferentes formas, como uma força social de ligação que obriga os membros do grupo a permanecer no mesmo (Festinger et al., 1950), ou como resultado da atracção interpessoal entre membros de um grupo (Lott & Lott, 1965). Outros autores consideram este constructo como multidimensional, incluindo os aspectos interpessoais e os aspectos de orientação para a tarefa, pode ser definido como “the strength of the bonds linking group members to the group, the unity (or we-ness) of a group, feelings of attraction for a specific group members and the group itself, and the degree to which the group members coordinate their efforts to achieve goals” (Forsyth, 1999, p.148).

E o que é o bem-estar no trabalho?
Embora reconhecendo diversidade de definições e operacionalizações de bem-estar no trabalho, neste artigo perspectiva-se o bem-estar no trabalho como bem-estar afectivo, evocando o trabalho de Warr (1990) pela sua sistematização teórica e empírica. O bem-estar afectivo no trabalho tem sido identificado como indicador de bem-estar psicológico (Daniels, 2000) e de saúde mental relacionada com o trabalho (Chambel, 2005). De acordo com Warr (1990), o bem-estar afectivo no trabalho pode ser conceptualizado com base em duas dimensões ortogonais: prazer e activação associado ao trabalho que se organizam em quatro quadrantes: ansiedade (elevada activação e baixo prazer), entusiasmo (elevada activação e elevado prazer), depressão (baixa activação e baixo prazer) e conforto (baixa activação e elevado prazer), formando assim dois eixos ortogonais: conforto/ansiedade e entusiasmo/depressão. Para além disso, postula uma terceira dimensão relativa, contentamento/descontentamento, que corresponde às habituais avaliações de satisfação no trabalho (Weinberg & Cooper, 2007) que contudo, não constituindo o core do constructo de bem-estar afectivo no trabalho.

Método
Amostra
A amostra é constituída por 856 polícias, dos quais 91.5% são homens. A idade média dos inquiridos é de 37 anos (DP = 8.85). A maioria é casada (n = 494, 64.2%). Relativamente às habilitações literárias, 57.2% (n = 413) dos inquiridos tem a escolaridade entre o 10.º e o 12º ano. A média de anos de serviço de aproximadamente 13 anos (DP=8.59).
Procedimento
Os dados foram recolhidos através de questionário. A taxa de resposta foi de aproximadamente 70%.

Instrumentos
A coesão grupal foi avaliada através do Dutch Deployability of Team Questionnaire (PIT) desenvolvido por Podsakoff e MacKenzie (1994, traduzido por Rodrigues, 2005). Esta escala tem como intuito medir a coesão grupal percebida. Esta escala possui 20 itens, respondidos numa escala de 5 pontos de tipo Likert (1=“Discordo totalmente”; 5=“Concordo totalmente”). O nível de coesão é dado pela soma dos diferentes itens, sendo que quanto maior o resultado da soma, maior a percepção do grupo como coeso (o valor de coesão global que pode variar entre 20 e 100). O bem-estar afectivo no trabalho foi medido através do IWP Multi-Affect Indicator (Warr, 1990) constituído por 12 itens, medidos numa escala de tipo Likert de 6 pontos (1=Nunca a 6=Todo o tempo). A variável bem-estar resulta da construção de um índice que traduz média dos itens correspondentes.

Resultados
Análise das estatísticas descritivas e correlações
A análise dos resultados permite constatar um nível médio de bem-estar afectivo no trabalho (média=3.67) e coesão de grupo, vertical e horizontal. Os resultados das correlações revelam correlações positivas e significativas entre a coesão percebida e o bem-estar afectivo no trabalho.
Análise do papel preditor da coesão grupal
Para analisar o papel preditor da coesão grupal foram realizadas regressões lineares múltiplas. No modelo 1 foram incluídas as variáveis sócio-demográficas como variáveis de controlo; no modelo 2 foi incluída a coesão de grupo.
Os resultados revelam que do modelo 1 composto pelas variáveis de controlo para o modelo 2 que inclui os preditores, houve um incremento significativo da variância explicada do bem-estar afectivo no trabalho em aproximadamente 10%. Os resultados revelam que a coesão de grupo é um bom preditor do bem-estar (β=0.320; p<0.01), explicando cerca de 32% da variância do bem-‑estar o trabalho.

Conclusão
Os resultados mostram que os polícias inquiridos apresentam um nível médio de bem-estar afectivo no trabalho e de coesão havendo espaço para procurar intervir no sentido do incremento do bem-estar destes profissionais e da coesão de grupo.
Este estudo reforça a importância do grupo e mais especificamente da coesão grupal na promoção do bem-estar no trabalho. Remetendo-nos de imediato para a necessidade de promoção de actividades promotoras da coesão de grupo. Os resultados parecem apontar para que a promoção da coesão do grupo terá repercussões no bem-estar dos profissionais.
Os resultados devem ser lidos à luz do contexto em que o estudo foi realizado e tendo em conta que se trata de uma amostra de conveniência e ser um estudo de auto-preenchimento. Será importante replicar o estudo noutros sectores de actividade, com o objectivo de ultrapassar eventuais especificidades da área de actividade contemplada.

Bibliografia
Chambel, M.J., Stress e bem-estar nas organizações. In A. Marques Pinto & A. Lopes da Silva (Coords). Stress e bem-estar. Lisboa. Climepsi Editores, 2005, pp.105-134
Gonçalves, S., Silva, S., Melià, J, & Lima, L., Safety behaviours: The contribution of safety climate and risk perception. Comunicação apresentada no Work, Stress, and Health 2006: Making a Difference in the Workplace, realizado em Miami, em março de 2006.
Mitchel, T., & Larson, J., People in organizations: An introduction to organizational behavior. New York: McGraw-Hill Book Company, 1987.

 

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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