INFLUÊNCIA DAS CRENÇAS E ATITUDES RODOVIÁRIAS ENQUANTO DETERMINANTES DA SINISTRALIDADE

30 abril 2017
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Author :   António Surrador, Soraia Jamal, Petra Marques, Maria José Fonseca, Daniela Freixo
Citar ARTIGO: Surrador, A., et al. 2011. Influência das crenças e atitudes rodoviárias enquanto determinantes da sinistralidade. Revista Segurança Comportamental, 3, 42-44 António Surrador, Soraia Jamal, Petra Marques, Maria José Fonseca, Daniela Freixo | Centro de Psicologia da Força Aérea Portuguesa

Em condutores de organizações militares a experiência de condução é discriminativa sobre a sinistralidade. Por outro lado, as crenças não têm impacto.

Resumo
A sinistralidade rodoviária constitui um problema relevante nas sociedades modernas e tem despertado o interesse ao nível das diferenças individuais que podem predizer os comportamentos de segurança na condução. Pretende-se, com o presente estudo exploratório, averiguar a influência das crenças e atitudes rodoviárias, numa organização militar, enquanto variáveis determinantes da sinistralidade. Os resultados demonstram que a variável experiência de condução possui poder discriminativo sobre a sinistralidade e que as crenças não têm um impacto significativo nesta medida. São apresentadas orientações para futuros estudos.

Palavras-Chave: Crenças; Atitudes; Sinistralidade Rodoviária.

Introdução
A segurança rodoviária assumiu-se como um tema central nos principais debates na sociedade actual, estando a faixa etária dos 20 aos 24 anos sobre-representada nas estatísticas de acidentes rodoviários no ano 2000 (SOUSA, S., 2005).
Tendo em conta que nas organizações militares a população de condutores dentro da faixa etária referida tem um grande peso, torna-se fundamental a compreensão das crenças e atitudes dos condutores face à segurança rodoviária, enquanto condição que permita a promoção de uma mudança de atitudes conducente a comportamentos de segurança na condução. As crenças são a base da estrutura conceptual da visão teórica de M. FISHBEIN e I. AJZEN (1975). Através da observação directa ou da informação recebida de fontes externas, ou por meios de processos de inferência, os indivíduos aprendem ou formam um número de crenças sobre um objecto, associando-lhe um conjunto de atributos. Assim, forma crenças sobre ele próprio, sobre os outros, sobre comportamentos e eventos. A totalidade das crenças dos indivíduos serve como base informacional que, em última análise, determina as suas atitudes, intenções e comportamentos (FISHBEIN, M. e AJZEN, I., 1975). Quando o objecto em causa é o próprio sujeito que se comporta de determinada maneira (atributos), reportamos à noção de auto-eficácia (BANDURA, A., 1977). No presente estudo pretendemos averiguar, de forma exploratória, a influência das crenças e atitudes rodoviárias, enquanto determinantes da sinistralidade dos condutores de uma organização militar.

Método
O estudo foi realizado numa instituição militar e a amostra é de conveniência, sendo composta por 102 condutores cuja média de idades é 26,36 e varia entre 18 e 68 anos. Destes, 91 eram do sexo masculino e 9 eram do sexo feminino. O tempo de experiência de condução varia entre os 0 anos e os 46 anos. Os dados foram recolhidos presencialmente através de um questionário de auto-relato, entre Setembro de 2009 e Fevereiro de 2010 sendo garantido o anonimato e confidencialidade da informação recolhida. Foram incluídas no questionário algumas variáveis sócio-demográficas, caracterizadoras dos participantes em estudo (e.g., sexo, idade), bem como da sua situação relativamente à função (e.g., tempo de experiência na condução). A operacionalização da variável auto-percepção foi feita através da escala de “auto-percepção como condutor”, com oito itens tendo uma escala de resposta de cinco pontos em que 1 corresponde a “Nada Eficiente” e 5 a “Muito eficiente”. Para a variável crenças rodoviárias utilizou-se um questionário com duas escalas: na primeira, era solicitado aos inquiridos que relatassem em que medida cada item contribuía para evitar o acidente (entre 1-“Não tem nenhuma influência” e 4-“Evita de certeza a ocorrência de um acidente”); na segunda, os inquiridos teriam de relatar em que medida cada item contribuía para facilitar o acidente (entre 1-“Não tem nenhuma influência” e 4 “Facilita de certeza a ocorrência de um acidente”). Estas escalas avaliam as crenças rodoviárias para os inibidores e facilitadores de acidentes e apresentam boas qualidades psicométricas. A variável experiência de condução foi operacionalizada através do número de anos que o indivíduo refere possuir a categoria B (veículos ligeiros). A variável sinistralidade foi operacionalizada através do número total de acidentes em que é referido ter tido culpa.
Posteriormente procedeu-se à avaliação das qualidades psicométricas dos instrumentos usados para recolha dos dados, nomeadamente ao nível da validade de constructo e da consistência interna. Neste sentido, realizou-se uma análise factorial às variáveis: Auto-percepção – foram encontrados dois factores: Auto-percepção dimensão instrumental (3 itens) e Auto-percepção dimensão cognitiva (4 itens) - ; Crenças Rodoviárias - evitar acidente e Crenças Rodoviárias - facilitar acidente – para cada uma das escalas foram apenas aproveitados 18 itens, que correspondiam ao factor “ Crenças – evitar acidente” e ao factor “Crenças – facilitar acidente”, respectivamente.

Resultados
A estatística descritiva realizada, (quadro 2) permite observar que a média da variável Sinistralidade é de 0.37, ou seja, um valor médio de menos de um acidente por indivíduo, variando entre 0 e 3 acidentes. Os indivíduos têm em média 7.04 anos de experiência de condução. Nenhuma variável se correlaciona significativamente com a Sinistralidade. Tal como era de esperar a idade correlaciona-se de forma significativa com a experiência de condução e também com ambas as variáveis de auto - percepção e as duas variáveis referentes às crenças na condução. As crenças evitar e facilitar o acidente correlacionam-se significativamente entre si, bem como as duas variáveis de auto – percepção (anexo, quadro 3).
Os resultados da análise de regressão linear demonstraram que nenhuma das variáveis em estudo tem um impacto significativo na sinistralidade (α=.05).
A regressão logística (quadro 4 e 5) permitiu averiguar qual das variáveis em estudo tem a capacidade de discriminar os sujeitos entre nunca ter tido um acidente e ter tido pelo menos um acidente com culpa. Verifica-se que das variáveis em estudo, a única que discrimina significativamente os sujeitos face à sinistralidade é a experiência de condução (p<.05), classificando correctamente 71.8% dos sujeitos.

Conclusão
Os instrumentos usados para recolha dos dados apresentaram boas qualidades psicométricas, nomeadamente ao nível da validade de constructo e da consistência interna, ou seja, a escala utilizada mede de facto as crenças que os indivíduos possuem em relação ao que pode facilitar e ao que pode evitar um acidente rodoviário e os itens estão fortemente correlacionados entre si.
Contudo, nenhuma das variáveis em estudo se correlaciona significativamente com a sinistralidade rodoviária, nem tem um impacto significativo na sinistralidade. Apenas a variável experiência de condução, discrimina de forma significativa os sujeitos, entre não ter tido nenhum acidente e ter tido pelo menos um acidente com culpa. Estes resultados fazem com que se levantem algumas hipóteses, nomeadamente, se outras variáveis, tal como uma formação estandardizada de um contexto militar, estarão a interferir na relação entre as variáveis em estudo; e/ou se os inquiridos estarão a condicionar as suas respostas, segundo o que pensam ser organizacionalmente e socialmente expectável. Face ao que foi exposto no ponto anterior seria importante no futuro testar as hipóteses levantadas, no sentido de se perceber que outras variáveis estão presentes na relação entre as variáveis em estudo, e em que medida elas se fazem sentir nesta relação. Seria igualmente importante averiguar em que medida a variável experiência de condução, discrimina os sujeitos entre não terem tido nenhum acidente e terem tido pelo menos um acidente com culpa, por exemplo, se existirá um nível óptimo em termos de experiência de condução.
Finalmente, sugere-se ainda o prosseguimento da recolha de dados, no sentido de alargar a amostra, e verificar se desta forma se obtêm resultados e conclusões mais significativas.

Algumas orientações para futuros estudos:
- Se outras variáveis, tal como uma formação estandardizada de um contexto militar, estarão a interferir na relação entre as variáveis em estudo; e/ou se os inquiridos estarão a condicionar as suas respostas, segundo o que pensam ser organizacionalmente e socialmente expectável;
- Averiguar em que medida a variável experiência de condução, discrimina os sujeitos entre não terem tido nenhum acidente e terem tido pelo menos um acidente com culpa, por exemplo, se existirá um nível óptimo em termos de experiência de condução;
- Sugere-se ainda o prosseguimento da recolha de dados, no sentido de alargar a amostra, e verificar se desta forma se obtêm resultados e conclusões mais significativas.

Bibliografia
Bandura, A., Self-efficacy: Toward a unifying theory of behavioral change. Psychological Review, 84 (2), 1977, pp. 191-215.
Devellis, R. F., Scale development theory and applications. Newbury Park: Sage, 1991.
Fishbein, M., & Ajzen, I., Belief, Attitude, Intention, and Behavior: An Introduction to Theory and Research. Reading, MA: Addison-Wesley, 1975.
Sousa, S., Intervenção na formação geral de condução. Análise psicológica, Vol. 1 (23), 2005, pp. 55-58.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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