IMPORTÂNCIA DA SAÚDE E SEGURANÇA NA CONSTRUÇÃO CIVIL PARA EVITAR O SÍNDROME DE BURNOUT

01 maio 2017
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Author :   Hamilton Costa Júnior
Citar ARTIGO: Júnior, H. C. 2010. Importância da saúde e segurança na construção civil para evitar o síndrome de burnout. Revista Segurança Comportamental, 2, 4-5 Hamilton Costa Júnior | Doutorado em engenharia civil pela Universidade Federal do Panamá. Coordenador do curso de especialização em engenharia de segurança do trabalho na Universidade Federal do Panamá.

O programa de «qualidade de vida no trabalho» permite evitar a síndrome de burnout – A realidade da construção civil no Brasil.

Resumo
A qualidade de vida no contexto de trabalho envolve pessoas, trabalho e organizações. O trabalhador da construção civil está exposto a vários tipos de riscos para a sua segurança e saúde. Estes riscos podem ser de variada ordem, podendo ser de cariz físico, químico, biológico, ergonómicos, chegando mesmo a originar acidentes, susceptíveis de gerar sequelas e até mesmo óbitos. O conceito de qualidade de vida no trabalho aliado ao conceito da síndrome de burnout, possibilitou caracterizar tecnicamente as necessidades e possibilidades de criar ambientes de participação e integração, considerando a saúde e a segurança no ambiente de trabalho, facilitando a sensibilização dos trabalhadores para a necessidade de adoptar medidas de prevenção de acidentes e doenças profissionais.

Introdução
O conceito de «qualidade de vida no trabalho» é uma concepção abrangente e comprometida com as condições de vida no trabalho, designadamente sobre aspectos de bem-estar, garantia da saúde e segurança física, mental e social, bem como, capacitação para realizar tarefas com segurança e bom uso de energia pessoal. Procura-se aqui reflectir sobre o conceito de qualidade vida do trabalhador, o qual envolve aspectos de saúde e segurança no trabalho, bem como, sobre o conceito de burnout, ou seja, o esgotamento físico e emocional em função do trabalho, de modo a caracterizar as necessidades e possibilidades de criar ambientes de participação e integração.
No Brasil, o direito à saúde é garantido pelo art. 196 da Constituição Federal. Por outro lado, a aprovação da portaria n.º 3.214 (de 8/7/1978 - conforme o art.º 200 da CLT), as normas regulamentadoras relativas à segurança e medicina do trabalho, e ainda os programas sobre condições de segurança e saúde ocupacional previstos na NR 7 (programa de controle médico da saúde ocupacional), deram ênfase à prevenção de acidentes no trabalho e à preservação da saúde do trabalhador.
A expressão «qualidade de vida no trabalho» surgiu na década de 70, influenciada pelas filosofias de trabalho de autores da escola de relações humanas, designadamente, Maslow e Herzberg (1950). Visou integrar os interesses de empregados e empregadores, evitando os conflitos e ainda estimular os empregados, ao mesmo tempo procurou melhorar as suas condições de vida no contexto de trabalho.
Constituindo a motivação, no trabalho, uma das suas preocupações, importa salientar que esta surge a partir do momento em que uma pessoa conhece e pode desempenhar um papel na organização, sendo este papel compartilhado com os demais. Está relacionada com o reconhecimento pelos esforços pessoais no cumprimento de metas, designadamente, através de recompensas relacionadas com o trabalho exercido, e com o feedback sobre o próprio desempenho, o qual vai permitir consciencializar o modo como o trabalho está sendo propulsor do crescimento da empresa.

“(…) o conceito de burnout, ou seja, o esgotamento físico e emocional em função do trabalho (…)”

O Sector da construção civil em Curitiba
O sector da construção civil é um dos mais importantes do país devido ao seu volume, capital circulante e pelo significativo número de empregados. Questões de segurança e saúde na construção civil devem ser objecto de atenção contínua, pois as consequências apresentadas pelos acidentes e doenças do trabalho afectam tanto trabalhadores e respectivas famílias, como empregadores, governo e sociedade.
O trabalho desenvolvido na construção civil difere dos demais, “uma das suas principais características é a descentralização das actividades produtivas” (Assumpção,1999, p.56). Outro aspecto observado no sector é o desfasamento tecnológico em relação a outras indústrias, ou seja, o processo de trabalho na construção civil possui características de manufactura, ao invés da generalidade dos restantes.
De acordo com dados obtidos, através do Sindicato de Construção Civil, do Conselho Regional de Arquitectura, Engenharia e Agronomia - PR e da Delegacia Regional, apresentamos aqui alguns indicadores que podem caracterizar o sector em Curitiba (capital do Estado do Paraná), entre os anos 2002 e 2006.

Para além destes indicadores, foram evidenciados outros fatos, de que destacamos:
• Falta de registo em carteira;
• Descontentamento com o trabalho;
• Stress no deslocamento;
• Casa/trabalho/casa;
• Horários de trabalho;
• Salários muito baixos;
• Falta de comunicação com superiores;
• Falta de EPIs;
• Instalações inadequadas.

Causas de síndrome de burnout:
• Administradores autoritários e autocráticos;
• Vários chefes;
• Ausência de líderes;
• Aumento da competitividade;
• Falta de ambiente saudável;
• prazos irrealistas;
• Solicitações excessivas;
• Sobrecarga de trabalho;
• Assédio moral e violência psicológica;
• Medo do desemprego;
• Não ser capaz de cumprir as tarefas.

Burnout nos trabalhadores da construção civil
Partindo das investigações exploratórias de Maslach e de Freudenberger (1974) e Maslach, Shaufeli e Leiter (2001), podemos afirmar que a síndrome de burnout é multidimensional, ou seja, compreende um conjunto de três variáveis essenciais que especificam e demarcam o fenómeno:
1. Exaustão emocional (EE) - caracterizada pelo facto da pessoa se encontrar exaurida, esgotada, sem energia para enfrentar outro projecto, ou outras pessoas, e incapaz de se recuperar de um dia para o outro.
2. Despersonalização (D) - caracterizada pelo facto da pessoa adoptar atitudes de descrença, distância, frieza e indiferença em relação ao trabalho e aos colegas de trabalho.
3. Diminuição da realização pessoal (DRP) - caracterizada pelo facto de a pessoa sentir-se ineficiente, incapaz e convicta de que o seu trabalho não faz diferença.
A síndrome de burnout descreve o profissional frustrado, descomprometido com os outros e exaurido emocionalmente. Segundo os autores citados, é também acompanhada de uma série de sintomas físicos e emocionais comummente relacionados à síndrome: dores de cabeça, tensão muscular, distúrbios do sono, irritabilidade, sentimentos negativos que afectam o relacionamento familiar e a vida em geral.
Esta síndrome não significa somente exaustão física e emocional resultante da alta sobrecarga de trabalho. Surgem também factores de ordem interpessoal (falta de suporte) e também stressadores relativos às interferências administrativas (conflitos e ambiguidade de papel e falta de autonomia) que, ao actuarem em conjunto, arrancam do indivíduo a sua condição de sujeito capaz de realizar bem o seu trabalho, bem como, de se realizar através do trabalho que executa. Esta síndrome já consta em lei como doença ocupacional, porém e regra geral, não é conhecida pelos trabalhadores.
Diversos autores defendem a síndrome de burnout como sendo diferente do stress, e alegam que esta doença envolve atitudes e condutas negativas com relação aos usuários, clientes, organização e trabalho, enquanto o stress apareceria mais como um esgotamento pessoal com interferência na vida do sujeito e não necessariamente na sua relação com o trabalho. Entretanto, crê-se que esta síndrome é a consequência mais depressiva do stress desencadeado pelo trabalho.
Tendo em conta as várias causas que podem gerar riscos para a saúde, podem ser citadas: administradores autoritários e autocráticos; um ou vários chefes; ausência de líderes; aumento da competitividade; falta de ambiente saudável, prazos irrealistas e solicitações excessivas; sobrecarga de trabalho, assédio moral e violência psicológica, e ainda, medo do desemprego e de não ser capaz de cumprir as tarefas.
Estas causas podem gerar inúmeros efeitos sobre os aspectos físicos, mentais e emocionais do indivíduo, tais como: intranquilidade, excesso de preocupação, descuido com a aparência, baixa auto-estima, vários tipos de doenças, angústia, dificuldade no relacionamento pessoal e profissional, e, redução na produtividade entre outros.
A investigação realizada, em empresas do sector da construção civil de Curitiba, permitiu confirmar a existência de um número muito significativo de trabalhadores a vivenciar situações de burnout e para quem a qualidade de vida no trabalho era uma miragem. Muitas das causas indicadas evidenciaram estar presentes, bem como os sintomas referenciados. Urge por isso a intervenção!

Algumas soluções:
O programa de «qualidade de vida no trabalho» deve permitir ao trabalhador:
• Buscar o equilíbrio e evitar os excessos;
• Desenvolver uma auto-estima positiva;
• Trabalhar de forma satisfatória e investir nisso;
• Ter uma vida com mais tempo para a família;
• Respeitar os limites e limitações impostas pelo tempo, espaço, corpo, consciência e pela vida em si.

O desenvolvimento de um programa direccionado para a saúde, promovido pelas empresas, propicia não só um aumento de qualidade de vida dos trabalhadores, como também, um retorno financeiro superior à verba aplicada. Este retorno financeiro poderá ser um bom ponto de partida para justificar esta operação em empresas com cariz mais economicista.
De acordo com a investigação a aplicação desse programa deve permitir ao trabalhador:
• Buscar o equilíbrio e evitar os excessos;
• Desenvolver uma auto-estima positiva;
• Trabalhar de forma satisfatória e investir nisso;
• Ter uma vida com mais tempo para a família;
• Respeitar os limites e limitações impostas pelo tempo, espaço, corpo, consciência e pela vida em si.
Percebe-se que o desafio da «qualidade de vida no trabalho», permite evitar a síndrome de burnout e pode constituir o resgate do trabalho como um referencial que une o homem ao mundo, articulando concepções, necessidades e ideais que fazem sentido para as pessoas. Permitindo ainda mantê-las motivadas e proporcionar níveis mais altos de satisfação e realização pessoal e profissional e, consequentemente, a melhoria da auto-estima e do bem-estar de cada indivíduo.

Bibliografia
ASSUMPÇÃO, J. L. A., Estratégia para Gerenciamento da Segurança e Saúde no Trabalho em Empresas de Construção Civil. Dissertação de Mestrado em Engenharia Civil, UFF, Rio de Janeiro, 1999. Disponível em http://www.infohab. org.br/, acesso em 04/05/2009.
CHIAVENATO, I., Gerenciando pessoas: O passo decisivo para administração participativa. São Paulo, Makron Books, 1992.
DAVIS, K. e NEWSTROM, J. W., Comportamento humano no trabalho: uma abordagem psicológica, São Paulo, Pioneira, 1992.
DEJOURS, Christophe e JAYET C., Psicopatologia do trabalho e organização real do trabalho em uma indústria de processo: metodologia aplicada a um caso. In: Psicodinâmica do trabalho - contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho, São Paulo, Atlas S. A., 1994.
MASLACH, C., et al., Job burnout. Anual Review of Psychology, 52, 397-422, 2001.

  • CONFIABILIDADE HUMANA NA SEGURANÇA. HÁ COMO PREVENIR AS VIOLAÇÕES?

    CONFIABILIDADE HUMANA NA SEGURANÇA. HÁ COMO PREVENIR AS VIOLAÇÕES?

    É complicado compreender as recompensas de se trabalhar com segurança e com confiabilidade (Behavior-Based Reliability), já que estamos a trabalhar para não ocorrer nada, não ocorrer lesões, não ocorrer acidentes. Qualquer organização que pretenda evoluir no seu desempenho e construir a sua sustentabilidade, deve esforçar-se para reduzir os acidentes, especialmente através do potencial da falha humana. Deve ser desenvolvido um programa específico para tratar as violações, associado ao organismo vivo cognitivo, emotivo e relacional, característico daquele contexto. Há várias soluções aplicadas aos vários tipos de violações: rotineiras, optimizadoras, situacionais e excepcionais.

  • A LIDERANÇA EFETIVA EM SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO

    A LIDERANÇA EFETIVA EM SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO

    Para que se concretize a efetividade da liderança em segurança e saúde é necessário, entre outros, que haja inteligência emocional no seu desempenho, tenha perfeito conhecimento dos riscos e da sua magnitude, participe na implementação de ações que comprometem todos os envolvidos, comunique de forma positiva e eficaz. Os líderes serão os elementos influenciadores da organização que, em função da visão e missão traçadas, permitirão que os seus seguidores vivenciem os valores da liderança, se inspirem e se motivem na realização das suas tarefas, através de práticas seguras, melhorando assim a cultura de segurança da empresa.

  • COACHING DE SEGURANÇA PARA O DESENVOLVIMENTO DOS LÍDERES PREVENCIONISTAS

    COACHING DE SEGURANÇA PARA O DESENVOLVIMENTO DOS LÍDERES PREVENCIONISTAS

    Coaching de segurança é uma metodologia que auxilia os líderes a obterem competências necessárias para atuarem como elemento de transformação da cultura. A metodologia aqui apresentada segue o modelo clássico de melhoria contínua PDCA (Plan, Do, Check, Act). Um dos factores críticos de sucesso é liderança pelo exemplo e o compromisso visível. Os líderes irão contribuir para a mudança do clima, desenvolvendo a percepção de riscos, adoção efetiva das medidas de controle e principalmente despertando em todas as pessoas a interdependência onde todos possam cuidar de si, cuidar dos outros e permitirem ser cuidados, chegando desta maneira a uma mudança de cultura.
    (1) Artigo redigido em português do Brasil

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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