AS DIFERENÇAS GERACIONAIS E A PRUDÊNCIA, NOS SERVIÇOS DE AVIAÇÃO

01 maio 2017
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Author :   Natividade Gomes Augusto
Citar ARTIGO: Gomes Augusto, N. 2010. As diferenças geracionais e a prudência, nos serviços de aviação. Revista Segurança Comportamental, 2, 8-10 Natividade Gomes Augusto | Socióloga. Investigadora Social. Técnico superior de segurança, higiene e saúde.

O valor de “prudência” intergeracional é vivido e sentido de forma diferenciada, tendo em consideração a dimensão do contexto e o nível de experiência vivida.

As gerações e os valores (1)
As gerações são como representações de tempos sociais históricos. Uma geração tem sempre uma consciência em processo que procede das construções psicológicas e sociais de um dado momento histórico. Karl Mannheim, citado por Attias-Donfut, reforça “(...) a ideia de que a existência social duma geração provém dos fenómenos históricos” (1988: 171). Se estivermos perante duas gerações que sofreram uma continuidade geracional, então as diferenças de valores não são tão acentuadas. Mas se as mesmas gerações estiverem perante uma descontinuidade geracional (originária de períodos históricos que através de acontecimentos singulares proporcionam uma mudança geracional), então as diferenças de valores são precisas. Apesar de não compartilhar com a definição de gerações em termos demográficos, por questões metodológicas optei por utiliza-la, no sentido de «classes estarias».
Segundo Machado Pais, as gerações mais velhas encontram-se perante um triângulo cujos vértices são o puritanismo, o moralismo e a ordem. A idade condiciona bastante a apreciação face à mudança, à inovação e ao risco, à medida que se é mais velho, é-se também mais cauteloso, mais conservador e menos confiante. Por sua vez, as gerações mais jovens estão perante um conjunto de três principais triângulos de valores. Um primeiro – com vértices no hedonismo, no convivialismo e na diversão – dá suporte, por definição, a uma solidariedade convivial. Um segundo triângulo associa os valores de sedução, da transgressão e da tolerância. Finalmente, um terceiro triângulo – que conflui num individualismo expressivo – associa o hedonismo, o narcisismo e a expressividade. Assim, os jovens abraçam valores de expressividade, de sedução, de hedonismo, combinando o prazer na vida com o prazer no trabalho, sendo menos cautelosos e arriscando mais nas suas decisões e acções. As éticas sociais com marco puritanista das gerações mais velhas, com os seus partidários do trabalho, da poupança, da submissão, do controlo de risco e da disciplina, estão a dar lugar, paulatinamente, a éticas individualistas com marcado cunho hedonista, desfrute da vida, consumismo, ilusões, fantasias, desejos e prazer no trabalho, predominantemente entre os jovens. A este encontro de ideias vão também os valores materialistas e pós materialistas, apresentados por Jorge Vala (2001: 3), estando os primeiros associados à satisfação de necessidades elementares, ao bem-estar económico, segurança e à coesão social, enquanto os segundos relevam de novas preocupações sociais e individuais: estéticas, intelectuais, de qualidade de vida e maior envolvimento nos processos de tomada de decisão. Neste sentido, quanto maior for o desenvolvimento sócio-cultural de um país, maior será a saliência dos valores pós-materialistas relativamente aos materialistas.

O valor de prudência: cautela e risco
Os valores traduzem convicções fundamentais a propósito da conduta ou acção, individual ou socialmente considerada como desejáveis, certas ou boas. A prudência é o acto de estar atento ao alcance das suas palavras ou acções com intuito de avaliar e evitar as possíveis consequências desagradáveis. Aliada à prudência encontra-se a capacidade de discernir, escolher e decidir o caminho que convém para atingir um determinado objectivo. Ora, o poder de decisão no contexto laboral está relacionado com as escolhas de alternativas no decorrer do exercício da tarefa de uma actividade profissional. “Quanto menos familiares e, concomitantemente, mais instáveis, complexos e ambíguos se apresentam os problemas, mais analítica e morosa tende a ser a estratégia de decisão. Problemas simples e habituais são objecto de decisões programadas, isto é, resultam do seguimento de regras explícitas ou implícitas previamente estabelecidas e conhecidas dos actores organizacionais. (...) A decisão complexa e não programada surge como requerendo criatividade, inovação e risco, enquanto o seguimento de regras é visto como aplicação repetitiva de processos conhecidos e de resultados facilmente previsíveis” (Ferreira et al., 2001, p. 406). O valor de prudência, neste estudo, foi medido através da cautela e do risco. Aqui o risco é visto numa perspectiva das ciências sociais, visto como, a percepção e avaliação das situações de risco, realizada pelo indivíduo, conflui na direcção das suas opções. Essa percepção é influenciada por factores exógenos, como exemplo os valores culturais de uma época; e, factores endógenos às organizações, como por exemplo a organização do trabalho, a antiguidade na tarefa ligada à experiencia, entre outros. A cautela protagonizada pelo indivíduo tem como objectivo prevenir uma suspeita de perigo ou de risco, de forma a garantir uma suficiente margem de segurança da linha de perigo.

Sistema de trabalho do grupo profissional do sector de aviação
O sistema de trabalho destes profissionais, do sector da aviação, foi caracterizado segundo o sistema de trabalho técnico do sociólogo francês Alan Touraine (1982) e o sistema de trabalho empresarial do sociólogo português João Freire (2002, pp. 108 - 113).
O sistema de trabalho a nível técnico é exigente, requer um elevado esforço mental assim como ergonómico, é realizado em horário contínuo sendo o tempo de trabalho organizado através de turnos. As tarefas baseiam-se essencialmente em vigilância das informações que são mostradas por um sistema tecnológico complexo e de controlo das mesmas, em prol da elevada segurança operacional na aviação. Qualquer falha nos serviços prestados destes profissionais influencia a segurança de toda a sociedade, e por isso, estes trabalhadores vivem com elevada pressão mental, vivem segundo a lógica de não poder falhar. Em termos organizacionais estes profissionais da aviação trabalham em rede, em equipas duais, sendo que o trabalho de uma equipa pode influenciar parcialmente o trabalho da equipa seguinte nessa rede, neste sentido, o espírito de trabalho de equipa é fundamental. As chefias hierárquicas são maioritariamente os trabalhadores mais velhos, o que vai influenciar o sistema sócio-relacional, permanecendo o tipo de relações informais. Estes profissionais são altamente especializados e a sua progressão na carreira depende dos níveis de especialização.

Resultados
A geração mais velha deste grupo profissional da aviação [45-54] é mais confiante e menos cautelosa, 54,3% afirma que em termos gerais não se sai mal nas decisões e por isso motivo não pensa muito tempo nelas. O quadro inverte-se no que concerne à geração mais nova [25-34], 50,0% desses trabalhadores consideram que pensam nas decisões que tomam porque põem a hipótese de se saírem mal.


Estes resultados vão contra o quadro teórico macro-social de Machado Pais, quando este afirma que a geração mais velha é mais cautelosa, tendo em consideração a prudência no cumprimento das regras e leis que baseiam o vértice da «ordem» do triângulo de valores; assim como, a falta de confiança quando esta geração se depara com o fenómeno de mudança. Embora a grande maioria (69,4%) do grupo etário adultos-seniores também opte por não colocar risco nas suas decisões em proveito de uma maior eficácia, verifica-se que 27,8% assumem poder correr risco. A transgressão enumerada por Machado Pais no segundo triângulo de valores dos mais novos não está aqui representada, antes pelo contrário neste ambiente profissional o risco transgressor é fortemente substituído pela prudência. Estes resultados empíricos podem ser explicados pelo acumular de experiência dos mais velhos face aos mais novos, sendo que os mais velhos se comportam de forma mais confiante e menos cautelosa no exercício da profissão. Uma vez que os mais novos possuem menos experiência, sentem--se menos confiantes, mais cautelosos e por isso não arriscam (0%) nas tomadas de decisões mesmo que alcancem a eficácia. Temos aqui representado o conceito de confiança adquira através de experiencia no exercício da actividade profissional, altamente especializada, que irá repercutir-se numa aceitabilidade calculada do risco, supondo uma disponibilidade para conviver com a vulnerabilidade.

Bibliografia
FREIRE, J. Sociologia do Trabalho, Lisboa, Edições Afrontamento, 2001.
ATTIAS-DONFUT, C., Sociologie des générations – L´Empreinte du Temps, Paris, Presses Universitaires de France, 1988.
DETEFP – Departamento de Estatística do Trabalho. Emprego e Formação Profissional Inquérito de Avaliação das Condições de Trabalho dos Trabalhadores, Lisboa, Ministério do Trabalho e da Solidariedade, 2001, p. 10
ROLO, J. Sociologia da saúde e da segurança no trabalho, SLE-Electricidade do sul, SA, Lisboa, 1999.
TOURAINE, A. Pela Sociologia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1982.

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(1) Este estudo é datado de 2005, tendo sido utilizada a análise quantitativa e qualitativa, através da aplicação de um inquérito com tratamento de dados em SPSS e aplicação de entrevistas semi-direccionadas. O grau de representatividade foi de 62,3%.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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