SEGURANÇA COMPORTAMENTAL EM EMPRESAS PETROLÍFERAS

01 maio 2017
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Author :   Francisco Rocha Dias
Citar ARTIGO: Dias, F. R. 2010. Segurança comportamental em empresas petrolíferas. Revista Segurança Comportamental, 2, 11-13 Francisco Rocha Dias | Chefe Operacional III na Galp energia

A cultura do “desenrascanço” tão característica da sociedade portuguesa é determinantemente condenada na segurança comportamental em empresas petrolíferas.

Tipo de actividade
A refinação de petróleos é uma actividade que usando uma matéria-prima constituída por uma mistura pré-seleccionada de crudes (crude mix) e utilizando a capacidade e aptidão processual dos processos de refinação instalados, visa produzir os produtos requeridos pelo mercado, em condições que maximizem a rendibilidade da operação, com plena salvaguarda dos preceitos ambientais e de segurança de pessoas e bens.
A refinação de petróleos pode caracterizar-se como:
• indústria de capital intensivo,
• grande volatilidade de resultados, influenciada predominantemente por factores exógenos.
Para diminuir esta volatilidade dos resultados, os refinadores são obrigados a usar processos cada vez mais sofisticados tecnologicamente, que maximizem o aproveitamento da matéria-prima (branqueamento do barril), por conversão das fracções mais pesadas do crude em produtos de maior valor comercial. É prática das empresas sujeitarem, periodicamente, os seus apare-
lhos refinadores, a alterações processuais de modernização e upgrading tecnológico, atempadamente programadas, para darem resposta a novas solicitações dos mercados ou melhorar a sua rendibilidade. As modificações no processo requerem tempos de execução entre 18 e 30 meses, conforme se trate de projectos de readaptação funcional ou de novas unidades. A classificação das refinarias baseia-se na capacidade de tratamento e na complexidade tecnológica do processo instalado. Relativamente à capacidade de tratamento é frequente agrupá-las de acordo com o critério seguinte:
• Pequena refinaria ≤10.000 t/d de crude (70.000 bbl/d);
• Média refinaria ≥10.000 t/d e ≤ 20.000 t/d de crude (175.000 bbl/d);
• Grande refinaria >20.000 t/d de crude (175.000 bbl/d).
Algumas das refinarias de maior dimensão, a nível mundial, registam capacidades de tratamento superiores a 90.000 t/d (630.000 bbl/d).
Usando a complexidade tecnológica das instalações como factor diferenciador, as refinarias podem ser classificadas em:
• Refinarias simples;
• Refinarias de hydroskimming;
• Refinarias complexas.
Ambas as refinarias existentes em Portugal - Porto e Sines - classificam-se como complexas, pois, a do Porto deve-se à variedade e especificidade dos produtos produzidos, e a de Sines à sua grande capacidade de tratamento, assim como, à sua complexidade do processo tecnológico.

“(…) incentivos que aperfeiçoem a segurança do local de trabalho e conduzam a comportamentos comprometidos, tanto por parte dos empregados, como por parte da empresa.”

A segurança
Num domínio de actividade em que as regras, procedimentos, segurança dos equipamentos são alvo de elevado controlo, designadamente pelo forte impacto que um acidente nestas unidades produtivas possa ter, quer em termos ambientais, quer em termos de número de indivíduos afectados, os factores relacionados com os comportamentos de segurança surgem, também com forte acuidade. Sabe-se que locais seguros tendem a ser locais mais produtivos. Daí, também, a preocupação com os factores relativos à organização, aos equipamentos e tecnologias, e às pessoas. Relativamente a estes últimos recorre-se, nomeadamente, a incentivos que aperfeiçoem a segurança do local de trabalho e conduzam a comportamentos comprometidos, tanto por parte dos empregados, como por parte da empresa. As preocupações estão centradas na melhoria da qualidade, tanto do produto como da qualidade de vida dos empregados. Devido à gama e especificidade dos produtos produzidos nestas empresas, resultantes de processos que utilizam temperaturas e pressões altas, grandes caudais de produtos por processar e processados, colunas/reservatórios de grande capacidade e equipamento dinâmico de grandes dimensões, torna-se imprescindível a formação sobre os perigos e riscos decorrentes da actividade normal destas empresas. A asfixia, queda, intoxicação, queimadura pelo frio ou calor, incêndio, explosão, lesão (fractura, incisão, contusão, cegueira, surdez) e a electrocussão são alguns dos riscos. Os riscos dependem das actividades em curso num determinado momento, tendo abordagens específicas e sistematizadas, do ponto de vista da segurança, consoante se trate de espaços confinados, atmosferas explosivas, trabalhos de escavação, trabalhos em altura, trabalhos de manutenção preventiva, entre outros. Na mesma área física e na mesma actividade podemos encontrar riscos diferentes em momentos diferentes devido a alterações de circunstância. Tal como noutros domínios de laboração, também aqui neste contexto a ignorância constitui, habitualmente, o primeiro factor de risco, e a indisciplina o segundo. De entre os factores que, neste contexto, mais predispõem a comportamentos inseguros, salientaríamos a percepção dos riscos. Neste âmbito, distinguimos o voluntarismo e o conhecimento dos riscos escolhidos, que fazem com que estes sejam percepcionados como menos perigosos, do que se fossem impostos. Nesta actividade surgem, igualmente, riscos de efeito remoto, sendo por isso menos receados pelos trabalhadores, no decurso das suas actividades laborais, do que aqueles riscos que possam ter efeitos imediatos. Sucede também, que o facto de o trabalhador não ter experienciado quaisquer acidentes, ter uma longa experiência de trabalho, considerar que possui um elevado controlo sobre os potenciais riscos, leva a que este esteja mais predisposto a adoptar comportamentos inseguros.

Predisposição para comportamentos inseguros:
• percepção de risco com consequências remotas,
• longa experiencia de trabalho,
• não ter experienciado acidentes,
• sobreconfiança,
• ilusão de controlo,
• invulnerabilidade,
• anulação da magnitude de um risco.

Os trabalhadores que pensam que os problemas só acontecem aos outros, assumem uma atitude de sobreconfiança, ilusão de controlo, invulnerabilidade, e deste modo desvalorizam os riscos com que se confrontam. Verificamos ainda que, por vezes, existem recompensas inerentes à adopção de determinado comportamento inseguro, nem sempre identificáveis com facilidade, mas que não deixam de fortalecer a predisposição para a prática de comportamentos de risco. Por vezes, a ancoragem a um comportamento inseguro torna difícil a sua desmistificação mesmo com evidências. Por outro lado, os operativos tendem a anular a magnitude de um risco quando este não é compatível com ideias previamente concebidas.

 

A intervenção
Neste quadro, a gestão da segurança com base nos comportamentos de todos os colaboradores é, absolutamente, indispensável. Neste sentido estas empresas promovem a prevenção dos acidentes através de:
• Análise dos riscos de cada actividade;
• Definição e adopção de medidas de minimização dos riscos;
• Comunicação dos riscos;
• Cumprimento disciplinado das regras de segurança e procedimentos operatórios;
• Exigência e atenção às atitudes próprias e do próximo;
• Reporte de não conformidades observadas;
• Adopção de boas práticas de engenharia e operação;
• Rejeição firme do “desenrascanço”;
• Uso obrigatório do equipamento de protecção individual (EPI) nas zonas operacionais das refinarias;
• Adaptação do EPI a riscos específicos de determinadas actividades ou locais:
   - Nas zonas operacionais, não sujeitas a riscos incomuns, o EPI a envergar é constituído por: capacete branco, fato completo de tecido apropriado, luvas, calçado com características definidas, óculos inquebráveis, protectores auriculares;
   - Em zonas operacionais ou actividades sujeitas a riscos específicos são determinadas alterações ao EPI básico (ex: máscara, viseira, bata e luvas).
Paralelamente são realizadas:
• Formação inicial, dada a quem pela primeira vez entre na refinaria, sobre segurança e comportamentos em vigor, e formação contínua de acordo com as necessidades detectadas;
• Observações preventivas de segurança (OPS) com o intuito de verificar os comportamentos inseguros, para posterior correcção;
• Investigações sobre os incidentes ocorridos;
• Auditorias de segurança às autorizações de trabalho para verificação se estão reunidas as condições de segurança exigidas nestas, bem como, os respectivos anexos (escavações, trabalhos em altura, espaços confinados, etc.).

Algumas soluções:
• incentivos que aperfeiçoem a segurança do local de trabalho,
• sistema de qualidade centrado não só no produto como também na qualidade de vida trabalhadores,
• formação especifica decorrente da identificação de perigos e analise de risco dessa actividade,
• abordagens específicas e sistematizadas consoante o tipo de espaços,
• comunicação dos riscos, com base na sua analise e determinação de medidas,
• promoção de incentivos aos reportes,
• não há cultura de “desenrascanço”,
• observações preventivas de segurança (OPS),
• investigações sobre os incidentes ocorridos,
• auditorias de segurança às autorizações de trabalho.

Apesar de todos estes requisitos e exigências, infelizmente, os acidentes e incidentes continuam a ocorrer, havendo, por isso, um longo caminho a percorrer, que poderá passar por um aumento das OPS e auditorias e segurança, minimizando a indisciplina, assim como, dando mais formação para diminuir a ignorância.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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