AVALIAÇÃO E PERCEPÇÃO DE RISCO DE LESÕES MÚSCULO-ESQUELÉTICAS RELACIONADAS COM O TRABALHO (LMERT) EM ENFERMEIROS DE VIATURA MÉDICA DE EMERGÊNCIA E REANIMAÇÃO (VMER)

01 maio 2017
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Author :   Madalena Torres, Pedro Arezes, Mónica Paz Barroso
Citar ARTIGO: Torres, M. et al. 2010. Avaliação e percepção de risco de lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT) em enfermeiros de viatura médica de emergência e reanimação (VMER). Revista Segurança Comportamental, 2, 14-16 MADALENA TORRES | Enfermeira. Mestre em engenharia humana. Hospital de Braga; PEDRO AREZES | Professor associado. Universidade do Minho; MÓNICA PAZ BARROSO | Professora auxiliar. Universidade do Minho.

Os enfermeiros que apresentam valores mais elevados de percepção do risco, são aqueles que apresentam mais reportes.

Resumo
Este estudo incidiu sobre a avaliação das condições de trabalho de enfermeiros a exercer a sua actividade em emergência pré-hospitalar e teve como âmbito avaliação da sua percepção do risco, assim como a avaliação do risco de desenvolvimento de lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho (LMERT) em actividades típicas deste contexto. Os resultados da percepção, que os enfermeiros apresentaram, face aos factores de risco considerados preponderantes no desenvolvimento de LMERT, são concordantes com os níveis de risco obtidos nas diversas actividades de enfermagem na emergência pré-hospitalar. Neste contexto, tudo leva a crer que os comportamentos de risco adoptados pelos enfermeiros possam ser influenciados pela complexidade e adversidade das condições de trabalho.

Introdução
A investigação internacional tem destacado as LMERT como um problema de saúde com reflexo a nível mundial, nos diferentes contextos ocupacionais, observando-se taxas particularmente elevadas de LMERT entre os enfermeiros (Who, 2002). No caso específico da actividade de emergência pré-hospitalar, esta desenvolve--se em condições exigentes e complexas devido aos inúmeros constrangimentos a nível espacial, temporal e à necessidade de trabalho em equipa (Silva e Aparício, 2006). Deste modo, a adversidade das condições físicas, mecânicas e psíquicas constitui um dos principais factores de risco para o desenvolvimento de alterações músculo-esqueléticas (Magnago et al., 2007). Aspectos como a adopção de posturas incorrectas, longos períodos em posturas penosas, manipulação de peso excessivo, uso de mobiliários, equipamentos e espaços de trabalho inadequados, realização de tarefas que exigem rapidez de raciocínio e eficácia, condições ambientais desfavoráveis, trabalho por turnos, horas extras, acumulação de funções, entre outros, constituem também factores preponderantes no desenvolvimento de patologia músculo-esquelética (Trinkoff et al., 2002).

“(…) os comportamentos de risco adoptados pelos enfermeiros possam ser influenciados pela complexidade e adversidade das condições de trabalho.”

Assim, este estudo visou caracterizar a percepção dos enfermeiros sobre o risco de desenvolverem LMERT no contexto da sua actividade na emergência pré-hospitalar e a relação dessa percepção com o risco objectivo, associado às actividades de assistência e tratamento, movimentação e transferência de doentes e manipulação manual de cargas (MMC).

Materiais e Métodos
Neste estudo quantitativo, de carácter exploratório-descritivo e transversal, foram seleccionados dois instrumentos fundamentais de recolha de informação:
Questionário – desenvolvido especificamente para este estudo e que compreende cinco secções, tendo sido previamente testado e que permitiu a caracterização da percepção do risco de desenvolvimento de LMERT dos enfermeiros.
O estudo teve como população-alvo os 598 enfermeiros que, nos meses de Março a Junho de 2009, prestavam serviço nas VMERs (Viatura Médica de Emergência e Reanimação) em Portugal continental.
Métodos REBA (Hignett e McAtamney, 2000) e MAC (Hse, 2002) – permitiram a quantificação do nível de risco de desenvolvimento de LMERT associado a diversas actividades de enfermagem em contexto de emergência pré-hospitalar.
A técnica REBA foi empregue para a quantificação do risco associado às actividades de assistência, tratamento, movimentação e transferência de doentes, e o método MAC foi aplicado a tarefas de MMC, como elevar/baixar, transportar ou elevar em equipa. Para aplicação destas metodologias, foram utilizadas imagens, obtidas em contexto real de trabalho, de seis enfermeiros de uma VMER do norte do país.

Resultados e Discussão
Questionário
Participaram no estudo 363 enfermeiros, correspondendo a 60,7% dos que trabalham nas VMERs em Portugal continental (fig. 1). A maioria é do sexo masculino (65,6%), com uma média de idade de 35,9 anos, exercendo a profissão há mais de 10 anos.
Todos os inquiridos, prestam serviço na VMER e no Hospital/Centro de Saúde (H/CS), sendo que, 16,8% acumulam também noutra instituição. A carga horária média semanal é 50,2 horas (H/CS + VMER) e 65,2 horas (H/CS + VMER + outra instituição). A maioria é do sexo masculino (65,6%), com uma média de idade de 35,9 anos, exercendo a profissão há mais de 10 anos. Todos os inquiridos, prestam serviço na VMER e no Hospital/Centro de Saúde (H/CS), sendo que, 16,8% acumulam também noutra instituição. A carga horária média semanal é 50,2 horas (H/CS + VMER) e 65,2 horas (H/CS + VMER + outra instituição).

Fig. 1 – Distribuição da amostra pelas 3 zonas geográficas de Portugal continental

Acidentes de Trabalho
Reportaram ter tido pelo menos um acidente de trabalho 46% dos respondentes, sendo que o mais frequentemente reportado foi o acidente associado a LMERT (45,9%) – fig. 2, que por sua vez foi o que mais contribuiu para o absentismo (59,4% dos dias perdidos).

Fig. 2 – Distribuição da amostra segundo o tipo de acidente de trabalho

Queixas e sintomatologia músculo-esquelética (no último ano):
Verificou-se uma elevada prevalência de queixas músculo-esqueléticas (82,1%), sendo a dor o sintoma mais referido (91,6%).
As regiões corporais mais afectadas foram a lombar, cervical e membros inferiores (fig. 3).
Faltaram ao trabalho por queixas, 30,9% dos respondentes.

Fig. 3 – Frequência de queixas músculo-esqueléticas por região corporal

Percepção do risco de desenvolvimento de LMERT:
Os enfermeiros identificaram como potenciais factores de risco de LMERT, os aspectos relacionados com as dimensões: (1) espaço, equipamentos/mobiliário; (2) aspectos organizacionais e condições laborais adversas; (3) actividades e (4) posturas. Mais de 90% dos respondentes reconheceram que os factores referenciados na fig. 4 estão frequentemente associados ao risco de LMERT na sua actividade. As actividades mais frequentemente assinaladas (> 80%) como associadas a risco de LMERT são as apresentadas na fig. 5. Quanto às posturas de trabalho, mais de 90% dos participantes assinalaram como associadas a risco de LMERT, as indicadas na fig. 6.

Fig. 4 – Frequência referente às afirmações sobre as dimensões 1 e 2

Fig. 5 – Frequência referente às afirmações sobre a dimensão 3

Fig. 6 – Frequência referente às afirmações sobre a dimensão 4

Condições de trabalho
A análise dos resultados evidencia a importância atribuída pelos enfermeiros a diferentes aspectos da actividade de trabalho e ao potencial contributo destes para o aumento do risco de LMERT. Dos vários aspectos referidos, mais de 90% dos respondentes salientam os contemplados na fig. 7. Entre as várias situações que condicionam as posturas adoptadas durante as actividades de trabalho no pré-hospitalar e assinaladas pela maioria dos inquiridos (> 80%), salientam-se: exiguidade dos espaços de trabalho, manipulação de peso excessivo, transposição de obstáculos, macas da ambulância sem altura ajustável e iluminação inadequada.
No âmbito específico da prevenção desta problemática, os respondentes sugeriram a possibilidade de implementação de uma série de medidas preventivas/correctivas (fig. 8).

Fig. 7 – Frequência referente às condições de trabalho

Fig. 8 – Directrizes sugeridas para minimizar o risco de LMERT na emergência pré-hospitalar

Avaliação “Objectiva” do Risco de LMERT
Aplicação da técnica REBA
Os valores REBA, obtidos das várias posturas analisadas, correspondentes a cada uma das actividades desenvolvidas pelos enfermeiros no pré-hospitalar, variaram de 11 a 13 pontos, indicando, em termos genéricos, um nível de risco muito elevado, apontando para a necessidade de uma intervenção imediata.
Aplicação da técnica MAC
O risco de LMERT associado às diversas tarefas de MMC analisadas foi classificado entre o nível médio e elevado.
Confronto entre o risco percebido e o risco real
Os resultados deste estudo apontam para uma elevada percepção do risco de LMERT por parte dos enfermeiros, bem como para a existência de um elevado nível de risco associado às tarefas analisadas. Esta situação poderá dever-se ao facto dos comportamentos serem influenciados, em larga escala, pelo contexto de trabalho no âmbito da emergência pré-hospitalar. Na prática, a emergência pré-hospitalar possui características de risco específicas, como por exemplo, exiguidade de espaços de trabalho, diferença de nível entre as superfícies de transferência do doente, ausência/ insuficiência e deficiente manutenção dos equipamentos, condições laborais adversas, rapidez de actuação, o que poderão manifestamente influenciar a adopção de comportamentos de risco.

Algumas causas para o desenvolvimento de patologia músculo-esquelética:
– posturas incorrectas,
– longos períodos em posturas penosas,
– manipulação de peso excessivo,
– uso de mobiliários, equipamentos e espaços de trabalho inadequados,
– realização de tarefas que exigem rapidez de raciocínio e eficácia,
– condições ambientais desfavoráveis,
– trabalho por turnos,
– horas extras,
– acumulação de funções.

Conclusões
Os resultados obtidos ao longo do estudo evidenciam, de forma clara, a presença de múltiplos factores de risco e o importante contributo dos mesmos para a existência de níveis de risco classificados entre o moderado e o muito elevado. As queixas do foro músculo-esquelético são superiores no sexo feminino e tendem a diminuir com a idade e a antiguidade na profissão. Tal como expectável, os enfermeiros que trabalham mais horas por semana são também aqueles que tendem a apresentar mais queixas associadas ao sistema músculo-esquelético e os que referem já terem tido pelo menos um acidente de trabalho. De igual modo, à medida que aumenta a carga horária semanal, aumenta o absentismo entre estes profissionais, maioritariamente associado às queixas ou à ocorrência de acidentes de trabalho. Finalmente, será relevante enfatizar que são os enfermeiros que reportaram mais queixas e acidentes de trabalho, os que apresentam valores mais elevados de percepção do risco.

Bibliografia
WHO, The World Health Report 2002, Reducing Risks, Promoting.Healthy Life, Geneva, World Health Organization, 2002, p.13.
Silva, L. e Aparício, P., Ergonomia Hospitalar. Metodologia da Intervenção Ergonómica, 2006, p.17.
Magnago, T. et al., Distúrbios músculo-esqueléticos em trabalhadores de enfermagem: associação com condições de trabalho, Rev. Brasileira de Enfermagem, Nov-Dez, 60(6), 2007, pp. 701-705.
Trinkoff, A. et al., Musculoskeletal Problems of the Neck, Shoulder and Back and Functional Consequences in Nurses, American Journal of Industrial Medicine, 41, 2002, pp. 170–178.
Hignett, S. e McAtamney, L., Rapid Entire Body Assessment (REBA), Applied Ergonomics, 31(2), 2000, pp. 201-205.
HSE, Manual handling Assessment Charts (MAC), Health & Safety Executive (HSE) and Health & Safety Laboratory (HSL), UK., 2002.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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