OS PROFESSORES FACE AO BULLYING: MEROS OBSERVADORES OU INTERVENIENTES ACTIVOS?

01 maio 2017
(0 votos)
Author :   Sofia Melo Valente
Citar ARTIGO: Valente, S. M. 2010. Os professores face ao bullying: meros observadores ou intervenientes activos?. Revista Segurança Comportamental, 2, 19-20 SOFIA MELO VALENTE | Professora do ensino básico, disciplinas de língua portuguesa e inglês. Coordenadora do departamento intermédio de língua portuguesa de 2º ciclo

Os professores deverão adoptar comportamentos ajustados à escola «dita inclusiva», uma vez que esta poderá ter o papel de filtro social do fenómeno bullying – mas…faltam recursos humanos!

Bullying: o que é e quando começou?
Apesar de ser um termo relativamente recente, o bullying, ou acto de maltratar verbal, física ou emocionalmente alguém, sentido como inferior pelo indivíduo que pratica os maus-tratos é, provavelmente, tão antigo como o próprio homem. Pode variar entre a simples provocação verbal até actos extremos, como assassínio, e pode resultar em traumatismos graves e até conduzir ao suicídio.
Verdadeiramente novo é o nosso olhar, sobre este comportamento, e a atenção que passámos a dispensar ao seu estudo e análise. A sociedade desenvolvida em que vivemos, mais reflexiva e preocupada com a qualidade de vida dos cidadãos a todos os níveis, “acordou” recentemente para este grave problema e para o seu impacto negativo a todos os níveis. Tenta agora estudá-lo para o compreender e consequentemente agir de forma concertada, tanto a nível de prevenção como de protecção, caminhando para a sua resolução.

Quais os intervenientes num caso de bullying e porquê?
Para que exista bullying, tem de haver um bullie – aquele que provoca –, e uma vítima, - aquele que sofre a provocação. Poderão ou não haver também observadores passivos e/ou activos. O que determina a atribuição da designação de bullie a alguém é o padrão repetido da provocação e não um comportamento pontual ou isolado. Todos podemos perder o controlo, mas não é natural que isso suceda com frequência, sobretudo na forma de agressão. As vítimas são vistas pelo bullie como vulneráveis pelas mais diversas razões (Boletim dos Professores, setembro de 2010):
- terem características físicas que as tornam mais passíveis de ser criticadas,
- serem excessivamente tímidas,
- serem muito protegidas pelos pais,
- bem sucedidas demais ou até, provocadoras, entre outras.

Será o bullying restrito às crianças?
Não obstante ser mais comum nas crianças e jovens, este comportamento pode também ser observado entre adultos, por exemplo, colegas de emprego. A sua forma terá então de ser diferente consoante o contexto em que os intervenientes se encontrem e as condicionantes inerentes a esse contexto, embora, o problema seja idêntico. O problema encontra-se no comportamento agressivo do bullie, e este tem como causas (Boletim dos Professores, setembro de 2010):
- necessidade de se sentir mais forte,
- afirmação através de provocações a alguém que percepciona como mais fraco,
- e a satisfação que experimenta durante esse processo.

“Na maior parte das vezes é nesses intervalos movimentados, barulhentos e confusos que tudo acontece e o bullying começa.”

A escola, palco privilegiado de bullying
Ao contrário do que sucedia antigamente, vivemos agora numa sociedade que preconiza uma escola para todos. Assim, todos têm actualmente não só o direito como a obrigatoriedade de frequentar a escola, actualmente até ao final do ensino básico, mas recentemente alargado até aos 18 anos (Beane, Allan L., 2006). A escola «dita inclusiva» assume como pretensão a integração de todos, independentemente da sua diversidade, embora o problema de escassez de recursos humanos nas escolas se visione como uma grande dificuldade para a concretização desse objectivo. Pois, somente com um número suficiente destes meios humanos - docentes, pessoal técnico e pessoal auxiliar - é que a integração se pode caracterizar como real. Estar na escola não é apenas estar na sala de aula. Estar na sala de aula é cada vez menos uma simples transmissão de conhecimentos, e passa muito mais por uma forma de transmitir valores, limites e autoridade, assim como, de carinho e compreensão. O professor deve chamar a atenção sempre que os alunos não cumpram os deveres, mas deve também salvaguardar os seus direitos. Deve, em suma, ser alguém em quem o aluno possa confiar. Os alunos procuram nos professores coisas diferentes: uns, alguém a quem responsabilizar pelas suas próprias frustrações e com quem se revoltar; e outros, o carinho e atenção que não têm, seja por que motivo for. Os nossos alunos da escola «dita inclusiva» são provenientes de meios diametralmente opostos, sendo por este motivo muito diferentes uns dos outros. Numa mesma turma do ensino regular, podemos ter alunos com necessidades educativas especiais de vários tipos, incluindo alunos com deficiências físicas graves; alunos cujas famílias vivem no limiar da pobreza; alunos institucionalizados longe da família contra vontade por ordem do tribunal; alunos sem carências económicas, mas com grandes carências afectivas e, eventualmente, alguns alunos que não tenham qualquer tipo de carência maior. Cada turma é assim uma grande miscelânea e cada escola uma miscelânea ainda maior, tanto nas salas de aulas como durante os momentos de intervalo entre as actividades lectivas. Na maior parte das vezes é nesses intervalos movimentados, barulhentos e confusos que tudo acontece e o bullying começa, pelas mais insignificantes e diversas razões e sem que o professor tenha tido qualquer oportunidade de observar.

Comportamento dos professores na escola «dita inclusiva»:
• sentir que a sala de aulas não é só um local de transmissão de conhecimentos, mas também de transmitir valores,
• mostrar carinho e compreensão pelos alunos,
• chamar a atenção dos alunos relativamente ao seus deveres mas salvaguardar também os seus direitos,
• assumir a pretensão de ser alguém em quem os alunos confiem,
• conhecer os seus alunos suficientemente,
• em situação de presença de bullying:
- enfrentar o problema de imediato,
- assumir o papel de mediador, com razoabilidade, bom senso e paciência,
- procurar identificar e analisar a situação,
- auscultar os intervenientes e observadores (se existirem).

Porém, a partir do momento em que entra na sala de aula, e ainda que não tenha presenciado o comportamento de bullying, o professor deve conhecer os seus alunos suficientemente bem para sentir quando algo está mal. A partir daí, terá a obrigação de descobrir a razão e começar a identificar o problema, auscultando os intervenientes e se necessidade os observadores.
A identificação e análise do problema devem ser realizados tão cedo quanto possível já que o bullying é um comportamento aprendido que se torna tanto mais interiorizado quanto mais vezes for levado a cabo. A situação de poder e controlo dá prazer e a própria antecipação dessa situação começa, por si só, a proporcionar um prazer quase inexplicável e involuntário ao agressor, que vai tentar repeti-la o máximo de vezes possível. O agressor, quando frustrado, reincide mais frequentemente para transferir o seu sofrimento a outrem, sentindo que controla a situação.
Depois de identificar a situação, o professor não pode “fechar os olhos”, nem ignorar, tem de sinalizar o conflito de imediato e passar a ser o seu mediador, de modo a ajudar ambos os intervenientes com intuito da sua resolução e procurando colmatar futuros conflitos. É de referenciar o papel importante do moderador, devendo assumir um papel activo com base na razoabilidade, bom senso e paciência.
Em suma, o professor terá de conseguir transmitir aos alunos a ideia de que todos devem lutar para que a escola seja um “oásis” de segurança, no meio das suas vidas tantas vezes conturbadas.

Bibliografia
Boletim dos Professores, Nº19, Lisboa, Editorial do Ministério da Educação, setembro, 2010.
BEANE, Allan L., A Sala de Aula sem Bullying, Porto, Porto Editora, 2006.

  • PROMOÇÃO DA SEGURANÇA INTERPESSOAL EM MEIO ESCOLAR

    PROMOÇÃO DA SEGURANÇA INTERPESSOAL EM MEIO ESCOLAR

    A existência de grupos distintos com diferentes tipos de envolvimento em actos violentos na escola. A influência das variáveis idade, género, região do país e até de cada escola faz a diferença! 

  • VAMOS CONVERSAR: INFLUÊNCIA NA MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

    VAMOS CONVERSAR: INFLUÊNCIA NA MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

    Impulsionar a mudança comportamental, é um processo contínuo e lento, tendo por base o conhecimento, reconhecimento e respeito da parte fundamental do sistema de segurança: as pessoas!

  • FACTORES DE RISCO SÍSMICO NA PERSPECTIVA LEIGA

    FACTORES DE RISCO SÍSMICO NA PERSPECTIVA LEIGA

    Discutem-se os pressupostos nos quais estão ancoradas as representações sociais sobre o risco sísmico. Ajustar a legislação aos valores daqueles que precisam de ser protegidos dos perigos será uma forma de dar lugar a novos padrões de relacionamento entre ciência e a sociedade.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…