SUICÍDIO E RISCO DE SUICÍDIO: UMA PROBLEMÁTICA DE SAÚDE PÚBLICA

01 maio 2017
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Author :   Susana Sobral Mendonça
Citar ARTIGO: Mendonça, S.S. 2010. Suicídio e risco de suicídio: uma problemática de saúde pública. Revista Segurança Comportamental, 2, 26-27 SUSANA SOBRAL MENDONÇA | Enfermeira. Mestre em Ciências da Educação, Educação para a Saúde

O risco de suicído e o suicído é um problema de saúde pública. Para a sua prevenção ser eficaz deverá a intervenção ser multidisciplinar, dirigida para o indivíduo, a família e comunidade.

O suicídio é o acto pelo qual o indivíduo se dá à morte, qualquer que seja a causa determinante deste acto e meio usado para o concretizar” (E. Lisle in Ramos 2000, p.94). O suicídio destaca-se como um problema perturbador na sociedade nomeadamente em indivíduos que não emitiram sinais de alerta que permitissem a intervenção de profissionais de saúde, família ou da comunidade. As faixas etárias deste fenómeno situam-se predominantemente nos jovens e idosos (Coutinho, 2006, p.153), provocando questões prementes à sociedade, como, por exemplo, quais os factores desencadeantes deste processo? Qual o papel da sociedade perante esta circunstância? Quais as intervenções a desenvolver? E estas questões tomam valor preditivo nas situações em que não existe patologia prévia. Em alguns casos poderá ser um primeiro sintoma de patologia, ou não, e ser apenas resultado de pressões circunstanciais que conduzem o indivíduo à autodestruição, consequente de dificuldade de adaptação a contextos que se lhe afiguram como demasiado agressivos, obstaculizantes e incontornáveis a que este responde de forma desadequada e doentia pondo fim à sua existência.
Apesar do suicídio, cada vez mais, ser praticado por um grande número de indivíduos (Coutinho, 2006, p.153), ele é sempre um acto individual, ou seja, o acto é em si revelador de uma personalidade - cada indivíduo pratica-o de acordo com a sua realidade, os seus problemas, a sua forma de ver o mundo real - razão pela qual se torna difícil estabelecer condutas de intervenção na prevenção, como, ainda, dificuldade de percepção do momento em que o indivíduo está sob maior risco. Este fenómeno terá, por isso, que ser analisado à luz de cada circunstância e de cada indivíduo, como afirma Durkheim (1996, p.275) “cada suicida dá ao acto um cunho pessoal”.

“O suicídio e o risco de suicídio têm-se constituído como uma enorme problemática para a saúde pública, pelo número significativamente crescente em todo o mundo nos últimos 50 anos; é uma das três principais causas de morte na faixa etária entre os 15 e os 34 anos (OMS, 2006).”

O suicídio e o risco de suicídio têm-se constituído como uma enorme problemática para a saúde pública, pelo número significativamente crescente em todo o mundo nos últimos 50 anos. É uma das três principais causas de morte na faixa etária entre os 15 e os 34 anos (OMS, 2006, p.153). Recentemente o suicídio atinge também os idosos que se sentem muitas vezes incapacitados, considerando-se inúteis, na grande maioria abandonados e afectivamente solitários.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2008, em Portugal registaram--se 1035 suicídios. No entanto, há especialistas que pensam que o número de suicídios poderá ser ainda superior, já que existem mortes às quais não é possível determinar a causa, como por exemplo, acidentes de carro, afogamentos e outras.

OS DADOS
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2008 em Portugal registaram-se 1035 suicídios, no entanto, há especialistas que pensam que o número de suicídios poderá ser ainda superior, já que existem mortes às quais não é possível determinar a causa como, por exemplo, acidentes de carro, afogamentos e outras.

Este fenómeno de tão elevada complexidade tem sido alvo de preocupação da OMS, que em 1999 lançou o SUPRE (Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio), com objectivos de prevenção e controle do suicídio. Esta associação é constituída não apenas por profissionais de saúde, mas por pessoas representantes de vários grupos e áreas que conjugam entre si um vasto leque de competências profissionais, melhorando a capacidade de intervenção na prevenção do suicídio. Assim, o risco de suicídio e o suicídio passaram a assumir-se como um problema social que a todos preocupa, abandonando-se a ideia da natureza que se tinha até então, ou seja, ser exclusiva dos profissionais de saúde. Corroborando Sampaio (1991, p.40) “o estudo do suicídio ultrapassa o âmbito da psicologia e da psiquiatria, para dever ser objecto de uma colaboração interdisciplinar”.

“(…) maior risco de suicídio não coincide com o auge da depressão, (geralmente marcado por apatia e uma tremenda lentidão de raciocínio), mas sim na fase seguinte, em que a inactividade começa a tornar-se menos acentuada.”

A intervenção multidisciplinar torna-se mais eficaz se estiver sedimentada em conhecimentos e aspectos caracterizadores do suicídio e da tentativa de suicídio, conteúdos estes que poderão ajudar à compreensão e desenvolvimento de atitudes comportamentais enquanto seres individuais e concomitantemente como seres colectivos. O comportamento suicida não é um acto isolado, mas, pelo contrário, resulta geralmente de uma complexa interacção dos vários factores: as perturbações mentais (taxas mais elevadas para a depressão e abuso de substâncias) e factores sociais, psicológicos e ambientais e perturbações da personalidade (Coutinho, 2006, p.159). O suicídio e as tentativas de suicídio são mais frequentes em pessoas com doenças psiquiátricas; estas pessoas estão em grave e profunda depressão, contudo o maior risco de suicídio não coincide com o auge da depressão, (geralmente marcado por apatia e uma tremenda lentidão de raciocínio), mas sim na fase seguinte, em que a inactividade começa a tornar-se menos acentuada.
O conhecimento dos factores desencadeantes é fundamental para estabelecer um diagnóstico precoce da pessoa em risco. Para além destes, coexistem, em algumas situações, sinais e sintomas de alerta, como a confusão, dor, desespero; negação, angústia e solidão; inquietação, regressão e desesperança e sinais de baixa auto-estima. Estes mecanismos de alerta possibilitam implementar medidas para a modificação ou eliminação do comportamento suicida, evitando deste modo a autodestruição.
A OMS (2006, p.3) para além de factores desencadeantes define também factores de protecção no comportamento suicida geralmente localizados em padrões familiares (bom relacionamento e o apoio familiar); personalidade e estilo cognitivo (relações sociais, auto-conceito, auto-estima, etc.); factores culturais e sócio-demográficos. Estes factores são pilares essenciais à prevenção do comportamento suicida, daí ser crucial a sua fomentação e fortalecimento através de intervenções profissionais dirigidas para o indivíduo, a família e comunidade.

Bibliografia
Durkheim, Émile, O suicídio um estudo sociológico, Lisboa, Editorial Presença, 1996.
Coutinho, Maria; Estellita-Lins, Carlos; Oliveira, Verónica, Acompanhamento terapêutico: intervenção sobre a depressão e o suicídio, Revista de Psicanálise Ano X, nº 18, setembro, 2006, Universidade São Marcos, Brasil.
Organização Mundial de Saúde, Prevenção do Suicídio: um recurso para conselheiros, Departamento de Saúde Mental e de Abuso de Substâncias, Genebra, 2006.
Organização Mundial de Saúde, Transtornos Mentais e Comportamentais, in SUPRE, Prevenção do Suicídio: Manual para Professores e Educadores, Departamento de Saúde Mental, Genebra, 2000.
Sampaio, D., Ninguém Morre Sozinho, in O adolescente e o Suicídio, Lisboa, Editorial Caminho, 1991.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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