COMPORTAMENTO DO CONDUTOR E SINISTRALIDADE: ALGUNS NÚMEROS

01 maio 2017
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Author :   Ana Maria Coroado & Maria João Barros
Citar ARTIGO: Ana Maria Coroado, A. M., Barros, M. J. 2010. Comportamento do condutor e sinistralidade: alguns números. Revista Segurança Comportamental, 2, 30-31 ANA MARIA COROADO | Psicóloga. Unidade prevenção rodoviária da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária; MARIA JOÃO BARROS | Socióloga. Unidade prevenção rodoviária da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

A adopção de comportamentos de risco é transversal às classes etárias, embora perante a variável género as diferenças já se verificam.

O presente artigo pretende abordar o papel fulcral da percepção na explicação do comportamento dos condutores, uma das variáveis preditoras da intencionalidade do cumprimento da legislação rodoviária, presente na teoria do comportamento planeado de Ajzen e Fishbein e suas implicações na sinistralidade. Para o efeito, com base nos dados estatísticos de sinistralidade de 2007 e 2008, equacionam-se as temáticas de género e idade, colocando a tónica na transversalidade socio-demográfica deste fenómeno da modernidade recente.
A condução é uma actividade extremamente complexa que requer a elaboração de uma sucessão de operações/tarefas, com implicação ao nível de três dimensões do funcionamento psicológico: Cognitiva (saber-saber, conhecimentos sobre a tarefa da condução); Experiencial (saber-fazer, a sua operacionalização) e; Emocional (saber--ser, a atitude, o comportamento, o outro, a correcta partilha do espaço rodoviário). Colocar estas três dimensões no centro da tarefa da condução (previsão, decisão e acção), exige que o condutor esteja em plena posse de todas as suas capacidades físicas e psicológicas. Daí que, qualquer comportamento menos adequado possa assumir um carácter de gravidade.
No entender de vários autores, as transgressões são sobretudo determinadas por factores motivacionais e atitudinais. Um dos modelos teóricos mais utilizados na tentativa explicativa da predição da intenção de cumprir ou não a legislação rodoviária é a teoria do comportamento planeado de Ajzen e Fishbein que postula o papel central da intenção nos comportamentos em função de atitudes.

“Os processos de modificação do comportamento do condutor constituam uma tarefa difícil, uma vez que as pessoas fazem uma análise de si próprias muito diferente da forma como vêem os outros.”

Apesar de muitas variáveis concorrerem como preditoras da respectiva intencionalidade, como as atitudes, os traços de personalidade, a crença, os valores, abordar-se--á de forma mais direccionada a questão da percepção, uma vez que é a percepção que as pessoas utilizam na explicação do seu comportamento e dos outros, sendo esta uma das preocupações mais marcantes na área da psicologia social.
A maioria dos condutores percepciona as suas próprias capacidades de condução como sendo superiores às dos outros, nelas confiando em demasia (situação disposicional), em detrimento das condições externas, o que se torna verdadeiramente assustador, uma vez que ao sobrestimarem as suas capacidades, subestimam os riscos inerentes, tornando-se menos cuidadosos na partilha do espaço rodoviário, acabando por se reflectir em muitas das transgressões cometidas. No entanto, este quadro perceptivo sofre um volte face, quando algo corre mal (um acidente, por exemplo), remetendo de imediato para o paradigma inicial de atribuição causal face aos nossos comportamentos - residir menos em nós (situação disposicional) e mais na situação externa – os outros condutores, que conduzem de forma perigosa, o mau estado das vias, as condições atmosféricas, e por aí adiante, num infindável desfilar de razões e desculpas.
Daí que, os processos de modificação do comportamento do condutor constituam uma tarefa extremamente difícil, uma vez que as pessoas fazem uma análise de si próprias muito diferente da forma como vêem os outros. Ao considerarem-se conscientes, cumpridoras das regras estabelecidas e isentas de erros, facilmente se compreende a dificuldade em concretizar os objectivos das campanhas, dado que vai servir normalmente para as pessoas pensarem que todas estas acções se devem aplicar aos outros, dado que elas próprias já cumprem correctamente as mensagens sensibilizadoras veiculadas.

“A condução requer três dimensões do funcionamento psicológico:
- Cognitiva: saber-saber, conhecimentos sobre a tarefa da condução,
- Experiencial: Saber-fazer, a sua operacionalização,
- Emocional: Saber-ser, a atitude, o comportamento, o outro, a correcta partilha do espaço rodoviário.”

A subjectividade das auto-avaliações contracena, infelizmente, com a objectividade dos números da sinistralidade rodoviária. Neste âmbito, e em demasiados casos há, de facto, muitas razões e desculpas a elencar. As estatísticas mostram-nos que, embora a evolução seja satisfatória, muito há a fazer nos planos preventivo (pedagógico e educativo) e punitivo.
Comparativamente com os outros utentes da via, o condutor é o agente do “xadrez” rodoviário investido de mais poder, que lhe é conferido instrumentalmente pela condução de veículos com maior ou menor massa física e potencialmente fatais para todos os outros utentes. Desta premissa sobrevém a relevância das decisões e práticas destes actores, cujas performances se reatam à maior ou menor segurança rodoviária. A adopção de comportamentos/práticas de risco parece ser proporcionalmente transversal à pirâmide etária, assumindo contornos distintos de acordo com o perfil/tipologia idiossincrático, social e demográfica de pertença do actor. De acordo com os dados de sinistralidade de 2007 e 2008 da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, as distribuições etárias dos condutores intervenientes em acidentes com vítimas mostram-nos um desenho ligeiramente distinto no que respeita à questão de género sendo que, o sexo feminino exibe uma média inferior à do sexo masculino (≈36 anos vs ≈40 anos). Conceptualmente, esta diferença de médias estará compreendida na menor adopção de comportamentos de risco no sexo feminino, matéria que não poderá ser isolada do acesso historicamente mais recente a práticas socialmente (quase) confinadas ao sexo masculino. De facto, a matéria empírica traduz inexoravelmente a construção social da realidade (Berger, Luckmann, 2004).
Estatisticamente parece não existir correlação entre a idade e a gravidade das lesões. Os dados sugerem que não há tendência estatisticamente significativa para correlacionar a maior ou menor gravidade das lesões com este ou aquele nível etário. Não obstante a adopção de comportamentos de risco estar perfeitamente definida na literatura como práticas associadas, preferencialmente, aos escalões mais jovens, a estatística mostra-nos um cenário mais “democrático” no que concerne ao número de condutores vítimas. Ancorada à exposição/construção do próprio risco, a mudança de práticas dos condutores será de indelével importância sendo que, matérias como o cumprimento integral do corpo normativo e a percepção objectiva desse risco assumem um papel preponderante para quem, de facto, tem poder para alterar esta conjuntura.

Bibliografia
AJZEN, I. ; FISBEI, M, Understanding Attitudes and Prediting Social behaviour, Englewood-Cliffs, N.J., Prentic-Hall, 1980.
SOUSA, E. ; FERREIRA, A., Perspectivas Divergentes para os Acidentes Rodoviários: Uma Análise Atribucional, in Actas do Seminário Multidisciplinar sobre Segurança e Sinistralidade Rodoviária, Lisboa, ISPA, 1992, pp. 69-80.
BERGER, Peter L .; LUCKMANN, Thomas, A Construção Social da Realidade, Petrópolis, Editora Vozes. 1998.

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    Incremento do âmbito da propriedade intelectual da marca “Segurança Comportamental”, aplicados a bens e serviços

    Âmbito da propriedade intelectual da marca “Segurança Comportamental”, aplicados a bens e serviços, devido à necessidade de maior rigor técnico-científico no mercado. O seu titular pode obstar a que terceiros, sem a sua autorização expressa produzem ou comercializem tais bens ou serviços, e, em certos casos, assegurando que tal conduta pode ser punível em termos criminais. “Segurança Comportamental” encontra-se aberta a contribuir cooperativamente no mercado.

  • A FADIGA NA CONDUÇÃO

    A FADIGA NA CONDUÇÃO

    A fadiga é um aspeto que tende a ser menosprezado, uma vez que a sua conceptualização é de grande complexidade e de uma enorme subjetividade. Cabe ao próprio condutor tirar as devidas ilações do seu estado de cansaço e aferir se, efetivamente se encontra ou não em condições de iniciar ou prosseguir uma viagem. Por enquanto, ainda não existem equipamentos de fiscalização em utilização pelas forças de segurança capazes de diagnosticar o estado de fadiga de um condutor. O presente artigo centra-se, essencialmente, numa visão ampla do estado de sinistralidade rodoviária mundial e nacional, alertando para os vários perigos inerentes à condução, definindo e conceptualizando o conceito relativo a fadiga e elencando uma série de medidas preventivas a tomar por forma a não se incorrer no risco de condução sob efeito da fadiga.

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    Na gestão do risco do sistema rodoviário, as medidas que apontam para a redução do risco podem ser desenvolvidas nas áreas da engenharia e do comportamento humano.

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A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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