FOTOGRAFIA EUROPEIA E NACIONAL DOS RISCOS PSICOSSOCIAIS: APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DO INQUÉRITO EUROPEU ÀS EMPRESAS SOBRE NOVOS RISCOS EMERGENTES

01 maio 2017
(1 Vote)
Author :   Sónia P. Gonçalves & Natividade Gomes Augusto
Citar ARTIGO: Gonçalves, S.P., Gomes Augusto, N. 2010. Fotografia europeia e nacional dos riscos psicossociais: apresentação dos resultados do inquérito europeu às empresas sobre novos riscos emergentes. Revista Segurança Comportamental, 2, 32-35 SÓNIA P. GONÇALVES | Psicóloga. Investigadora no CIS. Professora assistente no Instituto Piaget; NATIVIDADE GOMES AUGUSTO | Socióloga. Investigadora social. Técnico superior de segurança, higiene e saúde. Auditora 18001.

Falta acção a Portugal, embora se preocupe com os novos riscos emergentes! Portugal ocupa o 1.º lugar dos países EU-27 ao nível da preocupação com as questões do stress no trabalho e violência ou ameaça no trabalho e o 2.º lugar ao nível da intimidação ou assédio no trabalho, mas encontra-se em 26.º lugar ao nível da % de procedimentos implementados.

O presente texto tem por objectivo apresentar os principais resultados do recente inquérito europeu às empresas sobre novos riscos emergentes realizado pela European Agency for Safety anf Health at Work (Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, EU-OSHA), realçando em especial os resultados médios europeus e os de Portugal. O crescente estudo dos novos riscos psicossociais no trabalho advém da necessidade de que os decisores políticos e sociais têm de dar resposta às indicações da União Europeia (e.g., Directiva-Quadro 89/391/CEE) que prevê que todos os trabalhadores da Europa experienciem níveis elevados de saúde e segurança no trabalho. No sentido de dar continuidade a este caminho a EU-OSHA, realizou em 2009, este inquérito que envolveu 28649 entrevistas a dirigentes de empresas e 7226 entrevistas a representantes em matéria de segurança e saúde em 31 países, UE-27, acrescida da Croácia, da Noruega, da Suíça e da Turquia (contudo, apresentamos os resultados da EU-27) a diferentes sectores de actividade. O inquérito “(…) explores the view of mangers and workers’representatives on how health and safety risks are managed at their workplace” (p. 11), com o objectivo de caracterizar as políticas na área da saúde e segurança no trabalho em diferentes países e sectores, tentando com isto identificar os factores que facilitam ou dificultam a implementação de práticas positivas, bem como os desafios ainda presentes neste contexto.
O relatório pode ser estruturado em duas grandes secções, por um lado, (1) a caracterização do sistema de gestão das práticas de segurança e saúde no trabalho (SST), e por outro (2) a caracterização em matéria de riscos psicossociais especificamente. Os valores apresentados neste texto referem-se à % de empresas.

Secção 1 - Resultados de caracterização do sistema de gestão de práticas de SST
(capítulos 2 e 4 do relatório)

As empresas têm políticas formais de saúde e segurança ocupacional?
76% das empresas da EU-27 recorre a políticas formais ao nível da SST, 33% dos inquiridos acredita que essas políticas têm um grande impacto na SST do seu local de trabalho e 52% que tem algum impacto. Em Portugal as empresas ainda não têm políticas implementadas, sendo que Portugal ocupa o 23.º lugar ao nível dos países com políticas formais de SST implementadas.

Quais as principais razões para as empresas não implementarem políticas de saúde e segurança no trabalho?
As duas principais razões apontadas são: “não é necessário, tendo em conta os riscos de SST” (54%) e “falta de competências” (51%).

Qual o processo e conteúdo das avaliações de risco nas empresas?
87% das empresas europeias realiza avaliações de risco, sendo este valor ainda mais expressivo em empresas que têm representantes de SST. 36% das empresas recorre a empresas externas para a realização das avaliações. Os conteúdos mais avaliados: 96% equipamentos e local de trabalho e 75% forma de organização do trabalho.
Os resultados apontam que Portugal está a caminhar para uma cultura de avaliação de riscos, ocupando o 6.º lugar ao nível da realização de avaliações de risco e o 3.º lugar ao nível da realização de avaliações de risco feita por entidades externas.

Qual o corpo técnico que se ocupa das questões SST nas empresas?
A nível europeu o técnico mais frequente é o especialista em segurança e o médico do trabalho. Em Portugal os profissionais mais frequentes são os mesmos, mas na ordem invertida.
Este resultado deve-se a uma abordagem tradicional dos riscos muito voltada para as questões da saúde e sinistralidade físicas.

Gráfico 1 – Serviços de SST utilizados na EU-27 e em Portugal

Qual o grau de envolvimento da gestão: direcção e chefias intermédias?
Nas empresas europeias, 40% refere que as questões de SST são discutidas em reuniões de direcção e 75% refere que a chefia intermédia está envolvida nas questões de SST. Em Portugal, o caminho parece ainda estar por desbastar, pois ocupa 24.º lugar ao nível dos países em que as questões de SST são discutidas em reuniões de direcção, este resultado mostra que esta temática ainda não tem relevo suficiente para ser considerada como importante nas reuniões de direcção. Portugal ocupa 15.º lugar ao nível do envolvimento das chefias intermédias.

Quais os principais riscos alvos de preocupação?
Os acidentes de trabalho são o alvo de maior preocupação (80%), seguido do stress laboral (79%) e as lesões músculo-esqueléticas (78%). Estes resultados apontam para a importância crescente dos riscos psicossociais.

Gráfico 2 – Riscos alvos de preocupação na EU-27

Impulsionadores do sistema de gestão de práticas de saúde e segurança no trabalho.
Ao nível dos impulsionadores Portugal segue o padrão europeu, sendo a principal razão o cumprimento de obrigações legais e a segunda os pedidos dos trabalhadores ou dos seus representantes.

Gráfico 3 – Impulsionadores de SST na EU-27 e em Portugal

Quais as barreiras ao sistema de gestão de práticas de saúde e segurança no trabalho?
Na EU-27 a falta de recursos como tempos, pessoal ou verbas (36%) emerge como principal barreira, seguida de falta de sensibilização (26%). Em Portugal sobressai como principal barreira a delicadeza do assunto (68%).

Gráfico 4 – Barreiras para SST na EU-27 e em Portugal

Secção 2 - Resultados de caracterização dos riscos psicossociais
(capítulo 3, 4 e 5)
Há preocupação com os riscos psicossociais?
Portugal ocupa o 1.º lugar dos países EU-27 ao nível da preocupação com as questões do stress no trabalho e violência ou ameaça no trabalho e o 2.º lugar ao nível da intimidação ou assédio no trabalho.

Quais os factores que contribuem para os riscos psicossociais?
Os principais factores são, a pressão de tempo (52%), assim como, ter de lidar com clientes difíceis (50%). São também estes factores que sobressaem em Portugal (64%; 53%). De realçar que em todos os factores considerados Portugal apresenta valores superiores à média EU-27.

Gráfico 5 – Principais causadores dos riscos psicossociais na EU-27 e em Portugal

Quais as iniciativas e medidas de gestão dos riscos?
26% das empresas europeias declara ter procedimentos implementados relativos ao stress profissional, 26% possui procedimentos face à violência ou ameaça no trabalho e 30% relativamente à intimidação ou assédio no trabalho. A formação (58%) destaca-se como sendo a medida privilegiada para lidar com os riscos.
Apesar de Portugal estar entre os países com maiores preocupações ao nível do stress encontra-se em 26.º lugar ao nível da % de procedimentos implementados para lidar com o stress. As medidas para lidar com os riscos seguem a mesma tendência europeia de privilegiar a formação (64%).

Gráfico 6 – Medidas tomadas para lidar com os riscos psicossociais na EU-27 e em Portugal

Quais os impulsionadores da gestão dos riscos psicossociais?
Quer a nível europeu (63%), quer a nível nacional (68%) o cumprimento de obrigações legais é o impulsionador destacado para a gestão dos riscos psicossociais.

“Em Portugal, o caminho parece ainda estar por desbastar, pois ocupa 24.º lugar ao nível dos países em que as questões de SST são discutidas em reuniões de direcção.”

Gráfico 7 – Principais impulsionadores da gestão de riscos psicossociais na EU-27 e em Portugal

Quais as barreiras à gestão dos riscos psicossociais?
A nível europeu a delicadeza do assunto (53%) e a falta de sensibilização (50%) surgem como principais barreiras à gestão dos riscos psicossociais. Em Portugal é de salientar a falta de recursos como tempos, pessoal ou verbas (65%), falta de formação e/ou competências (54%) e a delicadeza do assunto (54%). De salientar que as empresas portuguesas assumem nas várias barreiras valores superiores à média das empresas europeias.

Gráfico 8 - Principais barreiras da gestão de riscos psicossociais na EU-27 e em Portugal

Qual o envolvimento dos trabalhadores?
Das empresas europeias 53% refere informar os empregados sobre os riscos psicossociais associados ao trabalho e os seus efeitos na saúde e segurança, 69% informa os trabalhadores sobre quem contactar em caso de problemas psicossociais associados ao trabalho, 54% refere consultar os empregados sobre as medidas a implementar e 67% encoraja os funcionários a participar activamente na implementação das medidas. De acordo com a informação disponível no relatório as empresas portuguesas ocupam o 7.º lugar no que se refere a informar os empregados sobre os riscos psicossociais associados ao trabalho e os seus efeitos na saúde e segurança. Mais alguns dados interessantes apresentados no relatório sugerem que as empresas de maior dimensão tendem a possuir mais políticas formais e mais avaliações de risco, possuindo pessoal interno para realizar as avaliações de risco. Recorrem a uma maior diversidade de especialistas, tendo uma maior quantidade e diversidade de procedimentos e medidas implementados. Apesar de referirem uma maior preocupação com os riscos psicossociais e de envolveram mais os trabalhadores, consideram mais difícil lidar com os riscos psicossociais do que com outros assuntos da saúde e segurança. Globalmente o relatório refere ainda que o stress no trabalho é a temática na qual os representantes referem ter mais necessidades de formação. Este relatório constitui uma mais-valia no sentido de se conhecer o contexto europeu e nacional ao nível do sistema de gestão de SST e dos riscos psicossociais. Os resultados das empresas portuguesas revelam o longo caminho que há a fazer, quer ao nível da consciencialização para os riscos psicossociais, quer ao nível da gestão desses mesmos riscos.

“Em Portugal as empresas ainda não têm políticas implementadas, sendo que Portugal ocupa o 23.º lugar ao nível dos países com políticas formais de SST implementadas.”

Pode aceder ao relatório integral em:
http://osha.europa.eu/en/publications/reports/esener1_osh_management/view

 

  • RISCOS PSICOSSOCIAIS: ESTUDO DE CASO NO SETOR DA CONSTRUÇÃO

    RISCOS PSICOSSOCIAIS: ESTUDO DE CASO NO SETOR DA CONSTRUÇÃO

    Os riscos psicossociais relacionados com o trabalho são uma das grandes ameaças para a saúde e segurança dos trabalhadores nos dias de hoje. Foi realizado um estudo empírico numa empresa de construção civil e obras públicas, utilizando o método FPSICO. Este setor é caracterizado por alto índice de instabilidade, alta rotatividade, elevado grau de flexibilidade, precárias condições de trabalho, pressões de trabalho com prazos apertados, horários alargados, deslocações da sua residência habitual, entre outros. Os resultados apontam que os fatores de exposição muito elevada são: carga de trabalho, participação/supervisão e relações de apoio, e, suporte social. Os fatores que apresentaram melhores resultados ao nível da exposição são: tempo de trabalho, autonomia, exigências psicológicas, e, variedade e conteúdo. As medidas preventivas apresentadas são no âmbito da “gestão de topo” e no âmbito “organizacional”.

  • FATOR HUMANO – COMPLEMENTARIDADE E INDEPENDÊNCIA ENTRE SAFETY I & SAFETY II RESULTA EM SAFETY III

    FATOR HUMANO – COMPLEMENTARIDADE E INDEPENDÊNCIA ENTRE SAFETY I & SAFETY II RESULTA EM SAFETY III

    A abordagem Safety I baseada pela gestão de eventos que dão errado, tornou-se desadequada nas organizações atuais, mais complexas, interdependentes e de difícil decomposição. Surge a abordagem Safety II, que gere a segurança através da avaliação, investigação e análise de eventos que dão certo. A gestão do fator humano em Safety I é apresentado como um risco, entretanto, em Safety II é visto como um recurso necessário para a resiliência do sistema. A autora realizou um estudo exploratório, durante o ano de 2019, no setor da aviação, num contexto organizacional sociotécnico onde são aplicadas as abordagens Safety I & Safety II. Entre outras conclusões, a variabilidade não esperada no exercício da atividade é uma realidade, e, as decisões e os ajustes de sucesso realizados pelos trabalhadores para dar resposta a essa variabilidade também. Assim, a autora defende que há necessidade e possibilidade de um equilíbrio complementar, embora independente, entre a abordagem Safety I & Safety II, que ela designa por Safety III. No fim do artigo, são identificadas algumas práticas que concretizam este equilíbrio.

  • UTILIZAÇÃO EXCESSIVA DO SMARTPHONE: IMPLICAÇÕES PARA OS INDIVÍDUOS PELA NÃO RECUPERAÇÃO

    UTILIZAÇÃO EXCESSIVA DO SMARTPHONE: IMPLICAÇÕES PARA OS INDIVÍDUOS PELA NÃO RECUPERAÇÃO

    Os smartphones são atualmente equipamentos que fazem parte do nosso dia-a-dia. A sua utilização está generalizada a nível global com valores de penetração no mercado superiores a 90%. Apesar de algumas vantagens, há também desvantagens associadas a riscos para a saúde, incluindo situações de ansiedade, depressão, isolamento e burnout; riscos ao nível interpessoal como o aumento de isolamento e conflitos familiares, entre outros. Em termos de recuperação não há receitas, cada pessoa deve identificar de que forma pode recuperar e agir de acordo com essa análise.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…