VAMOS CONVERSAR: INFLUÊNCIA NA MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

01 maio 2017
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Author :   Artur Brites dos Santos
Citar ARTIGO: Brites dos Santos, A. 2010. Vamos conversar: influência na modificação do comportamento Revista Segurança Comportamental, 2, 36-38 Artur Brites dos Santos | Engenheiro Químico. Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho. Auditor de Segurança ILCI.

Impulsionar a mudança comportamental, é um processo contínuo e lento, tendo por base o conhecimento, reconhecimento e respeito da parte fundamental do sistema de segurança: as pessoas!

Reflexão Inicial
Todos nós, que nos preocupamos com as questões relacionadas com a segurança no trabalho, temos um objectivo nobre: zero acidentes!
É ou não é verdade? E o que fazemos? Algumas vezes fazemos o que nos deixam e outras o que é possível! Muitas vezes aparecem as barreiras de natureza financeira e outras as barreiras do “isso é perder tempo”. Infelizmente. Vamos adquirindo competências quer em cursos especializados, quer em conferências, seminários, encontros e outros nomes mais ou menos pomposos, que nos oferecem um pouco por todo o lado, coleccionamos diplomas e certificados, mas depois chegados aos nossos locais de trabalho e o que realmente aplicamos? Já pararam para pensar?
A minha sensação é que andamos muito ocupados a discutir e a conceber apresentações em powerpoint mais ou menos atractivas que muitas vezes não têm qualquer valor acrescentado na nossa missão, nem trazem nada de aplicável para quem nos ouve, mas que nos fazem muito bem ao ego! Perdemos tempo e fazemos os outros perder tempo.
Faça o leitor o exercício. De todos esses eventos em que participou, o que implementou na empresa onde trabalha? Honestamente! Então? Surpreso? E porquê? Porque é que isso aconteceu? De todas as ideias que teve quantas foram aplicadas? E das que aplicou quantas resultaram? De novo surpreso? Muito bem. Então quais são as causas? Quais são as barreiras? Somos demasiados técnicos? Burocratas? Sentimo-nos defraudados porque os nossos esforços não dão os frutos desejados? Porque não conseguimos reduzir o número de acidentes?
Vale a pena parar para pensar!
Na verdade, há todo um manancial de leis, normas e regulamentos, as máquinas e os equipamentos estão de acordo com as normas de segurança, os equipamentos de protecção individual (EPI´s) são os adequados, há programas de segurança, acções de formação, vivemos num mundo de auditorias, consultorias, pareceres, e, no entanto, tudo isso parecer ser insuficiente para atingirmos o tal objectivo nobre de “zero acidente”. O que nos tem faltado? Muito provavelmente no meio de tanta técnica e na vontade de se atingir a “certificação”, fazendo da certificação um fim, esquecemos o fundamental: as pessoas!
É verdade. Existem pessoas! Com vontade própria, com sentimentos, com ideias, inteligentes e que têm o direito (legal ainda por cima) de serem ouvidas, envolvidas, consultadas, consideradas, numa palavra: respeitadas!
Então é nesse ponto que nos encontramos. Temos competências, leis e normas, máquinas e equipamentos, métodos de trabalho, EPI´s, só temos agora que dignificar as pessoas. O nosso objectivo não é o “trabalho digno”? Os zero acidentes? Então vamos a isso. Hoje!

“Conversar com as pessoas e respeitá-las é um modo de estar na vida e não uma acção isolada para mudar comportamentos.”

Conhecer as pessoas
Para começar essa nova fase só há uma solução: conhecer as pessoas. Primeiro que tudo conhecer as pessoas. Mas conhecer mesmo! Criar um clima de confiança. Nós que nos preocupamos com as questões relacionadas com a segurança no trabalho, não somos polícias, nem fiscais. Somos o elo que influencia as decisões para que seja possível melhorar as condições de trabalho e é assim que temos de ser vistos e considerados. Quando essa relação estiver criada e sólida, claramente implementada e praticada, a eficácia de todas as acções melhora exponencialmente. Vamos então conhecer as pessoas. Vamos conversar! Por uma cultura de segurança que exista realmente e que não seja apenas palavras sem sentido. É esse o caminho.

Novos rumos dos programas de segurança
Na minha opinião os programas de segurança devem ser orientados para as pessoas, respondendo aos seus desejos e expectativas. Introduzo agora uma palavra que muito ouvimos e que tenho estado a evitar: comportamento!
As empresas começam a dar alguns passos no que talvez abusivamente se denomina por “programa de modificação de comportamento”. Nada mais errado! Não há programas que por si só mudem o comportamento. É, praticamente, impossível modificar o comportamento duma pessoa sem a sua adesão. A mudança de um comportamento exige, em grande parte das vezes processos de decisão que só o próprio pode realizar. O que há a fazer é decorrente do conhecimento da pessoa (vamos conversar!) perceber que atitudes deram origem a determinado comportamento, e então sim, conhecendo em que componentes da atitude se deve intervir.
Portanto o correcto é dizer que se influencia a mudança de comportamento, porque como já está dito é a própria pessoa que tem de fazer essa mudança, uma vez chegada à conclusão que ganha com isso e não outra pessoa por ela!

Bases do sistema
Um sistema de “influência na modificação do comportamento” deve ter como bases:
1. O conhecimento da pessoa;
2. O reconhecimento das suas competências;
3. O respeito pela pessoa;
4. A motivação.
E não pode nunca ser ou parecer:
• Uma acção sem futuro, para dar mais trabalho ou para elaborar estatísticas;
• Uma diversão mais ou menos inútil para mostrar que se faz alguma coisa.
E tem de ter continuidade. Uma vez lançado um sistema destes, é para ficar. É para toda a vida. Não pode ser encarado como uma moda passageira. Passa a ser um elemento importante da cultura da empresa.
Os objectivos deste sistema têm que ser bem claros e entendíveis por todos, sendo eles:
• Melhorar a comunicação entre as pessoas;
• Aumentar os diálogos sobre segurança na empresa;
• Contribuir para a mudança de hábitos negativos;
• Contribuir para a cultura de segurança.
Queremos atingir o nosso objectivo “acidentes zero” através do conhecimento cada vez mais profundo das pessoas, o que influencia a mudança de hábitos negativos e permitirá a prática de comportamentos seguros. É fácil? Não, não é fácil, mas, é possível. Depende de nós. Exclusivamente de nós, é muito importante: não custa dinheiro!

“Apenas conversando com as pessoas e conhecendo-as realmente, se pode influenciar a mudança de comportamentos.”

Vamos falar de hábitos
Um hábito é uma acção que desenvolvemos ao longo do tempo e que se transforma numa rotina e constitui para nós uma facilidade! Como rotina é executada automaticamente e é obviamente considerada por quem a executa, como sendo a melhor maneira de fazer! Ninguém faz as coisas mal de propósito. Ninguém tem um comportamento inseguro de propósito. Ninguém se acidenta de propósito. Sem exagerar e para termos uma noção da importância destas rotinas, a maior parte do nosso comportamento é condicionado por hábitos. Essa maneira de fazer, pode, no entanto, estar errada e conduzir a comportamentos inseguros. É o que em linguagem corrente chamamos de “maus hábitos”.
A pessoa está convencida que está a fazer da melhor maneira e não se mostra muito receptiva a mudar! De maneira simplista dizemos que essa pessoa é teimosa, quando na realidade não se trata disso, mas sim de métodos de trabalho pessoais que se aprenderam ao longo dos anos.

Mecanismo de mudança
Boa notícia! É possível mudar. Mas atenção, só é possível mudar, isto é, “reprogramar” as rotinas se cada um decidir por si fazê-lo e nunca por imposição de alguém que “decretou” a mudança. Essa é a chave. Mudamos o nosso comportamento se:
• Nos convencermos que temos de mudar;
• Se tivermos a força de vontade necessária para garantir a mudança.
É um processo lento. Que ninguém se convença que bastam meia dúzia de conversas e pronto, já é possível abandonar um comportamento inseguro e trocá-lo por um mais seguro. Não é assim. Conversar com as pessoas e respeitá-las é um modo de estar na vida e não uma acção isolada para mudar comportamentos. É, podemos dizê-lo, uma intervenção cultural que garante mais benefícios do que se a intervenção fosse forçada através da imposição. É um passo à frente em relação ao “observar” e permite, uma vez realizada a mudança que os novos hábitos fiquem solidamente implementados.
Resumindo, apenas conversando com as pessoas e conhecendo-as realmente, se pode influenciar a mudança de comportamentos.
E atenção!
Todos têm que estar envolvidos e não apenas alguns! Todos os níveis hierárquicos têm de se comprometer e as “regras do jogo” têm de ser conhecidas por todos. Se isto não acontecer, é o descrédito e nada muda!

Bibliografia
Fishbein, M., Attitude and the prediction of behavior, in M. Fishbein (Ed.), Readings in attitude theory and measurement, New York, Wiley, 1967, pp.477-492

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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