OS RISCOS DO RISCO: TÓPICOS PARA UM MAPEAMENTO IMPRESSIVO

01 maio 2017
(0 votos)
Author :   Helder Raposo
Citar ARTIGO: Raposo, H. 2010. Os riscos do risco: tópicos para um mapeamento impressivo. Revista Segurança Comportamental, 2, 39-40 Helder Raposo | Professor adjunto na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa. Doutorando no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Apesar da ênfase no controlo e na racionalidade instrumental, a actual hegemonia do risco probabilístico contrasta radicalmente com o horizonte das consequências e perigos globais de um mundo marcado constitutivamente pela dimensão da incerteza e do acaso.

Dispomos hoje de uma ampla literatura académica que nos dá conta da genealogia vetusta da noção de risco. No entanto, o entendimento que actualmente prevalece cristaliza uma acepção que é claramente tributária do contexto da modernidade. É neste quadro que se pode compreender a crescente e sistemática necessidade de conhecimentos objectivos e de um pensamento racional enquanto recursos estratégicos fundamentais, até porque o risco se cientificizou através de uma abordagem probabilística e estatística, e adquiriu um perfil técnico associado ao cálculo matemático.
Contudo, e não obstante esta clara hegemonia do risco probabilístico no contexto da contemporaneidade, uma análise mais fina é reveladora da efectiva irrazoabilidade da presunção de controlo sobre o aleatório, na medida em que a imprevisibilidade dos acidentes – sobretudo os de cariz marcadamente tecnológicos - remete para combinações indeterminadas e inesperadas de causas que são produtoras de novos factores de complexidade e incerteza, donde se conclui que as metodologias da análise de risco face aos contextos de incerteza são manifestamente inadequadas. Desde logo porque o horizonte de consequências e perigos globais contrasta radicalmente com as promessas de controlo subjacentes aos discursos públicos dos domínios periciais responsáveis pela sua avaliação e gestão.
Um outro nível de problematização relativamente ao risco diz respeito à sua frequente reificação com base no pressuposto positivista da sua pretensa objectividade, o que não só tem conduzido a uma secundarização da contextualidade social subjacente às diferentes lógicas que organizam as percepções leigas e profissionais sobre os diversos tipos de risco, como também tem contribuído para a perpetuação da distinção artificial entre riscos “objectivos” e a “subjectividade” da percepção dos riscos. Neste entendimento, enfatiza-se uma concepção de actor humano circunscrita à ideia de um agente racional que deve estar engajado no evitamento do risco procurando controlar a sua vida através de escolhas racionalizadas que asseguram um corpo civilizado e subtraído às vicissitudes do acaso e do destino. Esta concepção tão categórica cristaliza uma representação dos indivíduos como vivendo permanentemente num estado de alerta, de medo, vulnerabilidade e de ansiedade face às incertezas dos múltiplos riscos de que se supõe que estão (ou deverão estar) constantemente conscientes. Nas situações em que essa preocupação com o risco não ocorre, ou ocorrendo, dá lugar a resistências ou a relações dissonantes com as orientações periciais, tende-se a presumir a irracionalidade das percepções sociais.
O que a este respeito deve ser sublinhado é que as percepções do risco não podem ser isoladas dos contextos sociais, culturais e históricos em que se produzem. Até porque são, justamente, nesses contextos que as múltiplas lógicas e racionalidades que organizam as diferentes relações sociais com o risco adquirem visibilidade, tornando-as irredutíveis a um mero resultado de diferentes recursos cognitivos e de diferentes possibilidades de acesso à informação.
Por fim, e não menos importante, é de notar que face ao protagonismo que o critério da prova estatística tem vindo a assumir no âmbito da abordagem epidemiológica, torna-se cada vez mais evidente o papel consolidado do risco nas novas metodologias científicas com enfoques populacionais. No entanto, têm surgido a esse respeito algumas reservas quanto a esse potencial de aplicabilidade, dado que as agendas de investigação que estão na base das políticas de promoção da saúde confrontam-se regularmente com os problemas de “tradução” para as populações concretas e para as circunstâncias locais dos contextos de intervenção. Tal significa que tende a prevalecer uma preocupação mais orientada para a “validade interna” dos próprios estudos e das investigações, em lugar de um esforço de adaptação que permita mitigar as discrepâncias decorrentes das tentativas de generalizar as melhores práticas à heterogeneidade dos vários contextos e populações (“validade externa”), o que poderia passar, por exemplo, por modalidades de participação por parte das populações e das comunidades em causa.
Em suma, e de um modo muito impressivo, a brevidade quase telegráfica destes apontamentos limitaram-se a servir o propósito de tentar ilustrar a complexidade subjacente a um conceito que embora pareça tão estável e unívoco encerra, no entanto, um carácter multidimensional e polissémico que deve aconselhar-nos, por um lado, a um esforço de estudo e investigação mais amplo e integrado com vista à melhor análise e compreensão das suas várias facetas, e por outro, a uma postura de maior precaução face à complexidade dos problemas que tendem a desafiar de forma tremendamente séria o horizonte da nossa segurança ontológica. Talvez o maior risco do risco seja, justamente, a tendência para nos conduzir a uma espiral de ansiedade e controlo fundada na obstinação em torno das promessas de restauração simbólica da ordem num mundo marcado constitutivamente pela dimensão da incerteza e do acaso e por múltiplas lógicas compósitas no modo como lidamos e integramos essa experiência inquietante na vida social humana.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…