PERTURBAÇÕES PSICOLÓGICAS ASSOCIADAS AOS ACIDENTES DE TRABALHO

01 maio 2017
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Author :   Sónia P. Gonçalves
Citar ARTIGO: Gonçalves, S.P. 2010. Perturbações psicológicas associadas aos acidentes de trabalho. Revista Segurança Comportamental, 2, 44-45 Sónia P. Gonçalves | Psicóloga. Doutoranda em psicologia no ISCTE-IUL. Investigadora no CIS. Professora assistente no Instituto Piaget.

As consequências dos acidentes de trabalho não se resumem a danos físicos e monetários…Há sequelas para a saúde psicológica e vida social.

Este artigo tem como objectivo chamar à atenção para a temática - acidentes de trabalho. Para dar início à reflexão deixo algumas questões: Qual a dimensão das consequências destes acidentes? Quais as pessoas que são afectadas quando ocorre um acidente de trabalho? Que tipo de consequências podem ter os acidentes de trabalho? Terão consequências para a saúde psicológica dos sinistrados? O que fazer para prevenir e intervir no caso específico destas consequências?

Os acidentes de trabalho serão uma problemática?
A análise das estatísticas de sinistralidade laboral e das suas consequências revelam claramente o quão problemáticos são os acidentes de trabalho, reforçando que estes acontecimentos constituem um problema na nossa sociedade actual (ILO, 2003), tão ou mais importante do que outros que são alvo de maior debate e reflexão. Anualmente, um elevado número de trabalhadores perde a vida ou fica com sequelas físicas e/ ou psicológicas permanentes que afectam a sua vida pessoal, profissional, familiar e social, causando muito sofrimento a diversas pessoas. Estatisticamente estes acidentes afectam anualmente cerca de 4% da população activa nacional (Guedes Soares et al., 2005), o que representa um valor bastante elevado. Em 2000 o nosso país esteve no topo da lista dos países da União Europeia com mais acidentes fatais (Eurostat, 2001). No ano de 2009 ocorreram 115 acidentes mortais em Portugal (ACT, 2010), apesar de se registar um decréscimo face a 2008 (120 acidentes de trabalho mortais), estes valores são alarmantes especialmente se pensarmos que poderão estar sub-registados e que, na realidade, podem duplicar ou triplicar e que poderão ser igualmente reflexo de uma desaceleração dos vários sectores de actividade, com especial ênfase na construção civil, responsável por quase 50% dos acidentes de trabalho mortais em Portugal.

Acidentes de Trabalho Mortais 2005-2009
Fonte: http://www.act.gov.pt

Quais as consequências dos acidentes de trabalho?
Os acidentes de trabalho têm inúmeras consequências, estando associados a custos, não apenas para a organização (ex.: aumento do absentismo), mas também para o país (ex.: aumento da utilização dos serviços de saúde). Ao nível do sinistrado, as consequências podem ser pensadas em termos de consequência físicas (passageiras ou permanentes), familiares (ex.: divórcio ou problemas económicos) e psicológicas (ex.: diminuição do bem-estar psicológico, desenvolvimento de reacções psicológicas), entre outras. Focalizando a atenção nas consequências psicológicas dos acidentes de trabalho, importa realçar que tanto as vítimas como as testemunhas (ex.: colegas de trabalho do sinistrado) podem avaliar o acidente como sendo traumático e ameaçador, podendo desenvolver perturbações mentais, tais como a perturbação de pós-stress traumático (PPST), a perturbação aguda de stress, a depressão ou a ansiedade, entre outras.

Algumas soluções:
- Insistir de forma dinâmica na formação sobre a dimensão psicossocial, aos responsáveis e técnicos de segurança, higiene e saúde no trabalho;
- Organizar previamente os planos de intervenção considerando a componente psicossocial;
- Elaborar folhetos com a identificação dos sintomas habituais e normais após experienciar uma situação traumática;
- Apoiar continuamente os trabalhadores envolvidos no acidente de trabalho;
- Organizar sessões de partilha com os responsáveis pela segurança e as testemunhas, para analise de acidentes numa perspectiva de apreendizagem;
- Encaminhar os trabalhadores para profissionais de saúde mental.

O que se sabe sobre as consequências dos acidentes de trabalho a nível psicológico?
Em 2000, Carstensen e colegas realizaram na Dinamarca um dos primeiros estudos com o objectivo estimar a prevalência de PPST em 3663 de vítimas de acidentes de trabalho muito graves e moderadamente graves (a gravidade foi definida com base no tipo de acidente, incluindo todos os casos de amputações, fracturas e lesões extensivas no corpo), tendo os resultados revelado uma prevalência de 4,3% de casos que preenchiam os critérios de PPST (7,8% para os acidentes mais graves), sendo os sintomas mais frequentes os flashbacks e os sonhos. De acordo com os autores, a prevalência de PPST está distribuída de igual modo ao nível da idade, do género e do tipo de dano físico (entre 3 e 5%). Os resultados mostraram, também, que a probabilidade dos indivíduos com PPST mudarem de emprego é 3 vezes maior e que existe 5 vezes maior probabilidade de redução da capacidade de trabalho, do que a tendência geral dos casos de acidentes de trabalho. Apenas 9% dos casos de PPST crónico é que recebeu tratamento/ apoio psicológico. Um estudo realizado em Portugal com polícias (Gonçalves, 2007) sugere claramente que as consequências psicológicas dos acidentes de trabalho merecem atenção, numa perspectiva de investigação e de prevenção, já que 9% das vítimas e 20% das testemunhas apresentaram diagnóstico consistente com a PPST, de facto, 1 em cada 11 (9%) polícias vítimas de acidentes de trabalho estava sinalizado com PPST. No caso dos polícias testemunhas de acidentes ocorridos com os seus colegas, estes números são também preocupantes, sendo que aproximadamente 1 em cada 5 (20%) estava sinalizado com PPST. De referir que 65% dos participantes com diagnóstico clínico de PPST exibiam também os sintomas de diagnóstico de ansiedade e 50% dos participantes com diagnóstico clínico de PPST denotavam igualmente os sintomas de depressão.

"Acções tão simples como o acompanhamento imediato e continuado da vítima e da testemunha, o comunicar o acidente à família ou a explicação dos possíveis sintomas, poderão atenuar e prevenir a gravidade das consequências psicológicas.”

Estes resultados são reforçados por outro estudo levado a cabo com 149 sinistrados de diferentes sectores de actividade (Gonçalves, Marques Pinto e Lima, 2007), sendo que 1 em cada 3 vítimas (31%) estava sinalizado com PPST. Para além disso, 75,6% dos participantes com diagnóstico clínico de PPST manifestavam também sintomas de diagnóstico de ansiedade e 19% dos participantes com diagnóstico clínico de PPST apresentavam conjuntamente sintomas de depressão. Efectivamente, se tivermos em consideração, por exemplo, que a taxa de ocorrência da PPST na população portuguesa em geral é de 7,87% (Albuquerque, 2002), os valores encontrados são um claro indicador do risco de sequelas psicológicas graves associadas aos acidentes de trabalho.
Estes valores são preocupantes, se tivermos em consideração que estas sintomatologias interferem e podem ser mesmo limitadoras nos vários domínios da vida da pessoa. Acções tão simples como o acompanhamento imediato e continuado da vítima e da testemunha, o comunicar o acidente à família ou a explicação dos possíveis sintomas, poderão atenuar e prevenir a gravidade das consequências psicológicas (Tehrani, 2004). Deverá haver um investimento e ajustamento da formação dos técnicos de segurança, higiene e saúde no trabalho, sendo que os conteúdos programáticos dos cursos de formação deverão integrar uma componente relativa às possíveis consequências psicossociais dos acidentes de trabalho e como prevenir e intervir de forma a minimizar o impacto deste evento. Não é intuito deste artigo produzir uma abordagem exaustiva acerca dos acidentes de trabalho, mas apenas levantar algumas questões e respostas, com o objectivo de aguçar o interesse e despertar a atenção para esta temática.
Albert Einstein escreveu “O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário”, esta premissa aplica-se na perfeição à problemática da sinistralidade laboral, há que trabalhar para ter sucesso na diminuição da sinistralidade e das suas consequências.

Referências
ACT, Acidentes de trabalho mortais objecto de inquérito, 2010. Acedido a 01 de novembro de 2010, em http://www.act.gov.pt/%28pt-PT%29/CentroInformacao/Estatisticas/Paginas/default.aspx
Carstensen, O., Lauritsen, J., Rasmussen, K., & Hansen, O., Post-traumatic stress disorder after occupational accidents. Comunicação apresentada no V International Conference on Injury Prevention and Control, 2000, New Delhi, India.
Eurostat, Estatísticas europeias de acidentes de trabalho (EEAT): Metodologia, 2001. Acedido a 9 de fevereiro de 2005, em http://europa.eu.int/comm/employment_social/publications/2002/ke4202569_pt.pdf.
Gonçalves, S.P.. Perturbações psicológicas associadas aos acidentes de trabalho: O papel moderador do coping social e da coesão grupal, Tese de Mestrado, ISCTE, 2007, Lisboa.
Gonçalves, S.P., Marques Pinto, A., & Lima, M.L., Os acidentes de trabalho na perspectiva do trauma: Dois estudos, uma realidade. In C. Guedes Soares, A. P. Teixeira, & P. Antão (Eds.). Riscos Públicos e Industriais (Vol.2, pp. 1137-1152), 2007, Lisboa, Edições Salamandra.
International Labour Organization, Safework: Accident and disease information, 2003, Acedido a 9 de Fevereiro de 2005, em http://www.ilo.org/public/english/protection/safework/accidis/index.htm.
Tehrani, N., Workplace Trauma: Concepts, assessment and interventions, 2004, New York: Brunner-Routledge.

 

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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