PARÂMETROS COMPORTAMENTAIS A INCORPORAR NA ANÁLISE E AVALIAÇÃO DE RISCOS NA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO

01 maio 2017
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Author :   Abel Pinto, Isabel L. Nunes, Rita A. Ribeiro
Citar ARTIGO: Pinto, A. et al. 2010. Parâmetros Comportamentais a Incorporar na Análise e Avaliação de Riscos na Indústria da Construção. Revista Segurança Comportamental, 1, 4-6 ABEL PINTO | Faculdade de Ciências e Tecnologia; ISABEL L. NUNES | Faculdade de Ciências e Tecnologia; RITA A. RIBEIRO | Uninova-Instituto Desenvolvimento de Novas Tecnologias

As análises de risco, como uma ferramenta indispensável para atingir a segurança ocupacional, deverão incluir factores comportamentais.

Resumo:
A segurança ocupacional é imprescindível na indústria da construção, e a Análise e Avaliação de Riscos Ocupacionais (AARO) é o primeiro e fundamental passo para a alcançar, principalmente para definir e implementar programas de prevenção.
As metodologias AARO utilizadas na indústria da construção são baseadas em informação relativa aos factores técnicos e, por vezes, organizativos. Factores comportamentais muito raramente são considerados no processo de análise. Os resultados obtidos são necessariamente incompletos e enviesados. O objectivo deste trabalho é identificar os principais parâmetros comportamentais que devem ser tidos em consideração num método qualitativo para AARO.

1. Introdução
Algumas explicações apresentadas para os altos índices de acidentes na construção civil têm incluído factores organizacionais, o estilo de gestão e política de segurança da empresa, características pessoais como a idade, a experiência e conhecimento e a motivação (Landeweer et al, 1990, HSE, 2002). No entanto, estes factores não se reflectem nos resultados das avaliações de riscos.
Encontra-se em desenvolvimento uma metodologia AARO em que a avaliação de riscos será realizada com base em 4 grupos de parâmetros: Comportamento Seguro (CS); Factores Principais (FP); Factores Adicionais (FA); e Barreiras de Segurança (BS). O nível de risco é (ver expressão 1) directamente proporcional aos factores principais e aos factores adicionais e inversamente proporcional ao cumprimento e às barreiras de segurança implementadas (ou a implementar). Os símbolos de ⊗ e “—” representam operadores difusos de agregação.

2. Parâmetros comportamentais
Neste modelo, os parâmetros comportamentais encontram-se representados no Comportamento Seguro (CS) e, ao contrário dos outros parâmetros que são específicos de um determinado perigo, é inerente ao estaleiro, e por consequência transversal a todos os perigos existentes. Pelo que não depende do perigo identificado, mas “afecta” o nível do risco que advém desse perigo. Os parâmetros referentes ao comportamento seguro estão divididos em 6 grupos:
– Cultura de Segurança – relacionada com a existência e a adequação de uma cultura de segurança ocupacional no estaleiro;
– Gestão da Segurança – relacionada com a existência e a eficácia do sistema de gestão da segurança ocupacional;
– Organização do Trabalho – relacionada com a forma como o trabalho é organizado acautela os requisitos relativos à segurança ocupacional;
– Supervisão/Liderança – relacionada com a forma como a liderança assume as suas responsabilidades de direcção e supervisão em matéria de segurança ocupacional;
– Factores pessoais – relacionados com a forma como os factores pessoais são geridos de modo a garantir a segurança no trabalho (inclui as competências e motivação);
– Comunicação e consulta – relacionada com a forma como os canais de comunicação estão organizados e são eficazes (incluem a aprendizagem organizacional), na troca de informações relativas à segurança ocupacional, entre os vários intervenientes no estaleiro.
Para cada um destes parâmetros será avaliado um conjunto de 8 a 10 questões.

«Factores comportamentais muito raramente são considerados no processo de análise. Os resultados obtidos são necessariamente incompletos e enviesados.»

2.1 Cultura de Segurança
A cultura incorpora valores, crenças e suposições subjacentes. Uma cultura de segurança é um conjunto de pressupostos e as respectivas práticas associadas, que condicionam a percepção e resposta acerca do perigo e da segurança (Pidgeon e O’Leary, 2000). Para analisar e avaliar a cultura/clima de segurança no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– Quando solicitados, os trabalhadores cooperaram na decisão e execução de medidas relacionadas com a segurança?
– Os trabalhadores e/ou supervisores relatam todos os incidentes relacionados com a segurança?
– Os trabalhadores (e supervisores) vêem o técnico de segurança como um valor acrescentado?
– Existe um elevado nível de confiança entre trabalhadores, supervisores e colegas de trabalho?
– As iniciativas relacionadas com a segurança costumam ter sucesso?
– A equipa de análise (AARO) observa(ou) atitudes ou condições inseguras?
– Os trabalhadores e supervisores encaram a segurança como uma prioridade quando se executam tarefas?
– Os trabalhadores consideram o estaleiro (actual) mais seguro do que outros em que tenham trabalhado?
– São implementadas acções correctivas sempre que a supervisão é alertada para atitudes ou condições inseguras?
– Existe um representante da segurança escolhido pelos trabalhadores e com formação adequada?

2.2 Gestão da Segurança
Tem sido demonstrado que as políticas e programas de gestão da segurança estão em relação directa com o desempenho da segurança de uma organização (DeJoy et al, 2004). Para analisar e avaliar a gestão da segurança no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– Existe política de segurança e programas de segurança (comunicadas e implementadas) no estaleiro?
– Os riscos para a segurança e a saúde são avaliados (incluindo os requisitos legais) e controlados?
– Os trabalhadores sabem como trabalhar em segurança, incluindo o uso e verificação dos equipamentos de protecção individuais – EPI – necessários (é demonstrado como realizar o trabalho em segurança)?
– Os riscos são devidamente comunicados a todos os trabalhadores?
– Todos os incidentes relacionados com a segurança (incluindo os acidentes) são investigados?
– Os registos relativos à segurança e saúde são considerados e inspeccionados no processo de selecção de sub‑empreiteiros (registo de acidentes, fichas de aptidão, registos de formação...)?
– Todos os trabalhadores têm formação e treino e são sensibilizados para as questões de segurança?
– Os programas de formação são regularmente revistos e actualizados?
– Os equipamentos necessários para executar os trabalhos em segurança estão sempre disponíveis?
– Os procedimentos de segurança são funcionais?
– O orçamento para a segurança no estaleiro é suficiente?

2.3 Organização do Trabalho
Prémios de produtividade levam os trabalhadores a obter maior produção em detrimento da segurança (Mullen, 2004).
Sawacha et al (1999) e Finucane et al (2000) investigaram a relação entre risco e benefício e concluíram que os trabalhadores tendem a cometer actos inseguros se, no passado, esse tipo de acto já foi de alguma forma objecto de recompensa. Para analisar e avaliar a organização do trabalho no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– Os objectivos operacionais nunca entram em conflito com os objectivos de segurança (por exemplo, existência de incentivos financeiros para melhorar a produtividade)?
– As etapas de construção não conflituam com particularidades de design?
– Existe uma boa coordenação entre as várias actividades (programação de trabalhos e critérios de priorização) para evitar tarefas conflituantes?
– A segurança começou na fase de projecto?
– O prazo de construção é razoável?
– Os trabalhadores têm sempre tempo suficiente para executar as tarefas em segurança?
– Há excesso de horas extraordinárias?
– Há uma boa definição das tarefas, responsabilidades e autoridade?
– As condições climáticas expectáveis foram consideradas no planeamento e calendarização dos trabalhos?
– Existe procedimento de autorização de trabalhos, para trabalhos de risco elevado ou para operação de equipamento pesado?

2.4 Supervisão/Liderança
Incentivos fornecidos pelos superiores (por exemplo, atenção ao pessoal e reconhecimento), bem como o compromisso e empenho da administração, têm mostrado consistentemente serem importantes factores de reforço no contexto organizacional, ultrapassando até os incentivos de ordem material (Cheyne et al, 1998; Dedobbeleer e Beland, 1991, Stajkovic e Luthans, 1997, Zohar, 2002). Para analisar e avaliar a adequação da supervisão/liderança no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– As relações hierárquicas estão bem definidas (especialmente em consórcios)?
– As responsabilidades e a autoridade estão bem definidas?
– A gestão de topo define os objectivos estratégicos de segurança para o estaleiro?
– Há reuniões de segurança antes de iniciar uma nova tarefa?
– Os supervisores têm o cuidado de dar instruções de segurança e corrigir atitudes desadequadas (mostrando interesse na segurança dos trabalhadores)?
– Os supervisores têm formação específica e utilizam métodos de liderança adequados?
– Os supervisores demonstram a sua preocupação se os procedimentos não são seguidos (e explicam as consequências)?
– O compromisso da gestão com a segurança é visível (alocando os recursos adequados, dando o exemplo no uso de equipamentos de protecção individual...)?
– Os trabalhadores com comportamento seguro são premiados?
– Os gestores têm conhecimento de todas as variáveis que afectam a gestão de riscos?

2.5 Factores Pessoais
As características individuais, tais como os traços de personalidade, foram correlacionadas com acidentes (Hansen, 1989). Para analisar e avaliar a adequação dos factores pessoais no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– O estaleiro tem trabalhadores com deficiência sensorial ou aptidão mecânica inadequada?
– O estaleiro tem trabalhadores com sensibilidade ou alergia a certas substâncias?
– O estaleiro tem trabalhadores com asma, insuficiência respiratória ou qualquer outra doença do aparelho respiratório?
– O estaleiro tem trabalhadores com falhas de memória e/ou tempos de reacção lentos?
– Os trabalhadores têm os exames médicos actualizados?
– O estaleiro tem trabalhadores com dependências (álcool, drogas...)?
– O estaleiro tem trabalhadores com sintomas de stress ou ansiedade?
– Os trabalhadores têm hábitos saudáveis de alimentação e higiene?
– Os trabalhadores demonstram empenho e brio nas tarefas que executam?

2.6 Comunicação/Participação
A participação e a comunicação incentivam o conhecimento e o compromisso com as decisões relativas a práticas de trabalho seguras. Para analisar e avaliar a adequação do processo de comunicação/participação no estaleiro foram definidas as seguintes questões:
– Há trabalhadores estrangeiros ou analfabetos no estaleiro?
– Há bons canais de comunicação no estaleiro entre os diversos níveis e funções, incluindo subempreiteiros e trabalhadores independentes (através de reuniões periódicas, por exemplo)?
– As informações de segurança são dadas aos trabalhadores pela hierarquia directa?
– Os trabalhadores são chamados a participar na identificação de perigos, avaliação de riscos e determinação das medidas de controlo de risco?
– Os trabalhadores são chamados a participar e são envolvidos na revisão dos procedimentos de segurança?
– Há atrasos na comunicação de informação de segurança relevante?
– O fluxo de informação (por exemplo, procedimentos, canais verticais e horizontais regulares e reuniões programadas) é usado como suporte à decisão (por exemplo, na definição de programa(s) de prevenção)?

3. Conclusões e trabalho futuro
O modelo AARO apresentado está num estado inicial de desenvolvimento e necessita de ser aperfeiçoado e desenvolvido.

Bibliografia
DeJOY, D. M. et al., Creating safer workplaces: assessing the determinants and role of safety climate, Journal of Safety Research 35 [1], pp. 81-90, 2004.
FINUCANE, M. L. et al., The affect heuristic in judgments of risks and benefits. Journal of Behavioral Decision Making, 13: pp. 1-17, 2000.
HANSEN, C. P., A causal model of the relationship among accidents, biodata, personality and cognitive factors, Journal of Applied Psychology, 74, pp. 81-90, 1989.
LANDEWEER, J. A. et al., Risk taking tendency amongconstruction workers, Journal of Occupational Accidents, 11, pp. 183-196, 1990.
PIDGEON, N. e O’LEARY, M., Manmade disasters: why technology and organizations (sometimes) fails, Safety science, 34, pp. 15-30, 2000.
ZOHAR, D., Modifying supervisory practices to improve sub-unit safety: A leadership-based intervention model, Journal of Applied Psychology, 87, pp. 156-163, 2002.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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