UM OLHAR SOBRE AS ATITUDES FACE À SEGURANÇA NO SECTOR DA INDÚSTRIA TRANSFORMADORA ALIMENTAR – ESTUDO DE UM CASO

01 maio 2017
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Author :   Filipa Vasconcelos da Silva
Citar ARTIGO: Vasconcelos, F. S. 2010. Um olhar sobre as atitudes face à segurança no sector da indústria transformadora alimentar – Estudo de um Caso. Revista Segurança Comportamental, 1, 8-10 FILIPA VASCONCELOS DA SILVA | Socióloga. Investigadora Social. Formadora SHST

O controlo enquanto forma activa de promoção da segurança tem um efeito perverso. Este controlo é encarado pelos trabalhadores como uma crítica, uma “chamada de atenção”.

CARACTERIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO
A empresa em que se sustenta o presente estudo pertence ao sector da indústria transformadora alimentar e está sedeada em Lisboa mas tem descentralizado a sua actividade para o norte do país.
O peso da concorrência não é muito visível, uma vez que esta empresa possui um mercado receptor fixo. No entanto, se tivermos em conta o seu passado recente, concluímos que a forma para sobreviver às consecutivas pressões económicas foi conseguida através da sua junção a empresas detentoras de um maior poder económico, cujas injecções de capital financeiro permitiram a sua remodelação e a readaptação ao contexto do sector alimentar, atribuindo‑lhe novamente uma posição competitiva.
Trata-se de uma empresa que em termos de crescimento se encontra em fase de contracção. Os departamentos têm diminuído e tem-se apostado na especialização de determinadas áreas de produção. Em Lisboa, a empresa assegura duas actividades principais, uma de cariz comercial (marketing, vendas, informática, atendimento ao cliente e expedição); e outra de cariz produtivo. Em termos organizacionais as principais diferenças estão descritas no quadro síntese que se segue:

COMPORTAMENTOS DE SEGURANÇA NUMA ÁREA PRODUTIVA
Nesta fase é importante considerarmos o conceito de implicação atitudinal organizacional. Este refere-se ao grau de compromisso estabelecido entre o trabalhador e a organização, tentando perceber até que ponto o trabalhador está implicado na empresa, principalmente no que se refere ao alcance dos objectivos e manutenção de normas e valores da organização, isto é, o que realmente é importante para a organização. Assim, as acções de formação acabam por ter um papel central na implicação de cada um, com o que a empresa valoriza. Contudo, a implicação de um indivíduo numa empresa não é algo uniforme e varia conforme a dimensão, estrutura, tipo de organização e características pessoais de cada um dos trabalhadores. A formação e a informação são dois conceitos extremamente importantes para a questão da implicação organizacional. Do que foi possível observar, a empresa não tem uma estratégia de formação definida. Opta por formações pontuais e de carácter distinto, consoante estejam direccionadas para a área produtiva ou para a área comercial. No que diz respeito à área comercial, e uma vez que a empresa considera que a mesma não se encontra exposta a riscos, não houve nenhuma acção de formação; quanto à área produtiva verifica-se que a última acção de formação tem a data de 2004.

«As acções de formação, em torno da segurança, têm especial relevância se tivermos em conta que a média de idades dos trabalhadores é superior a 45 anos, sendo que o nível de escolaridade ronda o ensino primário.»

Nesta organização as acções de formação, em torno da segurança, têm especial relevância se tivermos em conta que a média de idades dos trabalhadores é superior a 45 anos, sendo que o nível de escolaridade ronda o ensino primário. Além de mais, não se prevêem estratégias de rejuvenescimento da população laboral. De acordo com a informação recebida aquando da última formação houve um in cremento da importância atribuída à segurança por parte de todos, contudo esse interesse foi pontual e foi decrescendo, sendo actualmente mínimo se não mesmo nulo.
Desde então tem-se optado por transmitir a informação através da intranet, afixando-se a informação em painéis ou transmitindo-a verbalmente através da cadeia hierárquica vertical. Como já foi referido, o risco de acidentes e doenças profissionais na área de produção é elevado. Para minimizar estes riscos é importante que as regras estabelecidas sejam cumpridas de forma escrupulosa. A presença de um único ponto de acesso ao computador em cada segmento da área produtiva significa que, para cada 16 trabalhadores, há apenas um computador com acesso à intranet, o que quer dizer que há oito a trabalhar em simultâneo. Uma vez que o trabalho implica a circulação entre os espaços, a intranet, para os operacionais, funciona mais como um painel do que como fonte de informação interactiva. No entanto, é importante ter em consideração que a intranet possibilita que a informação esteja sempre actualizada, logo, os chefes de turno têm acesso às actualizações que posteriormente divulgam junto dos seus colaboradores. Nesta indústria transformadora existe um grande entrave à segurança, que no meu entendimento está a montante destas questões, tem que ver com o compromisso da gestão de topo. Mesmo que a formação e a informação sobre a matéria chegasse a todos os trabalhadores, haveria sempre o problema da pouca valorização dada à segurança pelos dirigentes da organização.

Da análise deste caso, é possível retirar quatro conclusões/soluções:
1) A empresa deve apostar fortemente na formação em segurança, num ângulo de 360º, pois somente com a envolvência de todos é que os valores de segurança poderão ser incorporados;
2) É importante que a empresa, na área industrial, implique o máximo possível os seus trabalhadores no processo de segurança, não só nos processos laborais como também no dia-a-dia familiar e pessoal. Assim, o trabalhador sentir-se-á mais integrado e mais disposto a interiorizar a informação que a organização transmite. A empresa, ao agir sobre o trabalhador de forma activa, faz com que este se sinta implicado na responsabilidade de garantir a segurança de todos e do seu próprio espaço de trabalho;
3) Quanto mais elevada é a idade média dos trabalhadores, mais dinâmicas devem ser as formas de transmissão da informação e de formação. Um ponto de intranet para oito pessoas e painéis de informação não são suficientes. É necessário combinar formas passivas com formas activas sequenciais de formação contínua;
4) O controlo, enquanto forma activa de promoção da segurança, tem um efeito perverso. Este controlo é encarado pelos trabalhadores como uma crítica, uma “chamada de atenção”. Assim, o trabalhador irá agir de forma equívoca, porque se sente pressionado pelo observador e não porque acredita na segurança. Na primeira oportunidade, quando não se sentir observado, irá agir de forma insegura e descuidada. Se na organização todos valorizarem o mesmo, porque compreendem os riscos associados e porque acreditam que a melhor forma de garantir a segurança é assumindo comportamentos seguros, então não há necessidade deste controlo activo e sempre presente.

Bibliografia
Meyer, J., & Allen, N., Commitment in the workplace: Theory, research and application, Thousand Oaks, Sage, 1997.
J.M.C. Ferreira,.J. Neves, e A. Caetano, Manual de Psicossociologia das Organizações, Lisboa, McGraw-Hill, 2001.
GRAÇA, L., Política(s) de saúde no trabalho: um inquérito sociológico às empresas portuguesas, Tese de candidatura ao grau de Doutor em Saúde Pública na especialidade de Saúde Ocupacional pela Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa, 2004.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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