PROMOÇÃO DA SEGURANÇA INTERPESSOAL EM MEIO ESCOLAR

01 maio 2017
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Author :   Margarida Gaspar de Matos
Citar ARTIGO: Gaspar de Matos, M. 2010. Promoção da segurança interpessoal em meio escolar. Revista Segurança Comportamental, 1, 30-31 MARGARIDA GASPAR DE MATOS |Psicóloga. Faculdade de Motricidade Humana UTL

A existência de grupos distintos com diferentes tipos de envolvimento em actos violentos na escola. A influência das variáveis idade, género, região do país e até de cada escola faz a diferença! 

Resumo
Podemos identificar grupos distintos com diferentes tipos de envolvimento em actos violentos na escola? Como variam estes actos em termos da idade, género, região do país e até em cada escola? E como tem sido a variação nos últimos anos? Foram utilizados os dados provenientes da Base de Dados Portuguesa da HBSC, Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC).

O Estudo HBSC
Os amigos são uma fonte inestimável de capital social na infância e na adolescência, mas algumas relações interpessoais com o grupo de pares são violentas. Roth e Brooks‑Gunn (2000) chamam a atenção para o conjunto de aspectos que podem exercer uma influência positiva ou negativa no desenvolvimento de comportamentos violentos entre os pares: a amizade; a resistência à influência dos pares; os interesses do dia-a-dia; os modelos sociais; o equilíbrio entre o risco e o apoio social; e a associação com pares desviantes.
Apesar de não directamente envolvidos em actos de violência/provocação, alguns jovens podem ter um papel de relevo na gestão dos conflitos interpessoais. Estes, também denominados de “bystanders” (observadores), presenciam os acontecimentos adoptando uma posição passiva, mas presente e atenta. Outros, podem tomar uma posição activa (defensores), tentado ajudar as vítimas. Há ainda outros, pelo contrário, que tentam incentivar (incentivadores) os agressores (Olweus, 2003; Samivalli, 2001).

«Vários estudos relacionam a violência nas escolas com condições e modelos familiares, o ambiente da escola e o ambiente da zona de habitação.»

A par destes factores de ordem pessoal e relacional, vários estudos relacionam a violência nas escolas com condições e modelos familiares, o ambiente da escola e o ambiente da zona de habitação (Matos, 2005; Matos, Negreiros, Simões & Gaspar,2008; Matos & Sampaio, 2009).
Em Portugal, segundo o estudo HBSC (Health Behaviour in School-Aged Children) realizado nos anos de 1998, 2002 e 2006 (Matos et al. 2006), a provocação intensa (mais de duas vezes por semana nos últimos dois meses) diminuiu de 2002 para 2006, invertendo assim a trajectória crescente de 1998 para 2002, tendo mais peso a diminuição do número de alunos vítimas de provocação.
Numa amostra de 11 008 alunos englobando dois estudos HBSC, em 2002 e 2006, tomando quatro variáveis relativas a situações de violência, realizou-se um KCluster onde se obteve três grupos que foram identificados como correspondendo às situações: “sem envolvimento” (N = 7674, 73,8%); “envolvimento sem porte de arma” (N = 2169; 20,9%); e “envolvimento com porte de arma” (N = 558, 5,4%).

«Na zona Centro, Lisboa/Vale do Tejo e Alentejo o número de escolas do grupo violento excede o número de escolas do grupo não violento.»

A utilização do teste de Qui-quadrado confirmou uma diminuição significativa do envolvimento nestas situações de violência entre 2002 e 2006 (X2 = 19,21 (2) p<.001), com uma diminuição do envolvimento com porte de arma, de 5,6% para 5,1%; do envolvimento sem arma de 22,3% para 19%; e um aumento do não envolvimento de 72,1% para 75,9%. Evidenciou ainda uma diferença significativa do envolvimento nos casos de violência entre rapazes e raparigas (X2 = 596,53 (2) p<.001), com um menor envolvimento das raparigas na violência com porte de arma (1,4% para 9,6% nos rapazes); menor envolvimento sem armas (15,6% para 26,4% nos rapazes); e um maior não envolvimento (83% para 64% nos rapazes). Por fim evidenciou ainda uma diminuição significativa do envolvimento nos casos de violência com a evolução na escolaridade (X2 = 216,71 (4) p<.001), nos mais velhos sendo mais frequente o não envolvimento (70,1% no sexto ano de escolaridade, 70,8% no oitavo ano e 81,8% no décimo ano). A análise da distribuição dos alunos pelos três grupos face a situações de violência em função da região revelou também diferenças significativas (X2 = 40,769 (8), p<.001).
Agrupando os alunos em dois grupos: “Não envolvimento em situações de violência”; e “Envolvimento em situações de violência” – foi feito um estudo da distribuição destes grupos pelas 134 escolas do país incluídas no estudo (52 escolas na Zona Norte; 43 na Zona de Lisboa/Vale do Tejo; 25 na Zona Centro; 7 no Alentejo; e 7 no Algarve), considerando cada região separadamente. Através da medida do Qui-quadrado, com apuramento dos residuais ajustados, foi possível identificar 22 escolas (16,4%) em todo o país que significativamente se distinguiram pelo maior envolvimento em situações de violência por parte dos seus alunos; e 17 escolas (12,7%) que se distinguiram significativamente pelo baixo envolvimento em situações de violência (em todos os casos correspondendo a residuais ajustados superiores a 1,9).
Considerando as escolas por região verifica-se que na Região Norte e no Algarve o número de escolas do grupo “não violento” (8 e 1 respectivamente) excede o número de escolas do grupo “violento” (6 e 0 respectivamente), ao passo que na Zona Centro, Lisboa/Vale do Tejo e Alentejo o número de escolas do grupo “violento” (8, 5 e 3 respectivamente) excede o número de escolas do grupo “não violento” (4, 2 e 2 respectivamente).

Algumas soluções:
– Vigie os amigos e colegas que acompanham a criança ou adolescente;
– Conheça os seus interesses e esteja atento às mudanças;
– Cuide do seu ambiente relacional familiar e escolar.

Este resultado demonstra, por um lado, que a violência “problemática” ocorre num número reduzido (embora sempre preocupante) de escolas, por outro lado, evidencia que é possível identificar “escolas” com boas e más vivências e boas e más práticas em relação à violência.
Falando de “responsabilidade ambiental da escola” na prevenção da violência, as medidas preventivas têm, pois, que incidir sobre as próprias escolas, enquanto contextos ecológicos de vida e de relação interpessoal que podem marcar a diferença!
Em relação às “responsabilidades pessoal e social associáveis aos alunos e às famílias”, a mera informação (leccionação) é insuficiente para promover a adopção de um tipo de relação interpessoal e de gestão de conflitos sem recurso à violência. Preconizam-se por isso abordagens educacionais focadas no desenvolvimento de competências de vida, com intuito de ajudar os alunos (e famílias) na aquisição de competências pessoais e sociais, na gestão e regulação das emoções, no desenvolvimento de relações gratificantes sem recurso à violência (Matos, 2005; Matos & Sampaio, 2009).

Bibliografia
MATOS, M. G. & SAMPAIO, D., Jovens com saúde: Diálogos com uma geração, Lisboa: Texto Editores, 2009.
MATOS, M. G., NEGREIROS, J., SIMÕES, C., & GASPAR, T., Definição do Problema e caracterização do fenómeno, in Gestão de Problemas de Saúde em Meio Escolar: Violência, Bullying e Delinquência, H. C. Filho & C. Ferreira-Borges (org.), vol. III, pp. 23-53, Lisboa: Coisas de ler, 2009.
MATOS, M. G., in Comunicação, gestão de conflitos e saúde na escola, Lisboa: FMH, 2005.
MATOS, M. G., Equipa do Projecto Aventura Social e Saúde. A saúde dos adolescentes portugueses – agora e em 8 anos, Lisboa: Edições Faculdade de Motricidade Humana, 2006, in: www.aventurasocial.com
OLWEUS, D., A profile of bullying at school, in Educational Leadership, 60 (6), 12-, 2003.
ROTH, J., & BROOKS-GUNN, J., What do adolescents need for healthy development? Implications for youth policy, in Social Policy Report, 14 (1), pp. 3-19, 2000.
SALMIVALLI, C., Group view on victimization: empirical findings and their implications, in Peer harassment in school. The plight of the vulnerable and victimized, J. Juvonen & S. Graham (ed.), pp. 398-420, Guilford: Nova Iorque, 2001.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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