DEPRESSÃO, UMA DAS MAIORES DOENÇAS SOCIAIS DA ACTUALIDADE!

01 maio 2017
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Author :   Elisabete Carreira
Citar ARTIGO: Carreira, E. 2010. Depressão, uma das maiores doenças sociais da actualidade!. Revista Segurança Comportamental, 1, 32-33 ELISABETE CARREIRA |Socióloga. Especialista em Sociologia da Saúde e Gerontologia

As autoridades de promoção de saúde deverão conduzir os indivíduos sociais a avaliarem o risco de sofrerem uma doença e de mudarem o seu comportamento adequadamente, ou seja, de maneira a reduzirem esse risco e a preservarem a sua saúde, comportando‑se de forma segura!

A depressão é a doença, ou ausência de saúde, que, para além dos condicionantes internos, tem presente uma série de condicionantes externos ao indivíduo que limitam o seu bem-estar e daqueles que o rodeiam.
De acordo com o Ministério da Saúde (1), uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão. Um em cada cinco utentes, dos cuidados de saúde primários portugueses, encontra-se deprimido no momento da consulta. Atendendo à magnitude desta problemática, esta é reconhecida no Plano Nacional de Saúde 2000-2010 como um problema primordial de saúde pública, que importa conhecer e procurar soluções que minimizem ou erradiquem as consequências deste estado de não saúde. Compreender a depressão no indivíduo social implica perceber as suas causas, bem como as representações sociais associadas a esta patologia, porque só assim será possível estabelecer controlo e normas de conduta, bem como prever comportamentos de risco perante este estado.
As representações da saúde e da doença relacionam o biológico com o social, sendo possível configurá-las numa dupla oposição: a da saúde à doença redobrando e objectivando a do indivíduo à sociedade (HERZLICH, p. 349, 1992). Actualmente, a sociedade e os seus perigos parecem encarnar-se na medicina e nas suas intervenções, tornando-se esta o epicentro dos conflitos culturais e sociais, deixando a saúde e a doença de dizer respeito apenas ao indivíduo (HERZLICH, p. 354, 1992). A saúde transformou-se numa espécie de supercategoria, com campos de intervenção cada vez mais vastos – a saúde está em tudo e tudo está na saúde (HERZLICH, p. 353, 1992), e a doença deixou de ser entendida como uma questão de destino para passar a ser um assunto sobre o qual é possível exercer uma acção racional. O mesmo é dizer que a saúde passou a ser vista como uma norma a ser seguida (SCOTT e FREEMAN, 1995, p. 151; HERZLICH, p. 353, 1992). Percebe-se, assim, que a saúde surja como um dos principais focos da ansiedade relacionada com o risco. Aqui, o termo “risco”, decorrendo dos perigos, é uma presença constante, sendo que os indivíduos ou grupos são categorizados como estando em “alto risco” se estiverem em perigo de contrair ou desenvolver uma determinada doença.

«Ainda que o risco seja assumido como colectivo, cada indivíduo tem a probabilidade distinta de sofrer um ou outro risco, e é essa probabilidade que lhe cabe gerir e controlar.»

É notória, na saúde pública, a predominância de dois tipos de discurso sobre o risco: um deles encarando os riscos como os perigos de saúde causados pelas catástrofes ambientais, tratando-se, portanto, de causas externas sobre as quais os indivíduos têm pouco controlo; e um outro, referindo-se ao risco como consequência das escolhas de vida de cada um, enfatizando as causas internas e, concomitantemente, o autocontrolo. É no quadro deste último tipo de discurso que melhor se compreende a exortação feita pelas autoridades de promoção de saúde no sentido de levar os indivíduos a avaliarem o risco de sofrerem uma doença e de mudarem o seu comportamento adequadamente, ou seja, de maneira a reduzirem esse risco e a preservarem a sua saúde, comportando-se de forma segura (LUPTON, p. 77, 1995). Embora, sempre os comportamentos seguros se traduzam em níveis superiores de saúde. Ainda que o risco seja assumido como colectivo, cada indivíduo tem a probabilidade distinta de sofrer um ou outro risco (LUPTON, p. 79, 1995), e é essa probabilidade que lhe cabe gerir e controlar.
O controlo sobre a doença e sobre o que é considerado doença pretende ser feito tendo em conta os comportamentos dos indivíduos face à mesma e ainda pela mobilização da doença na sociedade. Talvez por isso sejamos invadidos constantemente no sentido de minimizar o risco que lhe é associado, porque só assim podemos viver mais tempo e com mais qualidade.

«A depressão não constitui apenas um problema individual, é também, de acordo com a sua representação social actual, um problema social que compromete a vida dos indivíduos na sociedade.»

Em conformidade, a depressão não constitui apenas um problema individual, é também, de acordo com a sua representação social actual, um problema social que compromete a vida dos indivíduos na sociedade.
No entanto, é preciso pensar-se no indivíduo enquanto ser único que exige respostas adaptativas, individuais e urgentes. É importante trabalhar o Autoconceito, ou seja, o conceito que o indivíduo faz de si mesmo, como um ser físico, social e espiritual ou moral (SEQUEIRA, p. 56, 2006). Nem sempre ao longo da vida, o Autoconceito do indivíduo, que é transmitido por intermédio da socialização, é bem concedido, o que poderá conduzir à sua exclusão social, ou seja, o indivíduo não se sente aceite nem se vê como um ser autónomo, competente para o seu desempenho social. Consequentemente poderá conduzir a estados de tristeza imensa, de desadequação social, promovendo o advento da depressão.
De acordo com o autor ultramencionado, quanto mais Autoconceito tiver um indivíduo, melhor será o seu desempenho, a sua capacidade de resolução dos problemas, procedimentos integrativos e adaptativos.
Outro aspecto fundamental na compreensão desta problemática é a Auto‑estima. Esta não é mais que a atitude que o indivíduo tem de si mesmo, e que, tal como o Autoconceito, se adquire ao longo do crescimento e do desenvolvimento individual (SEQUEIRA, p. 56, 2006).
A Auto-estima poderá ajudar a ultrapassar dificuldades pessoais, ou seja, a capacidade de um indivíduo encontrar em si próprio e nos seus recursos a resposta para os desafios que vão surgindo. Quando a Auto-estima existe, ela permite uma relação social saudável e positiva, desenvolve a criatividade, a confiança, e permite uma aprendizagem real. A crença em nós próprios permite uma participação activa e sustentada na sociedade.
Quando se verifica, no indivíduo, uma Auto-estima diminuída, poderemos estar perante um futuro deprimido, auto-excluído e, consequentemente, excluído da sociedade activa. Esta envolve auto-avaliações negativas, associadas a sentimentos de fraqueza, medo, fragilidade, impotência e incapacidade, desencadeando estados de não saúde. (SEQUEIRA, p. 60, 2006).

Algumas soluções:
– Trabalhar a imagem de si mesmo (autoconceito);
– Trabalhar a atitude que tem de si mesmo (auto-estima);
– Trabalhar a capacidade de controlar o seu comportamento (autocontrolo).

O Autocontrolo, ou seja, a capacidade do indivíduo controlar o seu próprio comportamento, torna-o um agente activo na manutenção da sua saúde, na ausência da doença na sua vida (SEQUEIRA, p. 64, 2006).
A representação social da doença, neste caso da depressão, implica uma avaliação ou reconhecimento do problema e ainda da capacidade dos indivíduos, bem como dos profissionais de saúde, de incrementar uma pedagogia de conhecimento individual, procurando estratégias inclusivas que desenvolvam a crença no indivíduo e na sua capacidade de ultrapassar o problema.

Bibliografia
FREEMAN, Richard e SCOTT, Sue, “Prevention as a problem of modernity: the example of HIV and AIDS”, in GABE J. (ed.), Medicine, Health and Risk. Sociological Approaches, Oxford, Blackwell Publishers, pp. 152-167, 1995.
HERZLICH, Claudine, “Représentations sociales de la santé et de la maladie et leur dynamique dans le champ social”, in FLICK U. (ed.), La Perception Quotidienne de la Santé et de la Maladie, Paris, L’Harmattan, pp. 347-357, 1992.
LUPTON, D., The Imperative of Health. Public Health and the Regulated Body, Londres, Sage Publications, pp. 77-105, 1995.
MOSCOVICI, Serge, “La mentalité prélogique des civilisés”, in FLICK U. (ed.), La Perception Quotidienne de la Santé et de la Maladie, Paris, L’Harmattan, pp. 293-319, 1992.
TURNER, Bryan S., “Medical Sociology”, in Medical Power and Social Knowledge, Londres, Sage Publications, pp. 1-17, 1987.
TURNER, Bryan S., “The body and medical sociology”, in Regulating Bodies, Londres, Routledge, pp. 151-174, 1992.
SEQUEIRA, Carlos, “Introdução à Prática Clínica – do diagnóstico à Intervenção em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiatria”, Editora Quarteto, Coimbra, pp. 15-77, 2006.
STACEY, Margaret e HOMANS, Hilary, “The Sociology of Health and Illness: its present state, future prospects and potential for health research”, Sociology, n.° 12, pp. 281-307, 1978.

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(1) http://www.portaldasaude.pt

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