RISCOS AMBIENTAIS: PERCEPÇÕES, ATITUDES E COMPORTAMENTOS DOS ACTORES SOCIAIS

01 maio 2017
(0 votos)
Author :   João Areosa
Citar ARTIGO: Areosa, J. 2010. Riscos ambientais: percepções, atitudes e comportamentos dos actores sociais. Revista Segurança Comportamental, 1, 34-35 JOÃO AREOSA | Sociólogo. Técnico Superior de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho. Mestre em Sociologia do Trabalho e do Emprego.

Os riscos globais tornaram‑se, metaforicamente, mais democráticos, considerando que podem afectar toda a população, independentemente da classe social, género ou região do globo onde se habita.

Nas últimas décadas alguns riscos ambientais parecem ter assumido um certo protagonismo quer no âmbito do debate político e científico, quer nas preocupações da generalidade da população. As posições no seio da sociedade sobre este tema estão longe de ser consensuais, e é neste contexto que parece pertinente discutir como é que são construídas as percepções, as atitudes e os comportamentos face aos riscos ambientais. A teoria culturalista preconizada por Douglas e Wildavsky (1982) aponta a existência de profundas diferenças nos discursos sobre os riscos, isto é, entre leigos e especialistas, considerando que reflectem diferenças de poder e visões do mundo descoincidentes. Durante algum tempo julgou-se que as percepções e as atitudes do público leigo seriam factores preditores do comportamento. Porém, diversos estudos vieram demonstrar que isto nem sempre se verifica, dado que estes aspectos derivam de factores muito diversificados.
É verdade que o conhecimento científico relacionado com os riscos ambientais tende a ser concebido como dominante e emancipador, enquanto as percepções, atitudes e comportamentos associados ao senso comum tendem a ser secundarizados, apelidados de falta de rigor e baseados em emoções, por vezes até considerados como “irracionais” (cf. Hannigan, 1995). Este ainda é o paradigma dominante na nossa sociedade, embora não seja um modelo epistemologicamente encerrado, visto que já existem fortes opositores a esta “velha” concepção (Slovic, 2000). Na verdade, parece existir uma concepção diferente dos riscos quando estes são observados por especialistas e por leigos (Palma-Oliveira et al, 2005: 135 e 136).
Para os cientistas sociais os riscos ambientais estão intimamente vinculados à compreensão daquilo que se pode constituir como um perigo ou uma ameaça ambiental e a quem estas situações podem afectar.

«Para os cientistas sociais os riscos ambientais estão intimamente vinculados à compreensão daquilo que se pode constituir como um perigo ou uma ameaça ambiental e a quem estas situações podem afectar.»

Segundo Mela et al. (2001: 165), verifica‑se a existência de quatro perspectivas típicas acerca dos riscos ambientais:
1. Fatalistas: A perspectiva deste conjunto de actores sociais afirma que a natureza é caprichosa e imprevisível, logo, não é possível adoptar medidas para tentar controlar as suas dinâmicas;
2. Expansionistas: Este “grupo” faz a apologia do desenvolvimento socioeconómico “a todo o custo”, defendendo que a natureza é forte e que as eventuais perturbações no ambiente vão encontrar uma nova reacção que conduzirá ao seu reequilíbrio;
3. Comunitaristas: Para os indivíduos pertencentes a este “grupo” a natureza é frágil. Quaisquer desvios às suas condições de equilíbrio podem tornar-se um risco grave e desencadear um processo de degradação irreversível;
4. Dirigistas: Os agentes sociais que partilham esta perspectiva consideram que a natureza é forte, mas dentro de certos limites. Consideram também que até determinado ponto a natureza tem capacidade para recuperar o seu equilíbrio, mas ultrapassando esse ponto podem ocorrer efeitos irreversíveis.
Na perspectiva de Giddens (1994; 2000), as percepções dos riscos ambientais variam no sentido inverso da confiança na ciência e nas instituições governamentais. Um dos exemplos paradigmáticos desta situação é apresentado por Slovic (1993), onde é notória uma certa conflitualidade social, traduzida na quebra de confiança entre a população em geral e quem efectua a gestão dos resíduos nucleares, ou seja, instituições poderosas (entidades científicas, governamentais ou industriais). A confiança na ciência tem vindo também a perder algum fulgor derivado, em parte, à emergência de riscos ambientais ou de saúde pública, gerados pelas inovações científica e tecnológica. Aliás, segundo Beck (1992), a ciência contemporânea foi ela própria geradora de múltiplos riscos. Uma das teses centrais deste autor, onde é debatido o conceito de sociedade de risco, revela que alguns dos novos riscos, entre os quais podemos incluir os riscos ambientais, deixaram de poder ser pensados como fenómenos locais, circunscritos a uma determinada área ou situação, visto que estes assumem cada vez mais um carácter global. Actualmente vivemos numa era dominada pela incerteza, onde em certas situações de risco ninguém sabe como actuar. Para além disso, os riscos globais tornaram-se, metaforicamente, mais democráticos, considerando que podem afectar toda a população, independentemente da classe social, género ou região do globo onde se habita. Normalmente, os riscos mais assustadores para o público leigo apresentam um carácter “devastador, incontrolável e involuntário” (Lima, 2005: 216). Algumas catástrofes naturais são disso um bom exemplo, uma vez que têm origem em riscos que não conseguimos controlar.
Tanto as percepções de riscos naturais (sismos, vulcões, tornados, etc.), como as percepções de riscos de origem tecnológica, nomeadamente o rebentamento de barragens ou a explosão de centrais nucleares, podem resultar em dois tipos de atitudes por parte da população: isto é, ou existe uma “aceitação pragmática”; ou um “pessimismo cínico” (Giddens, 1994: 117).

«Actualmente vivemos numa era dominada pela incerteza, onde em certas situações de risco ninguém sabe como actuar.»

A sociedade em geral tende a atribuir significados e valorizações diferentes às informações proferidas pelos múltiplos agentes sociais que abordam os fenómenos do risco ambiental. Todavia, não podemos deixar de equacionar as questões como: Quem gera o risco e quem beneficia com a sua criação? Quais as pessoas que irão ser prejudicadas com a emergência deste(s) novo(s) risco(s)? Quais as consequências sociais que certos riscos podem causar no presente e no futuro? A realidade tem demonstrado que há por vezes uma certa tensão conflitual entre as diversas partes envolvidas no estudo do risco. As situações de conflito tanto podem surgir de forma camuflada, como de forma mais explícita, particularmente no que se refere à escolha das suas metodologias de avaliação e respectivas conclusões.
Um dos temas equacionado por Douglas e Wildavsky (1982) está relacionado com a forma como os riscos tecnológicos se articulam com o meio ambiente. Parece haver um entendimento generalizado que aponta para a possibilidade dos riscos tecnológicos influenciarem negativamente a natureza, sabendo que este tipo de riscos são tendencialmente vistos como ocultos, involuntários e irreversíveis. Porém, enquanto os seus eventuais efeitos adversos não forem confirmados, parece haver uma certa tolerância com a sua presença. Mas se os efeitos nocivos estão confirmados, entramos no domínio da aceitabilidade do risco, onde é avaliada a relação custo/benefício. Alguns estudos demonstram que a partir de um determinado nível as pessoas deixam de aceitar os riscos (Douglas, 1985). Aquilo que necessita de ser explicado, segundo a perspectiva culturalista, é o motivo que leva as pessoas a continuarem a ignorar muitos dos perigos potenciais que existem à sua volta, concentrando-se apenas em seleccionar determinados riscos, por vezes os menos relevantes.
Porque é que demonstramos ter medo apenas de alguns tipos de riscos? Provavelmente, porque não temos a capacidade de identificar e avaliar todas as situações de risco; muito embora, segundo os autores de Risk and Culture, uma das explicações possíveis para esta questão se deva ao facto de, nos últimos anos, aquilo que anteriormente era visto como uma fonte de segurança (relações interpessoais, família, trabalho, etc.), se ter tornado hoje uma fonte de risco.
O ambiente é também um dos exemplos paradigmáticos desta nova visão, porque onde antes havia a sensação de segurança, existe hoje a percepção de risco. Recorrendo a uma certa ironia, segundo a teoria de Douglas e Wildavsky (1982: 10), as pessoas não têm receio de nada, excepto da comida que comem, da água que bebem, do ar que respiram, da terra onde vivem e da energia que utilizam.

Bibliografia
BECK, Ulrich, Risk society. Towards a new modernity. Londres: Sage, 1992.
DOUGLAS, Mary; WILDAVSKY, Aaron, Risk and culture: An essay on the selection of technological and environmental dangers. Berkeley, CA: University of California Press, 1982.
DOUGLAS, Mary, Risk acceptability according to the social sciences. Nova Iorque: Russel Sage Foundation, 1985.
GIDDENS, Anthony, Modernidade e identidade pessoal. Oeiras: Celta Editora, 1994.
GIDDENS, Anthony, O mundo na era da globalização. Lisboa: Editorial Presença, 2000.
HANNIGAN, John, Sociologia ambiental: A formação de uma perspectiva social. Lisboa: Piaget Editora, (1995).
LIMA, Maria Luísa, “Percepção de riscos ambientais”, in Contextos humanos e psicologia ambiental, Luís Soczka (org.), Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 203-
-245, 2005.
MELA, Alfredo; BELLONI, Maria; DAVICO, Luca, A sociologia do ambiente. Lisboa: Editorial Estampa, 2001.
PALMA-OLIVEIRA, José et al, “Monitorização psicossocial de uma actividade industrial”, in Análise e gestão de riscos, segurança e fiabilidade, Guedes Soares et al (orgs.), Lisboa: Edições Salamandra, pp. 133-148, 2005.
SLOVIC, Paul, “Perceived risk, trust and democracy”, in Risk Analysis, 13, pp. 675-682, 1993.
SLOVIC, Paul, The perception of risk, Londres: Earthscan Publications, Ltd., 2000.

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

Social Share

Pagamentos

# # # #


 

Top
We use cookies to improve our website. By continuing to use this website, you are giving consent to cookies being used. More details…