O PAPEL DOS COMPORTAMENTOS NA SEGURANÇA

02 maio 2017
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Author :   Rui Mendes
Citar ARTIGO: Mendes, R. 2010. O papel dos comportamentos na segurança. Revista Segurança Comportamental, 1, 42-43 RUI MENDES | Doutorando em Segurança e Higiene no Trabalho na Universidade de León. Coordenador do curso de Pós-Graduação de TSSHT do Instituto Piaget.

É verdade de La Palisse: o comportamento é importante para a segurança!

Com o decorrer natural do nosso desenvolvimento, do processo de aprendizagem e da qualidade na socialização, vamos ajustando os nossos comportamentos de forma consciente para podermos satisfazer as nossas necessidades sociais. Ao longo dos anos passamos por várias experiências que envolvem uma grande carga de aprendizagem relacionada com a cognição e emoção. Poderemos dizer que o sujeito com formação social estável e formação educacional adequada tenderá a ser um cidadão com um comportamento que se aproxima dos padrões instituídos.
Os valores que um indivíduo interioriza num determinado grupo social e profissional formam aquilo que ele é, e aquilo que ele sabe. O comportamento inseguro no trabalho deverá ser condenado, uma vez que também compromete a segurança e bem-estar de outros trabalhadores. Mas, como criar rotinas de trabalho mais seguras, se o trabalhador executa as suas tarefas da mesma maneira há muitos anos e nunca teve grandes acidentes? Será que ele tem um comportamento desajustado? Será que a sua forma de trabalho condiz com o padrão que naquela profissão se pratica desde sempre. Obviamente, para nós, enquanto técnicos de segurança, o seu comportamento poderá ser inseguro. O trabalhador, geralmente, tem a noção dos riscos, mas porque será que os corre? Será que há falta de formação? Vergonha de aceitar a ignorância? Noção distorcida do controlo da situação? Desvalorização e distorção das consequências? Falta de reflexão sobre as consequências? Clima de segurança desfavorável? Informação medíocre e não representativa? Políticas mal definidas? Incoerência das normas de segurança?
Deve-se avaliar se a atitude é ou não favorável face à segurança. Haverá tendência para ter um comportamento em relação à segurança que confirme as suas atitudes e crenças. Uma atitude positiva garante maior probabilidade de que o trabalhador tenha comportamentos mais seguros.
Um trabalhador para dar cumprimento às normas de segurança tem que acreditar, e para acreditar tem que saber como se faz em segurança. Conhecer as consequências, para ele e para a sua família, se tiver um acidente de trabalho, perceber que implicará com a segurança dos colegas, que poderá comprometer a viabilidade da sua empresa, e até mesmo criar uma catástrofe para a sociedade. No acidente da refinaria do Porto há cerca de quatro anos, onde se constatou um incumprimento das normas de segurança no trabalho, o acidente poderia ter implicado a desgraça de muitas famílias, tanto dos trabalhadores da organização, como daquelas que viviam nas proximidades. Será que os trabalhadores tinham prévia consciência da gravidade/consequência que os seus comportamentos poderiam ter causado?

«Poderemos dizer que o sujeito com formação social estável e formação educacional adequada tenderá a ser um cidadão com um comportamento que se aproxima dos padrões instituídos.»

Com alguma frequência leio, ouço e discuto questões sobre as causas dos acidentes de trabalho, e verifico que a maioria dos acidentes de trabalho é motivada por causas humanas e não por questões técnicas e físicas dos locais de trabalho.
Segundo a minha opinião, é verdade que a maioria dos trabalhadores activos não tem formação permanente em segurança no trabalho (pelo menos adequada, em tempo e conteúdo, para as suas funções). Muitos deles nem sequer sabem como fazer de forma mais segura. Agem como que por instinto, sem que ninguém os ensine convenientemente como se deve fazer. Por vezes nem conhecem as normas e procedimentos, e nem sempre a informação escrita lhes chega. As administrações de muitas organizações não se debruçam seriamente na análise/avaliação de que a não segurança é um custo muito maior que a segurança. Não investem na formação e muito menos na melhoria das condições de trabalho. As organizações que investem na segurança são as que apostam na formação das suas hierarquias e trabalhadores, e são as que na sua actividade económica têm menos problemas relacionados com os acidentes de trabalho, doenças profissionais, absentismo, e outros percalços.
Com uma cultura organizacional que tenha como valor institucional a “segurança no trabalho”, que promulgue uma política de segurança activa, que dê condições aos técnicos e que se envolva, certamente irá proporcionar à organização o sucesso nos aspectos da segurança e ganhos financeiros significativos. Mas não é suficiente.

«A maioria dos acidentes de trabalho é motivada por causas humanas e não por questões técnicas e físicas dos locais de trabalho.»

As multinacionais que chegam ao nosso país travam grandes lutas para implementar os seus sistemas de segurança, mesmo quando detentoras de know-how, com políticas explícitas, normas ajustadas, procedimentos e todas as condições necessárias. Levam algum tempo a consciencializar os trabalhadores a terem um comportamento seguro e intrínseco, talvez por questões de formação e cultura.
A maioria das organizações não cumpre a legislação em vigor, e não implementa sistemas de segurança adequados às suas necessidades. Geralmente adjudicam a empresas externas e tentam pagar/gastar o mínimo possível, com cariz ilusório. Quando os valores institucionais estão centrados na maximização do lucro, no aumento da produção a qualquer custo, negligenciando e até criando incongruências nas questões da segurança no trabalho, certamente que o trabalhador percepciona o contexto e cria uma atitude negativa que potência um comportamento inseguro. Só cumpre as regras de segurança sob vigilância e controlo, não ficando consciencializado para a cultura de segurança. Se desafia as normas de segurança e alcança metas de produção, galgando postos elevados, fica evidente que a produção é o valor maior para a administração. Esse valor incorpora-se à cultura, e de nada adiantam discursos e políticas escritas, afirmando que o desempenho em segurança será levado em conta nas avaliações e promoções.

Algumas soluções:
– Consciencialização dos trabalhadores;
– Formação adequada e permanente em segurança no trabalho;
– Política de segurança activa.

Não existe uma poção mágica e única para cada organização, depende sempre da sua dimensão, actividade económica e da sua cultura organizacional. As questões da segurança devem ser valores implícitos da cultura organizacional, só assim se poderá produzir com e em segurança. A organização deverá ter técnicos ou empresas externas qualificadas. A escolha não deverá ser feita como se se tratasse de um custo, mas sim como de um investimento, analisando realisticamente o que proporcionará maior retorno em toda a componente do negócio ao longo do tempo. O benefício das condições de trabalho/segurança/satisfação, versus produção/vantagens de não acidentes de trabalho/imagem da organização são alguns pontos a ponderar.
Mesmo com condições inseguras, se o trabalhador tiver formação técnico-profissional, formação em segurança no trabalho e maturidade profissional tenderá a ter um comportamento de segurança adequado. Se a organização não tem como valores a segurança e nem dispensa recursos, não promove uma política de segurança. Ou seja, têm condições inseguras para os seus trabalhadores, e se os mesmos não têm a formação adequada, provavelmente a tendência é para que o seu comportamento não seja o mais seguro.
O comportamento seguro, no trabalho, depende tanto da formação da pessoa/trabalhador, como das condições que as organizações colocam ao seu dispor. Tanto quanto mais a organização promover a segurança no trabalho sob todos os aspectos, o trabalhador tenderá a ter comportamentos de segurança que se ajustem aos objectivos da organização.
O objectivo das organizações deverá ser o de maximizar a produção com qualidade total, o que implica o máximo de segurança possível e valorização do trabalhador enquanto ser humano. A generalidade dos trabalhadores ajustará o seu comportamento em prol da sua própria prosperidade e da organização.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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